Elidérico Viegas: “Tolerância de ponto contribuirá para aumento significativo de portugueses no Algarve”

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As taxas de ocupação na hotelaria do Algarve poderão registar uma subida durante o período do Carnaval “na ordem dos cinco por cento”, com “preços para todos os gostos e todas carteiras”, entre 15 e os 100 euros, consoante o tipo de alojamento, incluindo pacotes especiais. Quem o diz, em entrevista ao ‘site’ da revista Algarve Vivo, é Elidérico Viegas, presidente da direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), que aponta para uma ocupação de 50 por cento nesta altura do ano. A instabilidade internacional, com ameaças de terrorismo em países da bacia do Mediterrâneo e na zona do Magreb, continua a desviar turistas, nomeadamente para o Algarve, perspetivando-se, para já, um aumento da procura face ao ano de 2015, tanto na Páscoa, como durante o Verão. O principal dirigente da AHETA aborda, ainda, a descida do IVA, insiste na problemática das portagens na A22/Via do Infante, das obras de requalificação na Estrada Nacional 125 e deixa outros recados ao Governo.

José Manuel Oliveira  

Como vai ser a ocupação hoteleira no Algarve durante o período do Carnaval? Haverá aumento em comparação com o ano passado?

As perspetivas apontam, de facto, para uma subida das taxas de ocupação durante o período de Carnaval na ordem dos 5 por cento. Este aumento resulta, por um lado, do crescimento da procura por parte dos nacionais e, por outro, de turistas estrangeiros, na linha do que vem acontecendo nos últimos tempos.

Quem procura o Algarve para mini férias nesta altura?

Os portugueses são os turistas mais numerosos nesta época do ano, embora estejamos a assistir a um aumento da procura dos principais mercados externos emissores, consequência direta da política de preços mais competitiva que a empresa gestora do aeroporto de Faro introduziu ao nível das chamadas taxas aeroportuárias durante a época baixa.

Por outro lado, a instabilidade que afeta a generalidade dos destinos concorrentes, designadamente nos que se localizam na bacia do mediterrâneo e Magreb, tem contribuído para desviar fluxos turísticos importantes para outros destinos, incluindo o Algarve. Nesta altura, a ocupação hoteleira nesta região situa-se em 50 por cento ao nível das unidades que estão em laboração.

Quais são os preços praticados pelas unidades hoteleiras e pelos empreendimentos turísticos por dia e por pessoa? Como funcionam os pacotes especiais?

As unidades hoteleiras e os empreendimentos turísticos dispõem de ofertas especiais para estadias nesta altura do ano, existindo preços para todos os gostos e todas as carteiras, os quais poderão oscilar de 15/16 euros até 100 euros, ou mais, consoante o alojamento. Já os pacotes especiais podem incluir, entre outras coisas, a oferta de um dia para estadias mais prolongadas e mesmo uma ou mais refeições. Os turistas dividem-se pelas diferentes zonas geográficas da região e pelos diversos tipos de estabelecimentos existentes de uma forma mais ou menos homogénea e equilibrada.

Com tolerância de ponto, como perspetiva a procura por parte de portugueses?

O facto de haver tolerância de ponto na terça-feira de carnaval, algo que não sucedia desde 2012, vai contribuir para um aumento significativo da procura por parte dos nacionais.

De que forma o Algarve poderá atrair mais visitantes durante os fins-de-semana prolongados ao longo do ano de 2016?

Os hoteleiros estão muito atentos a estas “pontes” e, à semelhança do que vem acontecendo nos últimos anos, não deixarão de promover ofertas adequadas a cada momento, tendo em vista captar mais turistas nacionais nesses períodos. Por exemplo, ao reservar três noites numa unidade, um visitante poderá ficar durante mais uma. Serão quatro noites.

Quantas unidades hoteleiras estão encerradas nesta altura? O que representa em termos percentuais? São mais, ou menos, do que no ano anterior?

A lei não obriga as unidades hoteleiras a comunicar oficialmente o seu encerramento temporário, estimando-se que cerca de 50 por cento dos estabelecimentos cessem a sua atividade total ou parcial na época baixa do turismo. Nesta altura, estão 200 encerradas. Este número é sensivelmente igual ao dos anos anteriores.

Já tem indicadores para a Páscoa? Como será?

A Páscoa funciona como um pontapé de saída para o início da época turística. O facto de a Páscoa neste ano ser bastante mais cedo vai fazer com que haja um interregno de algumas semanas até ao arranque definitivo da época de verão. As previsões apontam para um crescimento da ordem dos 5 por cento face ao ano anterior.

A cerca de três meses do início da época turística, quem procurará o Algarve neste Verão? Nota tendência por outros mercados, como os chineses? O que representa atualmente?

As nossas expectativas apontam para um aumento médio de 3,8 por cento relativamente ao ano anterior. Os mercados externos que mais procuram o Algarve são o Reino Unido, a Alemanha, a Holanda e a Irlanda, respetivamente. Nos últimos dois anos temos assistido a um aumento exponencial do mercado francês, embora o peso dos turistas franceses no cômputo global das dormidas ainda seja muito baixo (3,2%).

O mercado chinês não tem expressão no Algarve, pelo menos no que às dormidas diz respeito. É verdade que, no âmbito dos vistos dourados, houve alguns investimentos chineses em segundas residências, com reflexos evidentes ao nível do turismo residencial.

Como encara a descida do IVA na restauração, de 23 para 13 por cento, apenas em certos produtos, não incluindo a totalidade de bebidas? O que vai possibilitar essa redução?

A descida do IVA sobre a alimentação e bebidas vem contribuir, decisivamente, para melhorar o fundo de maneio das empresas hoteleiras e turísticas do Algarve, demasiado descapitalizadas pela asfixia fiscal a que foram sujeitas no passado recente, uma consequência direta da grave crise económica nacional e internacional. Recorda-se que cerca de 30 por cento da faturação média das empresas hoteleiras do Algarve corresponde a alimentação e bebidas (cerca de 200 milhões de euros), sendo mesmo a região portuguesa onde este valor é mais elevado.

Poderá haver mais emprego no sector? E descida de preços ao consumidor?

É verdade que a maior libertação de meios financeiros vai permitir às empresas contratar mais pessoal. Contudo, e uma vez que não houve subida de preços aquando do aumento do IVA, também não haverá descida de preços para os consumidores.

Lamenta-se que a descida não seja mais abrangente, nomeadamente no que se refere a algumas bebidas, situação que esperamos ver satisfeita em 2017. Os portugueses e os empresários estão, infelizmente, cada vez mais habituados às promessas não cumpridas dos políticos.

O que permitiria a redução do IVA no golfe?

O IVA no golfe de 23 para 13 por cento permitiria reduzir despesas em seis milhões de euros e aumentar a promoção do turismo residencial no Algarve.

Que outras medidas terá o Governo de tomar para o sector turístico?

A promoção tem sido, desde sempre, uma das maiores fragilidades do nosso turismo, sendo mesmo apontada por alguns sectores como o calcanhar de Aquiles do turismo português. Assim, o reforço das verbas promocionais é, certamente, uma das prioridades que deve ocupar os nossos responsáveis nos tempos mais próximos, assim como a alteração das estratégias que vêm sendo seguidas, de forma a conferir à nossa promoção externa uma vertente comercial que, reconhecidamente, ainda não tem.

A economia portuguesa em geral e o turismo em particular precisam de melhorar a sua competitividade fiscal a todos os níveis, designadamente no que se refere ao exagero de taxas municipais existentes, especialmente no Algarve.

Direitos de autor e direitos conexos são outras matérias que exigem intervenção urgente por parte do Governo, tanto mais que vêm causando enormes prejuízos empresariais e turísticos.

A aprovação de mecanismos financeiros que permitam a recapitalização das empresas, quer através de fundos financeiros, quer criando condições que remunerem os capitais próprios, para além da construção de infraestruturas de índole regional que ainda não temos: espaço multiusos/centro de congressos; policlínica desportiva para atletas de alta competição; hospital central, etc., constituem bons exemplos de promessas não cumpridas pelos sucessivos governos e que importa dar seguimento no curto/médio prazo.

Políticas de transporte aéreo e gestão aeroportuária mais competitivas, apoio a novas rotas aéreas, redução dos chamados custos de contexto, (justiça, saúde, etc.), reformas administrativas ao nível dos organismos nacionais e regionais do turismo, são outros aspetos que importa considerar para tornar o sector turístico mais competitivo e rentável.

Como avalia a situação no Algarve com as portagens na A22/Via do Infante? Ainda acredita na extinção das portagens ou haverá apenas redução de preços?

A problemática que envolve as portagens na Via do Infante constitui um bom exemplo do que não deve ser feito para tornar uma região atrativa e mais competitiva em termos económicos e turísticos.

A questão mais importante prende-se com o modelo de pagamento e menos com o preço. É verdade que a redução do preço é bem-vinda, mas o cerne do problema reside mais na confusão instalada relativamente à cobrança, sobretudo para os turistas estrangeiros, confrontados com uma situação que não só não compreendem como acham algo caricata.

Quais as consequências para o turismo em face das obras na EN 125? Que prazo defende para a conclusão de forma a não afetar o turismo no Verão?

Fazemos votos para que as obras de requalificação na EN 125 possam estar terminadas antes da época turística, embora a prática desaconselhe tais otimismos. O que tem lógica e faz sentido é suspender as portagens na Via do Infante durante a execução dos trabalhos na EN 125, não se percebendo porque é que esta medida não foi tomada desde logo, como mandam as mais elementares regras de justiça e bom senso.

Como vê a situação da segurança em Portugal, e em particular no Algarve, devido à ameaça terrorista lançada pelo auto proclamado Estado Islâmico, em especial para a Península Ibérica? É necessário controlo das fronteiras? O que tem de ser feito em concreto? Os hotéis terão de reforçar segurança?

No que às diversas forças de segurança envolvidas diz respeito, penso que Portugal e o Algarve estão a fazer o que precisa ser feito nesta matéria. Por outro lado, os hotéis e os empreendimentos turísticos, quer individualmente quer em colaboração com as diversas forças de segurança em presença, dispõem de mecanismos que permitem acompanhar o evoluir do problema. A cooperação assume-se, também nesta matéria, como uma das melhores “armas” na prevenção e combate a este fenómeno.

 

 

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