Guia FC: “Há sete anos que o sonho é subir à Primeira Liga”

Texto: Rafael Duarte | Fotos: Kátia Viola


Há sete anos que o sonho é subirmos à Primeira Liga”. Este é o desabafo de Patrícia Teixeira, mas espelha-se nas outras 24 jogadoras que integram a equipa de futebol feminino do Guia FC. No ano passado, ficaram a 30 minutos de tornar o sonho realidade e ainda hoje há feridas por sarar. Mais uma época aproxima-se só que desta vez esperam-se dificuldades acrescidas para um clube que já é uma referência no Algarve, mas quer fazer história na modalidade.

As mulheres entraram nos balneários do Guia FC para calçar as chuteiras em 2014. Foi nesse ano que nasceu a equipa de futebol feminino. “Tínhamos uma rapariga a jogar com os rapazes e em 2014 teve que deixar de jogar devido à idade. O diretor do Guia na altura, Sérgio Tendeiro, pensou por isso criar um plantel feminino para ela continuar a jogar e tudo começou assim”, contou Andreia Grade, diretora da equipa.

O clube marcou um treino de captação e apareceram quase 30 atletas. “Desde esse dia, o futebol feminino tem sido uma aposta forte. Já fomos duas vezes à 2ª fase da Segunda Liga e cada vez sentimos mais o apoio dos adeptos. Chegamos a ter tantos ou mais que a equipa masculina! Agora jogamos no Estádio da Nora, do FC Ferreiras, porque o nosso não tem as medidas necessárias, mas quando jogávamos na Guia chegávamos a ter bancadas cheias para ver raparigas a jogar à bola”, revela Andreia Grade.

O amor à camisola
No Guia, é o amor à camisola que move estas jogadoras. “Na equipa temos dois grupos. As que jogam há mais anos e já trabalham e a maior parte que anda na escola. Ainda há muito sacrifício”, explica Filipe Linz, treinador da formação, que destaca a dedicação das 25 atletas.

“Temos duas militares da GNR que têm que gerir o horário para jogarem. Se for preciso, acabam o turno e sentam-se numa carrinha para irem para os jogos. As outras equipas já têm outras condições, é uma realidade diferente”, conta Andreia Grade, que lamenta ser difícil segurar as jogadoras que se destacam: “Acabam por ir embora. Temos casos como a Carlota Cristo que está no Benfica ou a Andreia Neves que se mudou para as sub-19 do Benfica”.

Por isso mesmo, o clube acaba por sentir dificuldades acrescidas quando comparado com outras formações já semiprofissionais. “As equipas lá em cima têm um contexto completamente diferente. As jogadoras estão a receber para jogar e aqui estamos a jogar por amor à camisola”, afirma Patrícia Teixeira.

“O ano passado foi inesquecível”
Mesmo não tendo os mesmos argumentos, nos últimos sete anos, o Guia tem procurado afirmar-se no futebol feminino e o grande sonho sempre foi chegar ao patamar mais alto.

No ano passado, a equipa ficou em segundo lugar na 1ª fase e carimbou assim o passaporte para a decisiva 2ª fase da segunda Liga. Aí bastava eliminar o Atlético para subir de divisão, dado a impossibilidade de subir o Sporting B. No primeiro jogo, o Guia FC empatou em Alcântara a uma bola e com isso até um empate sem golos bastava em Albufeira. Mas a expulsão de Diana Nunes aos 34 minutos e os quatro golos do conjunto lisboeta nos últimos 30 minutos de jogo ditaram o adiamento da concretização do sonho. “Ficou um sentimento agridoce que muitas ainda não passaram. No outro treino houve uma sessão de terapia pós-trauma. Ainda há muita ferida aberta. Sabíamos que aquela era a nossa oportunidade e merecíamos muito”, conta o treinador Filipe Linz.

O técnico admite que falar da última época até leva as lágrimas aos olhos das jogadoras, mas Patrícia Teixeira pretende agora ver o lado positivo: “O ano passado foi inesquecível. Prefiro ver na positiva porque chegámos a um patamar que tanto sonhámos. Ficámos a meia hora de algo maior”. Ainda assim, há quem até prefira evitar o tema: “Eu nem me posso lembrar disso. Como deu na televisão, às vezes vou ver o jogo. Foi mesmo muito duro. Na primeira fase ganhámos ao Atlético por 4-1 e depois no jogo decisivo da 2ª fase perdemos”, lamenta Andreia Grade.

Continuar o trabalho
Ainda na ressaca da última época, já se prepara o regresso à competição. Apesar da ambição ser a mesma, esperam-se dificuldades acrescidas. “Esta temporada vai ser muito mais difícil. As equipas que desceram da primeira Liga e que subiram da terceira são muito fortes. Queremos estar entre as grandes a lutar pela subida, mas temos como principal objetivo a manutenção”, garante Filipe Linz.

Para o início de mais uma temporada, o treinador destaca a qualidade do grupo que não sofreu muitas alterações durante o período de mercado de transferências: “A equipa está basicamente igual. Temos duas soluções que nos vão ajudar muito no meio-campo. Ainda estamos à espera da colocação das raparigas na Universidade que ajuda sempre”. Até porque na Guia o mercado de jogadoras acaba por ser bem diferente do que acontece noutros clubes.

Filipe Linz explica que “o Guia FC é um caso à parte no futebol feminino no que toca ao mercado. Na primeira e segunda Ligas há uma maior proximidade de equipas e conseguem fazer transferências entre elas. A nossa maior base de recrutamento são jogadoras de futsal e jogadoras que estavam no Alentejo, mas passaram a não poder jogar com as juniores devido à idade. O mercado do Guia é feito de angariação de novas atletas”.

O futuro do Guia

A pensar no futuro, o Guia FC criou uma equipa sub-19 para desenvolver jovens da formação. “É um grande passo para o clube porque podemos integrar jovens de 15 anos e daqui a 1-3 anos contar com mais opções na equipa principal”, destaca Filipe Linz.

Um projeto que também nasce para dar resposta às jovens promessas à procura de uma oportunidade: “Têm aparecido jogadoras de futsal com 15-16 anos e atletas de clubes dos sub-19. Nesta fase inicial ainda temos que utilizar algumas das nossas jogadoras, mas também é importante para elas ganharem ritmo”.

Apesar das boas notícias para o futebol feminino, o técnico deixa um apelo à Associação de Futebol do Algarve: “Estão a surgir mais equipas no Algarve, mas esperamos que a Associação faça um campeonato para as sub-14, senão é difícil arranjar jogadoras”.

No Algarve, o Guia está a comandar o leme do futebol feminino, mas a competitividade começa a aumentar. “O Marítimo Olhanense retoma atividades este ano e o FC Ferreiras criou a equipa sénior”, contou Filipe Linz e a diretora da equipa, Andreia Grade, diz que essa adesão vem ajudar a região: “Quantas mais equipas na nossa série melhor. A maior parte das equipas são de Lisboa ou do norte do país e assim era menos uma viagem que fazíamos. Era mais fácil para todos”.

A luta pela subida

Espera-se uma época longa para o Guia FC. O clube começa por disputar a 1ª fase da segunda Liga onde vão competir 10 equipas. Depois tudo fica decidido na 2ª fase.

Os primeiros quatro classificados lutam pela subida de divisão e as restantes seis equipas tentam evitar a descida para a terceira Liga, destino traçado para os quatro conjuntos com menos pontos.

“Este ano vamos lutar para não descer, vai ser muito difícil. Há seis equipas muito fortes e só quatro chegam à 2ª fase. Esta época, por exemplo, vamos jogar com equipas do norte do país, que não jogámos no ano passado devido à pandemia”, lamenta Andreia Grade.

Patrícia Teixeira: “Em sete épocas só falhei um jogo”

Já faz parte da história do Guia FC Patrícia Teixeira está no clube desde o primeiro treino, em 2014, e de lá para cá já perdeu a conta aos jogos que fez: “Foram mais de 100 jogos à vontade. Em sete épocas, se calhar, só falhei um jogo”, assume a jogadora. Ainda assim a relação com a bola já vem de muito antes. “Eu sempre joguei futsal porque não havia nenhuma equipa de futebol feminino e, na altura, não punham as raparigas a treinar com os rapazes. Tive nove anos no futsal e surgiu a oportunidade de treinar futebol 11 em 2014”, lembra.

Cresceu a ver o pai a jogar futsal e sempre foi apaixonada pelo futebol, mas o irmão também tomou esse gosto: “Ambos jogamos futebol e 99% das conversas que temos em família são sobre futebol. Esse 1% que falta é para falar de outras coisas com a minha mãe (risos)”.

Enquanto jogadora ouve os conselhos importantes do pai, mas no futuro poderá vir a assumir o cargo de treinadora de futebol? “Não penso nisso. Para já gosto de estar na formação e ver os miúdos a crescerem. Já treino formação há 8/9 anos. Agora estou no Quarteirense e gosto muito da experiência”.

Ainda assim, o atual técnico do Guia FC tem tentado convencer a jogadora a dar esse passo. “Cada vez quero ver mais treinadoras e equipas técnicas femininas porque têm mais sensibilidade que os homens. Também faz falta as jogadoras que acabam a carreira não se desligarem do futebol. Passarem essa mística que com tanta dificuldade conseguiram. Hoje em dia, felizmente, as raparigas não têm que ser apontadas por rapazes e pelos pais. Isso passou de moda”, afirma Filipe Linz.

Filipe Linz: “O treinador”

No ano passado tudo mudou na vida de Filipe Linz. “Tinha parado o campeonato distrital devido à pandemia e o anterior treinador da equipa de futebol feminino do Guia FC, o Toni, fez-me o convite de treinar estas jogadoras e agarrei a oportunidade”, relembra o técnico, que ainda assim, destaca algumas dificuldades nos primeiros tempos: “Quase nunca tinha visto futebol feminino até chegar ao Guia. Foi uma diferença e uma adaptação muito grande. Não conseguimos medir as coisas sem estar nos sítios. Uma coisa é ver as melhores jogadoras na primeira Liga e outra é ver estas raparigas que estão a começar”.

Um ano depois, Filipe Linz faz um balanço positivo da experiência e aponta para algumas diferenças entre homens e mulheres: “a maior diferença é a intensidade. Os homens são mais intensos e agressivos. Por outro lado, elas têm muito mais vontade de aprender e têm uma maior capacidade de aprendizagem.

No balneário também é tudo mais complexo. Todos os dias há situações novas que estão fora de qualquer treinador masculino. É uma experiência única”.

Revelou-se não só uma surpresa para Filipe Linz como também para a direção. “O mister Filipe fez muito trabalho de casa. Criou uma grande dinâmica no grupo a ponto de nenhuma atleta ter saído. O Guia FC dificilmente vai encontrar um treinador como ele, em sete anos nunca encontrou”, afirma a diretora da equipa, Andreia Grade.

Quando chegou ao Guia FC, Filipe Linz pretendia fazer apenas um ano e tudo mudou no final da época passada. Depois da derrota com o Atlético, o técnico revelou a Andreia Grade que dificilmente ia continuar no clube e o que parecia uma decisão tomada acabou por mudar completamente quando as jogadoras do Guia FC foram até à porta da casa de Filipe Linz pedir para o treinador ficar.

“Negociei com a direção e decidi continuar no Guia”, revela Filipe Linz, que ainda assim assume: “Depois quero voltar para o futebol masculino porque é onde me sinto melhor. Sempre tive a cultura de futebol masculino. Agora incentivo as minhas jogadoras a darem esse próximo passo e treinarem uma equipa”.

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