Portimonense: Fali e Beto: irmãos quase gémeos

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Portimonense SAD

São inúmeras as coincidências nas carreiras de Fali Candé e Beto, os dois jovens futebolistas do Portimonense que atravessam, porventura, o melhor momento das suas vidas desportivas. As tais coincidências são tantas que o melhor, convenhamos, é seguir uma espécie de ordem cronológica, logo a começar pelas respetivas raízes, que apontam para a Guiné-Bissau: Fali nasceu na capital guineense, mas ainda muito novo mudou-se para a zona da Amadora, enquanto Beto é natural de Lisboa, embora os seus pais sejam guineenses. Têm os dois dupla nacionalidade e foi com esse estatuto que foram convocados, no mês passado, para a seleção da Guiné-Bissau, o que sucedeu pela primeira vez. O lateral esquerdo estreou-se de imediato a titular, com uma assistência para golo na vitória (3-1) sobre a Suazilândia e posterior apuramento para a fase final da CAN, enquanto o avançado, com alguns (ligeiros) problemas físicos, foi dispensado e ficou por Portimão a fazer trabalho de recuperação. 

Ambos subiram as carreiras a pulso, até chegarem ao escalão principal do futebol português. Fali andou pelo Atlético e Casa Pia, entre outros clubes, e, em 2018/19, ingressou nos sub-23 do Portimonense, uma época antes de Beto, que evoluiu no União de Tires e Olímpico do Montijo e rumou de seguida à equipa secundária dos alvinegros. Tanto um como o outro têm 23 anos…e as curiosidades não ficam por aqui: o primeiro golo do avançado na Liga NOS, em novembro passado, na 7.ª jornada, foi contra o FC Porto. Agora, na altura em que o campeonato deu uma volta, na 24.ª jornada, Fali também se estreou a marcar a este nível, precisamente contra os dragões! ‘Irmãos quase gémeos’, está visto, que na última ronda voltaram a fazer ‘miséria’ na goleada de 5-1 ao Nacional, com mais dois golos de Beto e um do ala canhoto. 

Além do percurso que os une, ambos viveram um curto período no Centro de Treinos. E os números dos dois também não diferem muito: em 2019/20, Beto e Fali fizeram, respetivamente, dez e nove jogos pela turma principal; na temporada atual, somam 22 e 17 aparições e são apostas frequentes de Paulo Sérgio. Aliás, o lateral esquerdo foi mesmo lançado por este treinador, enquanto o goleador – o melhor do plantel, com oito remates certeiros – teve direito aos primeiros minutos ainda no tempo de António Folha. Mas tem sido com Paulo Sérgio que despontou em definitivo, de tal modo que é cobiçado por alguns clubes, nacionais e estrangeiros, e, entre eles, o Sporting. 

Da Alemanha ao Porto para treinar nos juniores 
A história de vida de Fali Candé é um hino à persistência, que vale a pena ser contada. Nasceu em Bissau, aos 10 anos veio para Portugal, com os pais e seis irmãos, e foi viver para a Reboleira, ao lado do estádio do Estrela da Amadora, o clube em que deu os primeiros pontapés. Seguiu-se o Atlético e depois o Casa Pia, antes de uma aventura na Alemanha, para onde os progenitores, entretanto, tinham emigrado. “Aproveitei para jogar no Niendorfer, nos arredores de Hamburgo. Podia ser que tivesse sorte e desse nas vistas, mas foi tudo muito difícil, da língua à adaptação”, recorda o jovem. 

Através de um empresário surgiu, entretanto, a hipótese de prestar provas nos juniores do FC Porto. “Recebi a notícia três dias antes da data programada. Os voos de avião eram muito caros e a única hipótese era meter-me num autocarro. Lá fiz as malas e a viagem durou dois dias, sempre a galgar quilómetros na estrada”, prossegue Fali Candé. No Dragão trabalhou com António Folha, o treinador dos juniores da altura (2016/17). Ficou uma época na equipa, mas não renovou contrato e voltou a Lisboa. “Fiquei triste e até chorei”, confessa. Mas a vida é mesmo assim. “Ainda assinei pelo Benfica, pela equipa B, mas não correu bem”. Contudo, para quem já tinha trabalhado no McDonalds, no período em que esteve na Alemanha, os obstáculos são tudo menos intransponíveis. 
“Voltei ao Casa Pia, onde me pagavam 200 euros por mês. Mas eu queria jogar e mostrar o meu valor”.  

A carreira de Fali Candé deu mesmo uma volta, para melhor. “Surgiu então o Portimonense, cujo treinador era Folha, que já me conhecia do FC Porto. Fui para a equipa de sub-23, que se estava a formar, mas já com o sonho e o objetivo de lutar por um lugar no conjunto principal”. Primeiro com Luís Boa Morte e depois com Bruno Lopes, jogou e encantou. Começou a extremo, que era a sua posição, mas, aos poucos, passou a lateral esquerdo. “O Bruno convenceu-me e hoje reconheço que é o melhor lugar para as minhas características”. 
 
Estreia com o Benfica e golo ao FC Porto 
O resto da história de Fali Candé já é mais do domínio público. Na época passada, quando o campeonato foi reatado, pós-pandemia, Paulo Sérgio, que estava agradado com as suas exibições nos sub-23, promoveu-o à equipa principal. “Fiz bons treinos e comecei a ganhar confiança. As coisas correram naturalmente e sentia-me preparado, sabendo que mais cedo ou mais tarde ia estrear-me”. E foi logo contra o Benfica, em junho passado. “O míster, ao intervalo, disse-me para aquecer, que ia entrar. Pensei cá para comigo: é hoje! Vieram tantas coisas à cabeça…” atira o jovem, sem esconder, ainda hoje, o entusiasmo que o invadiu. E a estreia até teve direito a prémio: o Portimonense esteve a perder, mas recuperou da desvantagem e conseguiu um resultado positivo (2-2). 

Daí para cá não mais saiu da equipa, embora nem sempre seja titular. Tem contrato até 2024. “Sinto-me bem e todos confiam em mim. A SAD e o míster transmitem confiança e sei que, dentro do campo, tenho de assumir a responsabilidade”. No final do mês passado viveu outro momento alto da carreira, quando se estreou ao serviço da seleção da Guiné-Bissau, dias depois de ter marcado, frente ao FC Porto, o primeiro golo de sempre na I Liga.  

“Disputei a bola com o Sérgio Oliveira, consegui passar ao Aylton e corri, para me isolar, sabendo que ele me ia devolver o passe. Já na cara do Marchesín, pareceu-me que podia fazer golo, mas o ângulo estava um bocado tapado e preferi passar ao Beto, para ele finalizar. A bola acabou por sobrar para mim”, conta Fali Candé. “Fiquei muito feliz por este primeiro golo, mas triste pelo resultado. Marcar a uma equipa grande é sempre especial, mais a mais porque joguei nos juniores do FC Porto”. Alguns dias depois, na Madeira, voltou a festejar, marcando de livre direto nos 5-1 ao Nacional. 

Candidato ao Prémio Puskas 
Beto saltou também para a ribalta esta época, em boa parte devido aos golos que começou a apontar. Estreou-se a marcar em pleno Dragão, fez um bis perante o Farense, atirou a contar também frente ao Gil Vicente e saltou para as primeiras páginas com mais dois tentos contra o Tondela, o primeiro deles uma autêntica obra de arte, que fez eco lá fora e até há quem diga que pode ser candidato ao Prémio Puskas, uma distinção da FIFA para o melhor golo do ano.  

“Foi, sem dúvida, o melhor golo da minha carreira. Tratou-se de algo espontâneo: vi que o Aylton me podia passar a bola, desmarquei-me e fiz o movimento! Apanhei muito bem a bola…nunca tinha obtido um golo assim”, admite, recordando a receção, de primeira, e o remate, acrobático e espetacular, todo no ar, uma mistura de pontapé de bicicleta e de moinho. “As coisas estão a correr bem e este é, certamente, o melhor momento do meu percurso futebolístico, mas, atenção, não sucede por sorte. Tenho trabalhado muito”, sublinha Beto, um gigante de 1,94 metros que tem na humildade e na entrega ao jogo outras das armas que ajudam a explicar o êxito e que, na derradeira jornada, como já se disse, voltou a bisar.  

Beto, Norberto Gomes de nome próprio, fez praticamente toda a sua formação no União de Tires, onde treinava com bolas…de ténis! Os seus técnicos já viam nele um valor seguro, mas queriam, obviamente, que melhorasse as performances em termos de finalização. A insistência deu alguns frutos, já que no Olímpico do Montijo, onde atuou em 2018/19, marcou 21 golos em 36 jogos. David Martins, o técnico da altura, destaca a sua sede de aprender e a apetência pelos lances aéreos, lembrando, contudo, que tinha deficiências ao nível da interpretação do jogo e em alguns movimentos. 
 
Cláusulas de rescisão altíssimas 
“Hoje, depois de ter crescido nos sub-23 do Portimonense, o Beto tem tudo para ser uma referência no futebol português. É fortíssimo no ataque à profundidade, remata com ambos os pés e de cabeça e de certeza que vai marcar muitos mais golos”, sustenta David Martins, que hoje treina o Barreirense. Também Bruno Lopes, que o dirigiu na turma secundária dos alvinegros, não lhe poupa elogios, inclusive na dedicação que mostra no dia a dia e no forte desejo de aprender e evoluir. “O meu objetivo é ajudar a cumprir os objetivos da equipa, que passam por assegurar a permanência. Se puder acrescentar algumas metas pessoais, melhor ainda”, argumenta o avançado, que deixa sempre tudo em campo, como se costuma dizer. 

Beto, já se disse, tem sido alvo do interesse de alguns clubes, com o Sporting à cabeça. O seu contrato com o Portimonense dura até 2023 e tem uma cláusula de rescisão de 40 milhões de euros. Fali Candé, por seu turno, despertou a cobiça do Almeria de Espanha e tem vínculo até 2024 e uma cláusula de 30 milhões. São valores altíssimos, na linha do que a SAD vem privilegiando, protegendo os seus principais ativos, e, no caso de futuro negócio, salvaguardando encaixes proveitosos. 

“Há muitos jogadores com propostas, mas, de momento, a SAD não tem interesse em negociar atleta algum. Estamos de portas fechadas para saídas. O nosso objetivo é garantir a permanência e estamos todos focados nisso. É a única meta que a curto prazo queremos alcançar”, esclarece Rodiney Sampaio, o presidente da SAD, dando eco ao que norteia todo o futebol profissional do Portimonense. 

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