Almargem acusa entidades públicas de “cuidarem mal” do património

fonta da pipa

A preocupação das entidades públicas pela preservação do património histórico e cultural “tem deixado muito a desejar nos últimos anos”, segundo a associação ambientalista Almargem, que em comunicado a que Algarve Vivo teve acesso aponta três exemplos recentes, “em contextos completamente distintos”, a saber, o Programa REVIVE, o Forte de S. João da Barra, em Tavira, e o Solar da Fonte da Pipa, em Loulé, alvo de recente incêndio.

Fernando M. Vieira

“A desresponsabilização do Estado torna-se bem patente ao analisarmos o Programa REVIVE, recentemente divulgado. No Algarve, pelo menos dois dos três edifícios que o Governo colocou agora à disposição das entidades privadas já tiveram planos de intervenção, os quais, no entanto, nunca foram postos em prática”, lamentam os ambientalistas.

Apresentam a título ilustrativo o caso do Forte do Rato, edifício seiscentista incluído há anos pela Direção Regional da Cultura na lista dos monumentos a requalificar, e dos Armazéns Pombalinos da Boca do Rio, no concelho de Vila do Bispo, propostos na última década do séc. XX como pólo museológico, juntamente com as ruínas romanas envolventes e o espólio arqueológico do navio-almirante francês ‘L’Océan’ ali afundado, em 1759, frente à costa.

Os responsáveis da Almargem apontam o facto de ambos os monumentos se encontrarem situados no interior de zonas sensíveis de áreas protegidas, para perguntarem: “Que planos poderão ter as entidades privadas para um edifício situado em pleno areal da Boca do Rio (PN do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina) ou para um forte localizado no PN da Ria Formosa?” E respondem: “Dois hotéis, o primeiro numa praia praticamente selvagem, o segundo em zona de sapal de uma área onde a tónica tem vindo a ser dada não à requalificação mas sim às demolições.”

USUFRUTO PÚBLICO EM CAUSA

Quanto ao Forte de S. João da Barra, em Cabanas de Tavira, construído no séc. XVII e classificado como Imóvel de Interesse Público em 1960, numa época em que já era propriedade privada, foi há anos recuperado e transformado num pequeno hotel rural. Segundo a Almargem, o atual proprietário “decidiu recentemente vedar toda a área circundante, impedindo a aproximação às imponentes muralhas e a passagem de caminhantes pelo trilho litoral sobranceiro à Ria Formosa, pondo em causa o usufruto público deste espaço”, criticando o facto de o Parque Natural e a Direção Regional da Cultura “até agora nada terem feito para inverter a situação.”

Sobre o solar da Fonte da Pipa, construído no séc. XIX e incluído no PDM de Loulé como Imóvel de Interesse Público a Classificar, encontrava-se há anos em avançado estado de degradação, “tendo sofrido um golpe fatal, na passada semana, com um incêndio cujas causas continuam por apurar”, lembra a associação, que adianta: “Propriedade de um enigmático ‘fundo de investimento’ que pretendia transformar o palácio e toda a quinta envolvente num ‘resort’ de luxo com cerca de 500 habitações, mesmo à entrada da cidade de Loulé, não mereceu, da parte do Município, a atenção devida ao seu significativo valor monumental, nunca chegando a ser classificado.”

Neste caso, a Almargem considera “imprescindível que o Município assuma de vez as suas responsabilidades, estabelecendo um acordo com os proprietários, de forma a que a Quinta da Fonte da Pipa e o seu solar sejam transformados num centro de cultura e ambiente, um pouco à semelhança do que aconteceu com a Quinta de Serralves, no Porto.”

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