David Cristina, de Portimão à ciência e aos palcos do humor 

Texto: José Garrancho | Fotos: D.R.


Doutorado em genética, empreendedor, investidor, assessor governamental, comunicador e humorista, David Cristina trocou o laboratório pelos negócios, sem nunca abandonar a vontade de contar histórias e fazer rir. O Portimão Jornal entrevistou o portimonense que conciliou a ciência com o empreendedorismo e o humor, para recordar as suas raízes, conhecer o caminho que percorreu e descobrir o que ainda o liga à cidade onde nasceu.

Que recordações guarda da cidade onde cresceu?
O parque infantil em frente à praça antiga, onde passava dias inteiros e de cuja areia, para mal dos meus pecados, ainda me lembro do sabor. De descer de skate a ‘Rua das Lojas’, a fazer um barulho infernal e a incomodar profundamente (e legitimamente) os transeuntes. E dos gelados no Pavilhão dos Gelados, junto ao rio, que acho que foram a minha primeira relação séria com uma substância aditiva.

Costuma regressar a Portimão? Que relação mantém com a cidade?
Vou a Portimão pelo menos três vezes por ano. A minha mãe ainda vive na casa onde crescemos. Ainda temos o negócio de família, agora chamado ‘Dom Cristina’. Já emocionalmente, gosto muito de Portimão, tenho uma nostalgia profunda e um amor por cada rua, por cada esquina, daqueles que só quem não mora lá pode ter. Gostava de ter laços mais fortes com a cidade, de fazer mais projetos, em particular de comédia. Só fiz um espetáculo em Portimão ao longo dos anos e gostava de fazer mais.

O seu avô, Oliveiros Cristina, fundou a empresa que produzia vários produtos, entre os quais aguardente de medronho e o famoso ‘Brandymel’. Que peso teve essa herança familiar na sua vida?
O nosso negócio de família pagou a minha educação e até me comprou um Ford Escort descapotável em terceira (possivelmente quarta) mão. Mas, mais do que isso, era uma fonte de grande orgulho familiar. Lembro-me de ter seis ou sete anos, ver garrafas do nosso licor no supermercado e dizer a estranhos que andavam às compras “é da minha família”. As pessoas legitimamente olhavam-me com um misto de confusão e preocupação e iam comprar iogurtes.

Acha que a história da empresa Cristina está suficientemente reconhecida e preservada em Portimão?
Gostava que estivesse mais. Não para homenagear a minha família, porque não sou assim tão convencido, mas porque é algo tipicamente portimonense, que deveríamos valorizar. Um produto criado em Portimão, por portimonenses, com base numa bebida local, a melosa. A minha família gostava muito de fazer uma loja/museu para contar a nossa história, quem sabe no futuro? Fica a subtil dica para o nosso mui nobre município.

Aos 18 anos, trocou Portimão por Lisboa para estudar microbiologia e genética. De onde nasceu o interesse pela ciência?
Cresci privilegiado. O meu pai é engenheiro químico e o meu irmão mais velho é engenheiro informático, e ambos são grandes fãs de ficção científica. As nossas conversas à refeição eram sobre física, astronomia, extraterrestres e, ocasionalmente, sobre o estado do Portimonense SC. Por essa razão, desde pequeno que a minha imaginação sempre se fixou mais em naves espaciais, buracos negros e lasers do que em qualquer outra coisa. Acho que foi aí que começou o meu amor pela ciência. Eu queria muito ir para física aeroespacial, mas algures no 10º ano deram-me um livro de genética e nunca mais olhei para trás.

Doutorou-se em genética na Universidade da Califórnia, em São Francisco, estudando matérias relacionadas com o envelhecimento. Em que consistiu a sua investigação?
Estudei a relação entre as mitocôndrias, que são as centrais elétricas das nossas células, e o envelhecimento do organismo. Sabe-se há muito que certas mutações nas mitocôndrias fazem os animais viver mais tempo, mas também os deixam mais lentos, como se estivessem a viver debaixo de água. Vivem mais, mas em câmara lenta. O que a minha investigação mostrou foi que dava para separar as duas coisas: viver mais tempo e continuar a funcionar à velocidade normal. Que é, no fundo, o que toda a gente quer da velhice: continuar ativo e cheio de força para refilar com as modernices da juventude.

Criou uma empresa de biotecnologia para procurar soluções para doenças graves. Como surgiu esse projeto?
Quando voltei para Portugal, não havia muitas oportunidades em biotecnologia. Então, decidi que, para permanecer junto da minha família e amigos, teria de criar a minha própria empresa. Foi-me apresentado o investigador Luís Graça, do Instituto de Medicina Molecular, que tinha acabado de fazer uma descoberta muito promissora no campo da imunologia. Juntámo-nos também com a investigadora Marta Monteiro e fizemos a ‘Accelera’, uma empresa de terapias celulares para prevenção da rejeição de transplantes de fígado.

O que o levou a passar da investigação científica para o empreendedorismo e para o investimento?
Durante o meu doutoramento, tornou-se abundantemente claro que trabalho de laboratório não era para mim. Para quem não sabe, trabalhar num laboratório consiste maioritariamente em transferir quantidades ínfimas de líquidos transparentes de um tubo para outro tubo. Fazia-me falta interagir com mais humanos e menos ratinhos. Então, comecei a procurar alternativas que me permitissem explorar o meu gosto pela ciência, mas sem ter de ser eu a estar no laboratório. Foi assim que surgiu o empreendedorismo e depois o investimento de capital de risco em ciências da vida.

Antes de escolher a ciência, já demonstrava interesse pela rádio, pela comunicação e pelo espetáculo. Porque acabou por seguir inicialmente uma carreira científica?
Porque, na altura, a minha maior paixão era mesmo a ciência. E porque nesse tempo não havia caminho nenhum para a comédia. Ainda nem tinha havido o ‘Levanta-te e Ri’. Dizer aos meus pais que queria ser comediante seria mais ou menos como dizer que queria ser cavaleiro medieval: eles iam entender cada palavra, mas não a frase.

A formação científica tem influência no modo como observa a sociedade e constrói uma piada?
Quando se tem este tipo de formação, tendemos a ser muito analíticos. Por isso, sem dúvida que vejo sempre a sociedade de uma forma muito utilitarista e racional. No humor, tem muito pouco impacto, porque o humor é algo intuitivo, a piada surge no momento, a análise é posterior. Ou seja, quando tento escrever piadas racionalmente acabo com piadas que não têm graça nenhuma.

É possível conciliar uma atividade profissional exigente na área do investimento com a carreira de humorista?
É. Sendo mau em ambas as atividades (risos).

Quando entra numa reunião de negócios, as pessoas conseguem esquecer que estão perante um comediante?
Tento manter estas realidades separadas: a maior parte dos meus colegas do fundo de investimento não sabe que sou humorista. E quem segue a minha comédia também não faz ideia de que tenho um emprego sério e aborrecido. Dito isto, modéstia à parte, sou um dos investidores de capital de risco mais engraçados que há por aí. O que é um bocado como dizer que sou o caracol mais rápido do jardim.

Quando sobe ao palco, consegue deixar completamente de lado o cientista e o investidor?
Completamente. O palco é a minha verdadeira casa, é onde estou 100% à vontade. Quando estamos ali em frente ao público, temos de estar completamente presentes, não dá para pensar em mais nada, e isso é profundamente libertador.

O que foi mais difícil no início: escrever as piadas, enfrentar o público ou encontrar oportunidades para atuar?
Quando comecei a fazer stand-up, havia dois ou três spots em Lisboa. Agora há 20 ou 30. Não era fácil arranjar lugares para atuar, de facto. Mas o mais assustador, para quem está a começar, é enfrentar o público. Agora, que já faço isto há mais de 14 anos, o mais difícil é escrever as piadas.

O podcast ‘Separados de Fresco’, criado com Ana Garcia Martins, nasceu das experiências de divórcio de ambos. Foi difícil transformar um momento doloroso em matéria humorística?
Foi muito natural, na verdade. Nós já tínhamos aquelas conversas em privado; a única inovação foi carregar no botão de gravar. Ajuda conhecermo-nos muito bem e gostarmos muito um do outro. E ajuda o facto de um divórcio, visto de dentro, ser uma tragédia e, visto de fora, ser sobretudo material humorístico, porque não mata, mas mói muito.

O sucesso do podcast mostrou que muitas pessoas se reconheceram nas vossas experiências. Estava à espera dessa identificação?
Sinceramente, não. O podcast explodiu do dia para a noite e eu tornei-me uma figura semipública, algo que foi estranho e completamente inesperado. Tive ali umas duas ou três semanas em que senhoras gritavam o meu nome na rua, de dentro das suas viaturas em andamento, o que, além de provavelmente violar alguma regra de segurança rodoviária, assustava muito os meus filhos pequenos. Mas foi uma experiência fantástica, pela qual estou muito grato. Permitiu-me lançar uma série de outros projetos e alguns dos meus seguidores ficaram amigos para a vida.

O projeto deu origem a espetáculos e a um livro. Em que momento perceberam que o tema tinha dimensão para chegar a outros formatos?
Ao fim de alguns episódios, decidimos fazer um ao vivo no ‘Lisboa Comedy Club’, um sítio pequeno, que senta 80 pessoas. Quando esgotou em segundos, percebemos que tínhamos algo que muita gente queria ver.

É mais difícil fazer humor sobre experiências pessoais, quando também envolvem filhos, antigos companheiros e familiares?
Não sei se é mais difícil, mas é mais sincero. O risco é magoarmos alguém. O meu humor é muito sobre coisas que me acontecem, experiências pessoais. Por isso corro sempre esse risco. Acho que no humor temos de ter consciência de que podemos magoar os outros e, com essa informação, decidir se a piada vale a pena ou não. As boas piadas valem quase sempre a pena.

O que aprendeu sobre si próprio, depois de falar tão abertamente sobre separação, família e reconstrução pessoal?
Aprendi tanta coisa. Uma importante é que não sou minimamente original. Passamos o divórcio a pensar que é uma experiência única, que somos flocos de neve únicos no panorama do sofrimento humano. Durante o podcast percebi que a minha experiência era igual à de milhares de pessoas. Isto foi um pouco duro para o ego, mas ao mesmo tempo um alívio: não estar sozinho. E aprendi que uso o humor para desviar os assuntos sérios. E que, nisso, a minha ex tinha alguma razão.

Apresenta-se como cientista, investidor, empresário, comunicador e humorista. Qual destas definições está mais próxima da pessoa que realmente é?
Provavelmente, comunicador e humorista. São as coisas que mais gosto de fazer e que são menos derivadas da racionalidade. São uma extensão direta de quem sou. E eu adoro pessoas.

Um humorista consegue viver uma emoção sem começar imediatamente a analisá-la à procura do lado cómico?
Ótima pergunta. Acho que não. Acho que os humoristas são observadores crónicos, ao ponto de serem incapazes de viver as suas próprias emoções sem estarem constantemente a analisá-las. Talvez por isso haja tantos humoristas com problemas de saúde mental. Eu não. Eu estou impecável. Pelo menos é o que eu digo à minha psicóloga.

Fora do palco, é uma pessoa bem-disposta ou surpreendentemente séria?
Diria que depende do contexto: com o grupo certo, ninguém me cala. Mas, se não sinto uma conexão com as pessoas, sou muito tímido e calado. Isto às vezes confunde as pessoas, porque esperam que eu seja igual ao que sou no palco. Mas um canalizador também não está sempre a canalizar; às vezes, está só a comer um bitoque.

Que projetos tem atualmente em preparação?
Tenho o meu segundo solo, chamado ‘Velho na Discoteca’, que vai sair em 2027 e com o qual vou andar em digressão pelo país. Além disso, tenho um espetáculo chamado ‘Amigos da Onça’, a começar digressão em setembro, e tenho o meu espetáculo residente no CineTeatro Turim, em Lisboa, o ‘Crivo’. Além disto, sou residente no Lisboa Comedy Club. Tenho também um outro projeto, que é um bebé de dois meses que não me deixa muito tempo livre para projetos.

Quando teremos a oportunidade de assistir ao vivo a um espetáculo seu, em Portimão?
Isso não sei, mas gostava muito de ser convidado! E como esta entrevista vai ser lida sobretudo em Portimão, considerem isto uma candidatura formal. Posso mandar o CV em anexo, se vos aprouver.

Se pudesse conversar hoje com o jovem que saiu de Portimão aos 18 anos, o que lhe diria?
Vai correr tudo bem, não tenhas medo. Vais realizar sonhos que ainda nem sabes que tens. E risco ao meio não é um bom corte de cabelo, não importa o que a Sandra do 9º B te disse.

Como gostaria de ser recordado: como cientista, investidor, contador de histórias ou humorista?
Como pai.

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