Opinião | Auto-mutilação: A dor emocional escrita na pele

Sónia Francisca Silva
Psicóloga Clínica (Especialista em Neuropsicologia e Psicogerontologia)
Email: sfspsicologia@sapo.pt


A adolescência é um período do desenvolvimento humano entre a infância e a fase adulta, marcada por mudanças físicas, cognitivas, emocionais, sociais e comportamentais específicas. É um grande desafio passar por essas transformações com sucesso, sendo de grande importância o suporte familiar e a boa integração no seu grupo de pares para a construção de uma identidade adulta saudável e autónoma.

Sabemos que vários fatores emocionais, contextuais e sociais podem levar a comportamentos prejudiciais à saúde do adolescente, como a automutilação. A auto-mutilação é cada vez mais frequente entre os jovens, é a forma que encontram de ‘gritar’ a sua dor psicológica. Este comportamento, apesar de ocorrer em diversas faixas etárias, é mais comum em adolescentes com início entre os 13 e 14 anos, podendo perdurar por 10 ou mais anos.

Na impossibilidade de viverem e elaborarem a dor emocional/psíquica fazem o deslocamento para a dor física, tornando-se esta mais suportável e apaziguadora. Trata-se de um encontro íntimo consigo próprio, não através da identificação e expressão das emoções, mas através da inscrição no corpo/pele da dor emocional que não conseguem dar um significado. É uma tentativa de modular as reações emocionais que são intensas e comuns na adolescência, como a menor capacidade de resolver problemas, a dificuldade em comunicar, baixa tolerância ao stresse e a reatividade aumentada a emoções negativas.

As funções da auto-mutilação mais adotadas pelos adolescentes são as de Reforço Automático Positivo (sentir alguma coisa, gerar sentimentos) e Reforço Automático Negativo (regular emoções negativas, como raiva, angústia, medo).

O contágio social tem um papel importante no iniciar destes comportamentos auto-lesivos, sendo que os adolescentes afirmam que o desenvolvimento da auto-mutilação está relacionado com o conhecimento de outras pessoas que também se auto-mutilam. A partilha destes comportamentos existe em espaços reais e virtuais e são vistos como uma saída imediata das situações problemáticas vivenciadas. Por conseguinte, os jovens identificam-se com as declarações e emoções expostas e acreditam no benefício do comportamento.

Muitos autores não consideram que a auto-mutilação possui o propósito suicida, pois a relação existente é entre o próprio corpo e a expressão de sentimento, não na ideia de morte. Estudos apontam que a maioria dos adolescentes que praticam a auto-mutilação não apresentavam intenção suicida.

Entre os fatores de risco foram identificados os acontecimentos adversos de vida, como abuso sexual e ‘bullying’, o contágio social através de ambientes reais e virtuais, dificuldades familiares, como conflitos e falta de suporte familiar, assim como baixa auto-estima, tristeza, dificuldade de se expressar verbal e emocionalmente e orientação sexual. 
Os adolescentes escondem as marcas/cicatrizes destes comportamentos, daí usarem camisas de manga comprida em pleno Verão, ou passarem a cortar-se em partes do corpo que não são facilmente visíveis, mais tarde podem recorrer a tatuagens nas zonas com mais cicatrizes.

É necessário entender a importância do diálogo e do afeto, do interesse nas vivências do adolescente, conhecer os amigos e as redes sociais, estar presente na relação com a escola e supervisionar ambientes que eles frequentam para compreender as necessidades físicas, sociais e emocionais do grupo de pares. Assim, ao conhecer o adolescente, é possível identificar fatores de risco durante esse período tão particular e desafiante da sua vida, promovendo um desenvolvimento saudável e a oferta de suporte adequado.

Quando são identificados estes comportamentos, deve ser pedida ajuda psicológica e/ou médica (Pedopsiquiatria), para trabalhar as emoções e regular a impulsividade.

Recomendo o livro ‘Adolescentes’ de Margarida Gaspar de Matos.

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