Opinião: O Carro da D. Aninhas

João Reis | Professor


Pela Rua da Ribeira abaixo (1), lá vinha a D. Aninhas ao volante do seu ‘Citroen-Arrastadeira’ preto, brilhante de polido. Ao aproximar-se da nossa ‘futebolada’, ao fundo da rua, parava e esperava, pacientemente, que surgisse um golo ou ‘bola fora’. Aí, retirávamos as pedras que faziam de balizas e íamos para os passeios, deixando-lhe livre o caminho. Passava, acenando-nos e sorrindo; nós correspondíamos, numa síntese de entendimento e amável cumplicidade.

Aquela rua, onde nasci e vivi até aos 18 anos, era “a nossa rua”; pertencia-nos – a mim, ao Chico, ao Mateus, ao Zé Lourenço, ao Zeca Bucha e mais meia dúzia de ‘mecinhes’(2) dos 7 aos 12 anos, década dos 50, séc. XX, que ainda lembro. Tal como a D. Aninhas, a generalidade da vizinhança tolerava, compreendendo, que a rua fosse o nosso ‘campo de jogos’, onde se jogava à ‘rolha’, ao ‘toca-e-foge’, à ‘porrada’ (nem sempre ‘a fazer-de-conta’); também às ‘uvas’ e ao ‘cavalinho-sete-da-batalha’. Jogos que envolviam corrida, saltos, destreza, resistência, muita alegria e companheirismo.

Era, também, ‘sala de estudo’ onde, nos poiais, fazíamos os ‘trabalhos-de-casa’, em proveitosa comunhão. Mas era, principalmente, ‘campo de futebol’. Assim que contássemos 6 ou 8 potenciais jogadores, formávamos duas equipas e começávamos o jogo que só terminaria quando o cansaço obrigasse ou se uma das mães nos gritasse: ‘pra casa!’. (Curioso – aceitávamos que, cada mãe, representasse todas as outras…) A bola era de ‘trapos’, feita por nós; o equipamento era o vestuário normal, mas, mesmo os que usavam habitualmente calças compridas, optavam pelos calções. É que as feridas nos joelhos, pelas ‘aterragens’ nos paralelepípedos da rua, doíam menos que as palmadas e outros castigos aplicados pela mãe de quem chegasse a casa com as calças rotas…
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Que bom era! Tínhamos espaço, tempo livre, ideias; inventávamos jogos e desafios que, sem percebermos, nos levavam a ultrapassar as nossas capacidades – físicas, mentais e psicológicas. Sem adultos ‘interferindo’, confiávamos uns nos outros e cumpríamos a mutualidade. Encantadora ‘escola experimental’ que nos proporcionou, enquanto crianças, a par da ‘escola do quadro preto’ (que nem todos frequentavam, por não ser obrigatório…) um apreciável ‘menu’ de qualidades – a confiança (em si e nos outros), a lealdade, a liberdade, a responsabilidade, o são convívio.

Isto não acontecia apenas na ‘nossa rua’; verificava-se com toda a ‘miudagem’ daquela época, em qualquer parte. Desde que não chovesse muito ou não tivéssemos “recados” pedidos pelas mães, lá estaríamos ao ar livre da rua, sem poluição. Afinal, nela, só havia um carro – o da D. Aninhas!!
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Este bocadinho do passado veio-me à memória quando assisti, pela ‘net’, à ‘Lição de Jubilação’ do professor Carlos Neto, em Maio, na Faculdade de Motricidade Humana-FMH (antigo INEF). Nessa maravilhosa lição, Carlos Neto percorre 50 anos de carreira, desde a formação de professor de Educação Física até à Cátedra na FMH da Universidade de Lisboa, leccionando ‘cadeiras’ relacionadas com Psicomotricidade e Desenvolvimento Motor na Infância.

Mantendo-se sempre ligado à Investigação Científica naquelas áreas, este insigne catedrático é um reconhecido membro de associações e/ou conselhos científicos nacionais e internacionais, sendo considerado um dos maiores especialistas mundiais na investigação naqueles domínios. Partilha o seu pensamento em palestras e revistas da especialidade. Publicou ‘LIBERTEM AS CRIANÇAS – A urgência de brincar e ser activo’ (2020), seguindo-se ‘DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM’ e ‘MOTRICIDADE E JOGOS NA INFÂNCIA’, livros cuja leitura aconselho a professores e pais. E, também, a quem tem responsabilidades políticas, no âmbito da EDUCAÇÃO.

Algumas afirmações de Carlos Neto, para reflectirmos:
“Em Portugal, a escola e o seu modo de aprendizagem estão ultrapassados há muito, mas as crianças continuam lá fechadas a maior parte do dia”.
“É preciso que a criança se desafie, caindo, trepando árvores, lutando, jogando, aprendendo a complexidade do seu corpo”.
“Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”.
“É importante que se devolva a brincadeira às crianças”.
“As crianças portuguesas brincam menos que os presos nas prisões”.
“Passeiam-se mais os cães do que as crianças”.
“Na escola, não entra só o cérebro, entra o corpo todo – mas o corpo fica esquecido”.

AGORA, PERGUNTO – Já brincaram, hoje, com os vossos filhos? Ou os vossos netos?
Vá!! Toca a ir BRINCAR!

(1) Actualmente, R. Júdice Fialho – Portimão
(2) ‘Putos’, naquela época.

  • Escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico.

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