Escola Básica de Porches: do risco de fechar ao sucesso

in Lagoa Informa, nº 160


Chegou a estar em risco de encerrar, há uma década, por ter poucos alunos, mas, na atualidade, é uma das escolas mais procuradas por diversos pais, alguns de concelhos vizinhos, para a frequência, pelos filhos, do Jardim de Infância e do primeiro ciclo.

A EB1+JI de Porches mudou o paradigma, rompeu preconceitos e, com uma nova estratégia e muito boa-vontade da comunidade escolar, tornou-se uma referência.

Nesta ‘pequena’ escola, que pertence ao Agrupamento de Escolas Padre António Martins de Oliveira de Lagoa (ESPAMOL) há uma filosofia de proximidade, uma identidade que é preservada e valorizada, em que todos contam para o resultado final. É também reconhecida por ter implementado com sucesso o projeto de educação bilingue, sendo uma das únicas públicas do primeiro ciclo a sul do Tejo com esta componente.

Após dez anos à frente da coordenação da escola, a professora Ana Rita Baptista está de saída, mas não sem antes recordar o início deste percurso e de fazer um balanço de uma missão que agora encerra.

“Não conhecia a realidade da escola, naquela altura. Como era professora no mesmo agrupamento só sabia o que ia ouvindo de outros colegas, mas a ideia que tinha até nem era a melhor”, começa por explicar Ana Rita Baptista ao Lagoa Informa.

Foi convidada por Eduardo Brito, responsável pela anterior direção da ESPAMOL, para abraçar o desafio de coordenar aquele estabelecimento, numa derradeira prova de confiança.

Quando chegou à EB1 de Porches, Ana Rita Baptista deparou-se com a realidade e traçou uma estratégia de atuação, para a qual tinha ‘carta branca’ da direção da ESPAMOL à data.

Encontrou uma escola pequena, com um total de 80 alunos nas valências pré-escolar e primeiro ciclo, distribuídos por quatro salas. No caso do primeiro ciclo havia três turmas mistas, ou seja, com alunos de diferentes anos de ensino juntos, como o 3º e o 4º na mesma sala. Em 2012, no ano seguinte, reduziu ainda mais ficando apenas com 72 alunos.

“Tinha a perspetiva de em 2012 perder uma dessas turmas e ficar apenas com duas. Para mim, esta realidade era preocupante. Isso acontecia porque havia um estigma latente que é o Bairro Municipal de Porches, em frente à escola”, recorda a professora. No entanto, não passava mesmo de um estigma que não ‘batia’ com a realidade, pois a escola tinha uma percentagem mínima de alunos.

“O Bairro é inofensivo. As pessoas que lá vivem respeitam muito a escola, porque têm noção da importância que esta tem”, argumenta Ana Rita Baptista.

Apesar de assegurar que os poucos problemas que foram acontecendo ao longo dos anos na EB1 de Porches pouco ou nada estavam ligados ao Bairro, admite que não é fácil mudar mentalidades, ainda mais de quem ‘vem’ de fora. Foi um trabalho árduo para a comunidade, que, no fim, deu frutos. “67 por cento dos alunos do ano letivo 2020/2021 eram de Porches e Alporchinhos, freguesia onde a escola fica situada, enquanto os restantes 33 por cento eram de outras zonas. 12 por cento eram de Carvoeiro e Lagoa, do concelho de Silves 16 por cento e de Portimão 5 por cento”, contabiliza.

Apesar de ser regra os encarregados de educação serem obrigados a matricular na área de residência ou de trabalho, neste caso, como a ‘primária’ de Porches tinha mesmo poucos alunos, podiam receber crianças de outras zonas.

Ana Rita Baptista iniciou, nessa altura, um trabalho de ‘captação’ de alunos. “Fiz um flyer, com o meu dinheiro, para as matrículas 2016/2017, e todos, pessoal docente e funcionários andámos a distribuí-los pelas ruas. Tentámos todos os meios para angariar inscritos, mas nada funciona melhor do que o ‘passa palavra’ ainda que seja um processo mais lento”, refere.

A taxa de natalidade a decrescer e o facto de Porches ser uma freguesia no ‘fim da linha do concelho’, na fronteira com o de Silves, não jogavam a favor desta intenção.

A verdade é que no último ano letivo, de 2020/2021, a EB1+JI já tinha 112 crianças, com quatro turmas de primeiro ciclo, sem existência de turmas mistas. E só não houve mais, porque havia alunos com necessidades educativas o que obriga a reduzir o rácio de estudantes por turma. Ainda assim, foram vários os pedidos de transferências, ao longo do ano, descreve Ana Rita Baptista.

O segredo do sucesso
Para a coordenadora não valia a pena contrariar as raízes da escola e a identidade que a distingue. Por isso, a aposta passou por abrir o espaço à comunidade e levar a que todos se sentissem bem no estabelecimento escolar, desde professores e educadores, a funcionários, alunos e pais.

“A escola fez-se e faz-se com as pessoas. O melhor que temos na vida é podermos trabalhar e sentirmo-nos felizes por isso. Não há aqui ninguém que não sinta isto. Acho que é isso que faz a diferença. Tentei que esta EB1 fosse uma extensão das casas das pessoas, da família, e a verdade é que conseguimos, mesmo com a pandemia, tê-la aberta a todos”, resume.

Por um lado, os professores optaram por ‘viver’ a escola, almoçando no espaço, ajudando na cozinha ou noutras tarefas, num espírito de entreajuda, ainda que não fosse essa a responsabilidade que tinham, caracteriza Ana Rita Baptista. “Não havia declives entre professores e funcionários”, atesta ainda.

Por outro lado, os pais sempre tiveram as portas abertas e isso foi, na visão da coordenadora, uma das chaves do sucesso.

“Os pais podiam entrar na escola, sobretudo antes da pandemia, e levar os filhos até à sala. Falavam todos os dias com os professores e, ao estabelecer esta relação, cria-se confiança e bem-estar. O que se reflete nos alunos e na aprendizagem”, acrescenta.

Os interessados em colocar os filhos nesta escola tiveram sempre, conforme assegura a professora, oportunidade de conhecer o espaço e o dia a dia antes da decisão de inscrever os filhos, ou de retirar qualquer dúvida.

Não houve, porém, nenhum passe de magia para mudar o estigma. “Houve alturas em que esmoreci, pois é um processo lento. No entanto, o sucesso, sem dúvida, deve-se às pessoas. Sempre procurei dar aquilo que espero ter como mãe. Quero que os pais, quando entregam uma criança sintam confiança. Nesta escola, todos têm o meu contacto pessoal, além do profissional, pois se os pais quiserem esclarecer uma dúvida ou dificuldade podem fazê-lo de forma rápida. E nunca houve ninguém que abusasse”, completa.

“Tenho um papel ínfimo e sozinha não fazia nada. Tive uma grande equipa por trás. Foi o conjunto das pessoas que aqui trabalham, dos alunos, dos pais. Aqui conseguimos ser o colo, mas também conseguimos tê-lo, porque é recíproco. Este ano não foi fácil para mim e eu nunca terei palavras para agradecer o acolhimento, nem ao nível das funcionárias, nem dos colegas, dos pais e dos meus alunos, porque eles estiveram cá para mim”, revela a responsável.

Saída por incompatibilidade
Uma das razões que levou a que renunciasse às funções de coordenação na JI+EB1 de Porches, é a forma como o Agrupamento vê aquele estabelecimento.

“É um dos motivos da minha saída. A anterior Direção compreendia que tínhamos um problema a resolver e que esta escola tinha identidade própria. Não é melhor, nem pior, mas diferente. A nova Direção quis tomar um rumo com o qual não me identifico”, justifica. Por isso, sai para uma nova etapa na sua carreira.

“Não sei trabalhar assim e sou exigente nisso. Gosto de trabalhar em equipa e acho mais do que justo que considerem o trabalho que foi feito aqui”, defende, acrescentando que os responsáveis pelo Agrupamento ESPAMOL querem “uniformizar tudo”. Algo que Ana Rita não aceita, pois este é um estabelecimento com um contexto diferente. “Não dá para ter a mesma atuação aqui que nas outras escolas. Esse é o maior erro que se pode cometer sob pena de deitar tudo o que foi feito até hoje a perder. Renunciei, porque deixei de me identificar com a forma de trabalhar desta Direção. Revejo neles uma liderança autocrática, em que deixei de sentir apoio em relação à estratégia que adotei para esta escola. E está comprovado que teve sucesso. Por isso, falo em desconsideração”, esclarece.

Ensino em inglês foi o grande desafio
Uma das estratégias que se mostrou um êxito há alguns anos foi a criação do ensino bilingue. “Quando o professor Eduardo Brito pensou no programa bilingue nem era para Porches. Seria para Lagoa. E fez uma reunião com todos os coordenadores, mas primeiro até houve alguma resistência, porque este programa só conta com a boa vontade dos professores, é muito exigente e muito trabalhoso. Exige que tenhamos proficiência linguística em inglês e tem de ser intermédia. Há muitas horas de trabalho, porque não há manuais. Tem de ser tudo feito de raiz”, esclarece a coordenadora.

É que o ensino bilingue não é o mesmo que lecionar uma aula de inglês. Neste programa, as disciplinas de estudo do meio e expressões são realizadas neste idioma estrangeiro, sem qualquer hipótese de tradução. São oito horas por semana distribuídas pelas duas disciplinas. No Jardim de Infância são cinco. A ideia é que as crianças aprendam de forma natural o inglês. “Iniciei o programa com a minha turma de primeiro ano, que é a que terminou o quarto agora. Funcionou muito bem e eles não fizeram resistência nenhuma”, recorda.

A coordenadora propôs esta valência para Porches, pois poderia ser uma forma de atrair mais alunos, o que se veio a verificar, confirma a responsável.

Atividades para pais e filhos
Outra das estratégias que foi implementada foi a inclusão dos pais na vida escolar, com uma ligação muito estreita à instituição. Um dos primeiros objetivos foi fomentar essa proximidade. “Queríamos que eles percebessem que eram importantes para conseguirmos controlar os comportamentos dos filhos na escola. Não havia situações problemáticas, mas os alunos tinham de perceber que os pais estavam a um passo de nós. Fomos a primeira escola aqui a introduzir uma aplicação que é a ‘ClassDojo’, que permite estar sempre ligados aos pais. Nela atribuímos ou retiramos pontos mediante um conjunto de competências que definimos”, afirma. Se um aluno não fez um trabalho de casa, se se comportou bem ou mal, se conseguiu uma boa nota num ditado. “Quando eles chegavam a casa, os pais já sabiam como o dia tinha corrido e quais as aprendizagens que precisavam de ser reforçadas em casa”, elucida. Não era raro também que as aulas de ginástica fossem abertas aos pais, que houvesse um pequeno-almoço na escola com os pais, com todos vestidos de pijama, enumera.


“Houve muitas atividades que começaram aqui, nesta escola. Mas havia uma festa que só nós é que tínhamos. Algumas tinham arraiais, mas nós organizávamos o ‘Porches Summer’, uma festa que ganhou protagonismo, porque se tornou muito importante. Era feita por todos, era acolhedora e realizava-se à noite. Sempre fizemos as festas em horários a que os pais pudessem participar”, diz.

Um futuro em aberto

Ana Rita Baptista passou por diversas escolas e garante que o facto de ter tomado contacto com diversas realidades a enriqueceu. “Soube ser feliz” na Amadora, numa escola problemática, onde começou este percurso, mas também em escolas pequenas no meio do monte ou maiores na cidade. A de Porches ficará na memória, mas considera que “a missão acabou” e que “tudo tem um tempo”.

“Não saio magoada, mas um bocadinho injustiçada. Pedi a minha renúncia em junho e realizei as minhas funções até ao final. Passo a pasta e deixo tudo preparado para quem me substituir. Deixo, aliás, a minha filha a frequentar esta escola e essa é a maior prova de confiança que posso dar a quem cá fica”, argumenta. A profissional é do quadro do Algarve, tendo optado por sair quer da ESPAMOL, quer do concelho. Concorreu a Albufeira, Armação de Pêra e Portimão. “Agora vou ser só professora, algo que não sou há dez anos”, desabafa. A coordenação, que não implica remuneração acrescida, é um capítulo encerrado, onde fica a certeza de que “tudo foi feito com muito amor”, acrescenta.

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