Costura, yoga e dança animam os fins de tarde na Sociedade Vencedora Portimonense

Hélio Nascimento | Fotos. D.R.
Desde setembro do ano passado, sensivelmente, as portas da Sociedade Vencedora Portimonense abrem todas as tardes para acolher portimonenses dispostos a enriquecer a sua qualidade de vida e experimentar atividades tão díspares como são a dança, a yoga ou a costura. Professores experimentados e dedicados ensinam alunos de todas as idades, havendo também lugar a um convívio saudável e enriquecedor, sobretudo para aqueles que, na maioria dos dias, pouco saem de casa.
“Estas atividades, por uma feliz coincidência, arrancaram mais depressa do que pensávamos. Uma colega da direção soube que a professora Vitória procurava uma sala para o yoga, atrás disso a Paula Eduardo gostava de ter espaço para aulas de costura, algo fora da caixa, e, nesse sentido, porque queríamos trazer vida à coletividade e vida ao centro da cidade, concretizámos esse desejo”, explica Luís Monteiro, o presidente da Vencedora.
Assim sendo, todos os fins de tarde as salas da coletividade ganham cor e animação. A exceção é a sexta feira, “que queremos livre para podermos organizar a nossa agenda e preparar as caminhadas, as festas e as noites de fado”, completa o dirigente, abrindo a porta à conversa com Paula Eduardo, a responsável pela costura, formadora há mais de uma vintena de anos no Instituto de Formação Profissional a nível de todo o Algarve e que, antes da Vencedora, esteve na Associação de Reformados do Pontal.
“As pessoas mostraram interesse e tentei arranjar um espaço. Tenho alunas de mais e menos idade, que passam aqui três horas por semana. Trazem as máquinas e cada uma desenvolve o seu projeto, não fazem todas a mesma coisa”, especifica a professora. Há pessoas que preferem modelação e confeção, ou seja, fazer peças novas, outras optam pelo arranjo e transformação e outras pela costura criativa.
Fazer as próprias roupas
O trabalho é, pois, variado e cada pessoa desenvolve o seu gosto e interesse, o que levou a reportagem do Portimão Jornal a constatar, por exemplo, como se reciclam roupas já usadas, transformando as que estão apertadas e juntando calças e saias para fazer um vestido. “Fica uma peça diferente, num conceito agora muito usado, evitando-se o desperdício de roupa. E, depois, cada uma personaliza a seu gosto”, salienta Paula Eduardo.
A ‘menos jovem’ das alunas é Arminda, 67 anos, reformada e adepta confessa da costura. “Gosto de artesanato, de fazer coisas à mão e aqui ocupo o meu tempo”, um sentimento semelhante ao de Maria, que desde os 13 anos se dedicou à máquina de costurar. Igualmente reformada, “tenho vontade de aprender mais e aproveito estes bocados”. A mais nova do grupo, Sofia, tem 16 anos e foi “a curiosidade de experimentar” que a levou a dar este passo. “Gostei e continuei”, confessa, exibindo uma roupa feita por si.
Graça também pouco sabia da matéria, mas o facto de a mãe ser costureira ajudou na decisão. “Vim aprender, já estou com a Paula há quase três anos e quero aprender muito mais”, garante. Por último, Vitória, 17 anos, estudante de Ciências e Tecnologia, sempre teve interesse “em moda e em fazer as minhas próprias roupas”, uma paixão que continua a crescer.
O número de alunas nas aulas de quinta feira sofre oscilações, mas o princípio da Vencedora mantém-se: dar mais visibilidade e aumentar o número de sócios, o que tem sido conseguido, como confidencia Luís Monteiro, na sequência de novas iniciativas e de uma política de proximidade com a população.
“Não é por acaso que o baile de Carnaval deste ano teve uma adesão fantástica, com 90 pessoas presentes, em contraste com as 30 de 2024 e as 50 de 2025”. As comemorações do 102º aniversário, que já se iniciaram e têm um ponto alto no sábado dia 7 (ver outra peça), “vão confirmar esta vitalidade”.
Um octogenário a praticar yoga
As aulas de yoga na Sociedade Vencedora começaram em outubro do ano passado, com duas pequenas turmas. Um ano depois, o projeto reúne cerca de 20 praticantes, maioritariamente com mais de 40 anos e com diferentes capacidades e necessidades físicas, continuando, nesta altura, a acolher novos alunos.

Ao contrário do formato habitual de muitas aulas de ginásio, em que o grupo acompanha os movimentos de quem ensina, o yoga praticado na Vencedora privilegia a atenção individual, ou seja, a professora Vitória – a responsável desde a primeira hora – intervém, amiúde, pronta a dar atenção a todos os gestos.
“Cada postura é explicada, corrigida e adaptada ao corpo, ao ritmo e às limitações de cada aluno. Não são as pessoas que têm de se ajustar ao yoga – é o yoga que deve ir ao encontro de cada pessoa”, salienta a responsável, Vitória Texier de Matos, que, curiosamente, foi por motivos de saúde que passou a dedicar-se mais e a ensinar esta prática, ao que não é estranho o facto de durante alguns anos ter vivido na Índia.
Na Vencedora, há quatro aulas semanais, divididas por dois dias, para além das aulas online. Entre os praticantes, destaque para o mais velho, um senhor com a respeitável idade de 82 anos! “Ao longo destes meses, a prática tem ajudado os alunos a lidar melhor com problemas de costas, desconforto associado à ciática, ansiedade, insónia e sintomas da menopausa. A ampla sala, com o seu soalho de madeira, permite que todos usufruam de um bom espaço, conforto constante e segurança quanto baste”, acrescenta Vitória.
É também neste espaço que se criam relações de proximidade e um verdadeiro sentimento de pertença, explicam os intervenientes. A palavra yoga, de resto, possui vários sentidos, sendo ‘união’ um dos mais conhecidos. Na Vencedora “essa união acontece também entre pessoas, que encontram na coletividade uma verdadeira casa”.
Bachata é o estilo de dança mais procurado
“Esta iniciativa surgiu da vontade de criar um espaço onde as pessoas possam aprender, conviver e, acima de tudo, divertir-se através da dança. A Sociedade Vencedora Portimonense tem uma história muito importante na cidade e achámos que seria interessante trazer novas atividades e novos públicos para este espaço”, justificam Alexandra Martins e Pedro Casanova, os responsáveis dos ritmos que ‘novos e velhos’ querem praticar.

Entre esses ritmos, salsa, kizomba ou bachata? “São três estilos com uma enorme capacidade de juntar pessoas”, mas é a bachata a mais procurada entre os cerca de 50 alunos que duas vezes por semana, num total de quatro horas, dançam na Vencedora. As idades dos praticantes variam entre os 14 e os 60 e tal anos.
“Não é preciso ser bailarino para começar. A pessoa vem, aprende os primeiros passos, ganha confiança e rapidamente percebe que a dança é também uma forma de socialização”, argumentam os professores, cem por cento dedicados à causa que abraçaram.
“Na dança, muitas vezes a pessoa entra pela música e fica pelas amizades”, prosseguem. As aulas são para diferentes níveis e quem nunca dançou pode começar sem qualquer problema.
“Ninguém deve ter vergonha de não saber dançar. Vem, precisamente, para aprender. Gostávamos que as aulas crescessem e que cada vez mais pessoas descobrissem a dança. Mas não queremos apenas aumentar o número de alunos. Queremos criar uma comunidade, onde as pessoas se sintam bem, façam amizades e tenham vontade de voltar todas as semanas.”
Hoje em dia é cada vez mais importante criar motivos para as pessoas saírem de casa, encontrarem-se e participarem na vida da cidade, e, neste sentido, “a dança poderá ser uma das pontes mais sólidas entre a comunidade e a ocupação dos tempos livres”. Para já, o número de alunos continua a crescer, para satisfação de Alexandra Martins e Pedro Casanova.
Gala de Fado com cariz solidário
Há dois anos, no âmbito do centésimo aniversário, a Vencedora realizou uma Gala de Fado, esse cantar tão português que é Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2011, associando o fado à Vencedora, no seguimento dos espetáculos que a coletividade vem fazendo há largos anos. O evento também homenageou fadistas de Portimão, algo que se repete agora, com a II Gala, marcada para 5 de dezembro, no TEMPO. A ideia é organizar o espetáculo a cada dois anos, com pequenas nuances, sendo este ano solidário, a favor das obras da Igreja da Pedra Mourinha, com uma colaboração ao nível da receita para ajudar esse restauro.
“Em termos de elenco, vamos manter algumas prioridades”, garante Luís Monteiro, destacando uma revelação (Inês Marques no caso presente), fadistas de Portimão (Rita Raimundo, Ana Marques e Luana Velasquez), do Algarve (Helena Candeias e Pedro Viola), uma homenagem tipo prémio à carreira (Hélder Coelho) e uma artista de renome nacional (Teresa Tapadas). O acompanhamento fica a cargo de Vítor do Carmo, José Santana e Tó Correia, e, além dos parceiros institucionais, que são a Câmara, Junta de Freguesia e TEMPO, juntam-se os patrocinadores Glória e Silvestre e o Hotel Júpiter.
Clube União e Glória ou Morte participam em momento histórico
Hino volta a ser ouvido mais de 70 anos depois

A Sociedade Vencedora Portimonense fez 102 anos no passado dia 1, efeméride marcada pela missa em memória dos sócios falecidos, que decorreu na Igreja Matriz de Portimão. As celebrações continuam e atingem o ponto alto no sábado, dia 7, com uma noite que promete ser inesquecível, sobretudo porque o Hino da coletividade vai voltar a ser ouvido mais de 70 anos depois. Leu bem, é mesmo 70 anos!
“O Hino há mais de 70 anos que não é tocado e cantado. O Guido também não sabia ao certo, mas a mãe deu uma ajuda”, frisa Luís Monteiro, falando desse momento que ficará, certamente, memorável. De facto, poucas pessoas se lembram de ouvir o Hino, ou seja, seria arriscado adiantar a última data em que isso sucedeu. Porém, Ilda Mendes, de 94 anos, mãe do ex-presidente Guido Albino – uma figura carismática da coletividade – deu uma preciosa ajuda. “Ela cantarolou e o Paulo Segurado, que é professor de música e o presidente do Clube União Portimonense, desenvolveu a melodia”.
Faltava saber quem podia cantar. “Lembrei-me que o Glória ou Morte tem um grupo de cantares, o Vozes da Glória, e falei com o Nuno Velasques, que, de pronto, aceitou a ideia”, prossegue Luís Monteiro, o líder da Vencedora, satisfeito e orgulhoso de ter “retomado e reforçado a parceria com as outras coletividades centenárias de Portimão”. Uma ‘aliança’ que não pode deixar ninguém indiferente, por juntar, precisamente, três símbolos do associativismo da cidade.
Se ouvir o Hino vai ser a cereja em cima do bolo do aniversário, a festa de dia 7 comporta outros cenários, a começar pela obrigatória receção, às 20h30, acompanhada do saxofone de Luís Raposo. Seguem-se a atuação da banda algarvia Mar de Fora, o momento do Hino, os ‘parabéns a você’ e respetivo cortar do bolo, e, a terminar, baile com Alexandre Bernardo.

