João Pinto: “Quero fazer desporto e estar entre os melhores”

in Portimão Jornal, nº 31


Não é raro ver João Pinto pela manhã, na ‘handbike’, a sair pelas ruas do Bairro Pontal, em Portimão, em direção à Estrada de Monchique. Vai treinar quase todos os dias e faz uma média de 60 quilómetros diários. Ainda faz piscina e ginásio. Também não é difícil encontrá-lo no mar a praticar vela adaptada. É um atleta multifacetado que, neste momento, vive para estas duas modalidades.

Um acidente colocou-o numa cadeira de rodas, mas desistir é um verbo não está no seu dicionário. Todos os dias, dos últimos dez anos, luta para ser melhor e, sobretudo, pela sua independência. Esta é, aliás, a palavra-chave que marca a sua conversa com o Portimão Jornal.
Pratica vela adaptada há alguns anos, os últimos em representação do Clube Naval de Portimão, mas é no paraciclismo que está a apostar mais.

“Este ano participei em dois Campeonatos do Mundo pela seleção e para integrá-la temos de ir a Taças do Mundo e a provas C1 que pontuam para o ‘ranking’ mundial. Temos de estar no top 10, porque só lá é que pontuamos”, explica.

Está no paraciclismo desde 2015 e admite que esta é uma modalidade mesmo muito exigente. “Sempre fui muito ativo, mas os músculos têm de se adaptar. A minha lesão faz com que não tenha sensibilidade abaixo do mamilo e só agora estou a entrar no patamar” que me permite pontuar, descreve.

Está na classe H3. “Temos as ‘handbikes’ (H) e as bicicletas de duas rodas (C). As categorias H e C vão do 1 ao 5, sendo que o número menor representa uma lesão mais limitativa do que o 5. Somos avaliados por um painel médico nas Taças do Mundo para sermos inseridos numa categoria”, explica.

João Pinto tem participado em provas e acumula títulos. Na vela adaptada, em 2020, sagrou-se vice-campeão europeu e ganhou o primeiro Troféu Ibérico em Cádiz. No paraciclismo é hexacampeão nacional de contrarrelógio e de fundo, venceu cinco vezes a Taça de Portugal e a primeira prova da Copa Espanha Badajoz. Esteve no Campeonato do Mundo, mas não conseguiu estar no top 15, como desejava. Promete continuar com confiança.

“Há sempre condicionantes, como um furo, uma queda… Uma coisa é termos a certeza de que estamos bem preparados e até podemos ser mais fortes do que numa competição anterior. Mas e se os outros estão melhores também? E é por isto que o desporto é bonito”, resume.


16 mil euros para nova ‘handbike’
Apesar dos bons resultados, a ‘handbike’ que tem foi comprada em segunda mão ao atleta André Sobreira, de Lagos. É de alumínio. “Evoluo como posso, trabalho com o que tenho e está tudo bem. Não vou deixar de dar o meu melhor por isso”, mas seria bom ter melhores equipamentos.

“Aqui está amolgada. Já parti aqui duas vezes e foi soldada. Olha ali as rachadelas”, aponta, enquanto exclama que “esta é a sua realidade” e é com ela que tem ganho. Para comprar uma nova, de carbono e feita à sua medida, precisa de 16 mil euros. Por isso, aceita apoios e está a organizar uma forma de angariar fundos.

Apesar das dificuldades tem tido algumas ajudas no percurso. A imobiliária Val Hala ofereceu-lhe, há pouco tempo, umas rodas de carbono que custam 3000 euros. “Ouviram falar de mim através de um amigo. Não os conhecia, mas ligaram-me e disseram-me para encomendá-las. Tratei com o vendedor e pagaram-lhe diretamente. Gosto de transparência e que tudo seja claro”, assegura. Já antes tinha comprado por 1100 euros umas em segunda mão que, mais tarde, se partiram.

“Comprei quase tudo com o meu dinheiro. Já tive bons apoios, como a Churrasqueira Guerreiro. São os privados, porque do Estado só recebo a minha pensão. Também não lhes peço nada”, afirma o atleta.

Independência como modo de vida
João Pinto representa dois clubes locais, o Clube Naval de Portimão e o Centro de Ciclismo. “Podia correr sem estar associado a um clube”, mas “quero representar um clube da minha cidade e não faz sentido se não o fizer”, esclarece.

Não fica, porém, acomodado e tenta, pelos seus meios, ser independente. “Infelizmente, estou no mundo do desporto adaptado e vejo que, muitas vezes, o interesse não é ajudar as pessoas. Isso vê-se muito, por isso sempre defendi a minha independência e a transparência nos apoios”, explica.

“Posso e quero representar um clube, mas se não me consegue dar nada, não quero que a minha logística e a gestão do meu trabalho passe pelo clube, ainda mais quando há interesses políticos. Se há o objetivo de me apoiar, aí tem de haver um sistema, uma forma para que este chegue até mim”, argumenta.

Sublinha ainda, em relação aos apoios que, apesar de as pessoas pensarem que consegue todas as peças, dinheiro e outras mais-valias, não é assim tão tácito. “A G-Ride apoia-me e são sempre muito disponíveis, perdem tempo e agradeço-lhes por isso. Montam-me os pneus que compro, por exemplo. Às vezes, conseguem dar-me algo, mas nem sempre. Toda a gente tem os seus limites”, justifica.

O Clube de Bicross também não está na melhor fase e sente dificuldades. “Vão apoiar-me nas deslocações e se tiverem dinheiro também dão qualquer coisa”, mas há muitos outros aspetos a ponderar.

“Tenho um Peugeot 107. Parece um ‘smart’ de tão pequeno que é e não consigo levar a bicicleta lá. Por isso, vou para as prova com a minha namorada, no carro dela, e ela é que tem de conduzir o tempo todo”, porque o veículo não está adaptado. No entanto, “sozinho, com um carro meu, vou para qualquer sítio”, resume. Aliás, João Pinto tem autonomia para fazer praticamente tudo sem ajuda.

“Sou muito independente. Tenho uma lesão, é um facto, mas só preciso da sociedade da mesma maneira que as outras pessoas precisam. Quando vou ao supermercado tem de estar lá uma pessoa a repor, uma pessoa na caixa… Vivo numa sociedade que trabalha em equipa e eu sou apenas mais um”, alega.

Garante, inclusive, que se for a uma prova de vela, onde estão mais atletas na sua condição, todos se ajudam, mas não é pela cadeira de rodas. “Não há ninguém que coloque um barco a uma altura de dois metros sozinho”, diz. “As pessoas constituem instituições para criar métodos de ajuda, mas o que deviam fazer era ajudar as pessoas a serem independentes”, defende.

Falta o verdadeiro reconhecimento
Quando se fala de reconhecimento, João Pinto endurece um pouco mais o discurso. “Todos me dão valor, mas ninguém se pergunta de onde vêm as coisas? Parece que, para mim, é tudo muito fácil, acabo por conseguir”, desabafa o atleta que é apologista do ‘falhanço’ para melhorar, do tentar de novo e com mais força, do insistir.

No paraciclismo encontrou uma boa parte da sua independência. Monta a sua bicicleta e não a leva ao mecânico. “Quero saber o que se passa com ela antes de ir para a prova”, acrescenta.

No entanto, não é por isso que não lhe custa que, na maioria das vezes, ninguém se pergunte se precisa de ajuda ou se está a ter todos os apoios necessários através do clube.

“Não preciso que me venham bater à porta para me dizer que faço um bom trabalho, pois tenho consciência do que faço. Gostava de ser campeão do mundo, só para ser como o campeão do mundo. Mas se isso acontecer, tenho a certeza que não vou ser como o campeão do mundo ainda que o seja. Parece irónico e nem todos percebem, mas a verdade é que o campeão do mundo tem nutricionista, treinador, clube, alimentação preparada, descanso. A minha vida continuaria igual e as pessoas diriam que sou um exemplo pela minha força de vontade”, conclui.

Vela com os mais novos
Após o acidente foi encaminhado para o Centro de Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel. Dois meses depois saiu e dedicou-se ao desporto a tempo inteiro, pois já não podia exercer a profissão de eletricista.

Nunca entrou em depressão e diz nem ter ‘feitio’ para tal. “Sou uma pessoa bastante impulsiva, mas hoje estou mais tranquilo. Se calhar é por isso que é mais fácil para mim fazer as coisas. Dizem que tenho força de vontade, mas o que é a força de vontade? É a determinação? Isto é a minha personalidade e há coisas que me definem e levam a que tenha este modo de interagir. Posso não gostar do que estou a fazer, mas vou fazer o melhor que sei”, afirma.

Ainda tentou a natação, mas depressa se virou para a vela adaptada, apesar de participar em provas de mar com assiduidade. “Já fiz umas 20 e nunca ouvi falar de mais nenhum paraplégico que as faça”, destaca.

“Cresci a fazer vela e é muito básico para mim. Há quem diga que estou a tentar fazer muita coisa ao mesmo tempo, mas a vela é quase como um passeio. Posso dizer que, se calhar, é o único desporto em que, quanto mais velho és, melhor és”, opina. É uma questão de conhecimento, de leituras de correntes, de ventos, das velas, mastro, retrancas, lemes, patilhões, mais do que de preparação física, considera.

Quando começou foi na ‘Vela Solidária’, quando os atletas Guilherme Ribeiro e Luís Ramalho se estavam a iniciar. “Naveguei muito tempo com eles no mesmo barco, em 2013”.

Agora é apoiado pelo Clube Naval e até há a perspetiva de receber um barco. O que usa foi emprestado pelo Clube de Vela de Viana do Castelo, em 2019, porque não tinham atletas.

“Fui buscá-lo, fiz o Campeonato Nacional, em Portimão, e depois o Europeu. Era para ter entregue em 2020, mas por causa da pandemia não houve provas. Em fevereiro ainda fui ao Europeu e fiquei em segundo. Deixaram-me ficar mais um ano, mas quando for ao nacional, o que está combinado é deixá-lo lá”.

Faz uma média de três treinos na água, integrado na equipa do Frederico Rato. “São miúdos até aos 14 anos que fazem competição e pré-competição nos optimist. Sinto que estou a ajudar a desenvolvê-los. Sou mais velho, tenho 28 anos de experiência de vela. Mas eles também me ajudam a melhorar”, atesta.

Uma vida pelo desporto

João Pinto tem 38 anos e, desde cedo, apaixonou-se pelo desporto, sobretudo os radicais. “Comecei com os patins, skates, bicicletas… Quando comecei a trabalhar como eletricista já tinha dinheiro para comprar o meu material”, recorda. Integrou uma equipa de ‘Freestyle Motocross’. “Tinha uma mini-moto, com a qual fazia acrobacias, e uma outra maior”, diz. Chegou a ir numa bicicleta, puxado por uma mota para saltar sete metros de altura e dez de comprimento, onde fazia ‘back flip’. Atuava em Portugal e Espanha. “Sempre estive muito ‘vidrado’ no desporto. Cheguei a criar uma equipa com pessoal aqui do bairro que jogava muito bem. Como havia torneios de futsal no Verão, com a ajuda dos meus pais, juntava a malta toda e inscrevia-nos. Fiz natação, vela, trampolim. Foram tantas modalidades! Posso considerar-me um desportista nato”, refere.

Um acidente num passeio

Arriscou muito no ‘Freestyle’, mas foi numa saída com amigos para assistir à ‘Subida Impossível’, em Silves, numa manhã de novembro em 2011, que um acidente o deixou paraplégico. “Quando voltei para Portimão, furei o pneu da frente da mota. Avisei os meus amigos, mas tinha tudo controlado. Numa curva à direita, a mota resvalou de frente. Acelerei um pouco para ter mais tração, ela endireitou e, em vez de ‘rabear’, ganhou muita tração e seguiu para onde estava apontada, para o lado de dentro da curva. Estava tudo controlado, até bater numa pedra e a mota embicar. Fui ‘cuspido’ e dei duas cambalhotas no ar. Foi nessa altura que bati com as costas numa pedra e, quando me tentei levantar, desmaiei. Nem sequer fiz uma ferida. Fiquei logo paraplégico”, recorda João Pinto.

Foi levado de ambulância para o hospital e, depois, de helicóptero para o Santa Maria, em Lisboa. Mais do que a lesão na coluna, a preocupação era uma infeção pulmonar. Esteve internado nos Cuidados Intensivos e, só quando saiu do hospital pensou na sua nova condição. “Há muitas pessoas que dizem que tenho muita força de vontade, mas para mim foi natural. Olhei para a minha mãe e disse: ‘A minha mãe não vai saber o que é ter um filho paraplégico. Foi essa a minha luta! Não lutei contra o ser paraplégico, lutei para a minha mãe não ter que passar por isto. Esse foi o meu ‘mindset’. Ela fez tanto por nós que não merecia isso”, confidencia.


DISCURSO DIRETO

Porque é que o paraciclismo tem prioridade em relação à vela?
Porque ainda há uma possibilidade de ir aos Jogos Paralímpicos, pelo menos em 2024, enquanto na vela adaptada, em 2028, possivelmente ainda não vai haver esta modalidade. É que tem de existir um número mínimo de países a participar em Campeonatos e Taças do Mundo para que a modalidade esteja integrada nos Jogos e para permitir um apuramento de atletas. E na vela, esse número estava em decadência, por isso foi excluída. A última oportunidade que tive foi quando integrei o Programa de Preparação Paralímpico em 2015. Fiz um estágio em Inglaterra, com o selecionador inglês. Éramos dez atletas de sete países e fui o que teve melhor prestação. Fomos para o apuramento na Austrália. Apenas havia algumas vagas. Fui 26º e foi uma desilusão, mas gostei da experiência. Estamos a falar dos melhores, atletas que fazem a volta ao mundo em solitário. Foi uma boa lição. O pessoal diz que desisti. Como é que posso desistir? Voltei após dois ou três anos e o que tenho ninguém me tira. O que acontece muitas vezes é que as provas de paraciclismo e de vela adaptada são no mesmo fim de semana. Vou ter de dar prioridade a uma em relação à outra. Parece que estou a descartar a vela, mas não. Tem a ver com as possibilidades. Na vela quero estar o mais integrado possível a nível internacional, mas é a conversa do número de atletas em Campeonatos do Mundo. Espero que em 2028, em Los Angeles, a vela já esteja nos Jogos e não coincida com o paraciclismo.
 
O que significa ir aos Jogos?
Nada de mais! Aqui em casa, as medalhas e as taças estão todas escondidas. As taças e medalhas não me preenchem. Eu quero fazer desporto. Se eu gostar do que estou a fazer, posso ser ainda melhor.
 
Então porquê essa vontade de ir aos Jogos?
Porque é sinal que estou ao nível dos melhores do mundo. Isso para mim, como desportista, é uma satisfação pessoal. Quero ser campeão do mundo e olímpico. Isso não tem assunto. Qualquer pessoa que faça desporto quer ganhar, mas o meu objetivo é estar no meio dos melhores. É o que me dá a certeza de que o trabalho que faço está bem feito. Dou o que tenho e o que não tenho pelo desporto.

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