50 anos de ‘Mata Porcos’, cinco décadas de identidade em Portimão

Texto e fotos: José Garrancho
O ‘Mata Porcos’ começou como uma pequena taberna, aberta na década de 50 do século passado, na Rua Alexandre Herculano, junto ao cruzamento com a Rua João de Deus, ali bem perto da Infante Dom Henrique. Deve o nome ao seu proprietário, que era matador de gado suíno, uma profissão que, entretanto, foi desaparecendo. Desde a primeira hora, o estabelecimento ganhou fama pelas suas bifanas saborosas e tornou-se um ponto de paragem obrigatória.
Em abril de 1974, duas semanas antes da Revolução dos Cravos, o casal António José da Conceição e Maria Santos adquiriu o negócio e desenvolveu-o. Arrendou a loja adjacente, que era do mesmo dono e tinha entrada pela Rua João de Deus, partiu a parede que dividia as duas lojas e deu início a uma casa de pasto, que se transformou, mais tarde, num restaurante.
20 anos depois, António José da Conceição e Maria Santos adquiriram outra pequena casa na mesma artéria, na esquina com a Rua Dr. Manuel de Almeida, conhecida na cidade por ser a antiga ‘venda’ do Joaquim Águas, onde ainda se mantém o velho conceito da taberna.
António José faleceu há dois anos, mas Fernando Conceição, o filho, que vem explorando o restaurante ‘Mata Porcos’ há vários anos, contou a história deste negócio ao Portimão Jornal. Também Maria Santos, que substituiu o marido na taberna famosa pelas bifanas, batizada ‘Tasca do Estendal’ por um dos netos, mas conhecida por ‘Mata Porcos’ um pouco por toda a cidade, foi falando do espaço, onde logo pela manhã começa a atender por quem lá passa.
Fernando, falemos então do restaurante, o início da aventura. Como era a casa de pasto?
Havia uma montra de caça e o tacho das bifanas por detrás do balcão. E as cartolas de vinho do Cartaxo, tinto e branco, para venda a copo. Havia muita carne de porco, que o meu pai matava ou mandava matar. A confeção era aqui, havia uma salgadeira e faziam-se as chouriças e morcelas. Eram mais os petiscos do que as refeições formais, porque ainda não havia o hábito de almoçar e jantar fora.

Como decorreu a evolução da casa?
Nos anos 80, o turismo começou a descobrir Portimão, a Rua da Lojas começou a ser uma zona turística. Abrimos a esplanada e, a partir daí, alterámos o conceito do negócio. Passou de casa de pasto a restaurante. Imagine se os turistas entrassem e vissem um porco morto em cima do balcão? Ou a minha mãe a encher chouriços? Iam embora e não voltavam mais (risos).
Os seus pais já tinham experiência no ramo?
Já. Tinham uma taberna e uma mercearia, onde está hoje ‘A Nossa Tasca’, no Malheiro, que era a casa dos meus avós e onde nós vivíamos. No entanto, as condições de vida eram melhores em Portimão e decidiram arriscar. E aqui se mantiveram ambos, durante 20 anos, até à abertura da taberna.
E depois, ficou um em cada loja?
Não exatamente. Delegaram em mim a gestão do restaurante e o meu pai tomou conta da taberna. Depois, a minha mãe agarrou na ‘Nossa Tasca’, que andava por baixo, reativou-a e esteve lá 11 anos. Quando foi arrendada, veio para a taberna. A minha mãe tem uma grande mão para a cozinha. Nasce com as pessoas. Hoje, com 88 anos, continua a fazer as melhores bifanas da cidade.
Há quantos anos é que o Fernando trabalha aqui?
Desde os 12 anos e já tenho 64. Faça as contas. Estou cá desde o início.
Em determinada altura, inscreveu-se num curso de gestão hoteleira. Terminou?
Inscrevi-me, no primeiro curso que houve no polo de Portimão da Universidade do Algarve, em 1992. Não terminei, porque se extinguiu aqui, por falta de alunos, e não me dava jeito ir para Faro, pois já estava a gerir o restaurante. Mas foi muito bom, a nível de experiência e de contactos. O ‘Mata Porcos’ era uma extensão da universidade, pois as festas e os encontros eram aqui. No outro dia, houve uma reunião a comemorar os 30 anos da inauguração do polo universitário, alguns ex-alunos deram testemunho e apresentaram algumas fotografias do restaurante, que foi referido indiretamente pelo reitor no seu discurso, dizendo que havia sempre grandes festas no fim da Rua das Lojas.
A sua mãe, embora contando já 88 primaveras, ainda pensa ficar uns anos a tomar conta da taberna. E quando ela não puder? Pensa substituí-la, para manter a tradição?
Quem sabe? Essa talvez seja a hipótese mais inteligente, porque o restaurante desgasta muito. Só que também não se pode largar do pé para a mão. Há que ter sempre contacto. Não digo estar aqui o dia inteiro, como agora, mas saber o que se está a passar. Porque isto foi criado por nós. O meu pai começou e eu continuei, mal ou bem, porque isto nunca foi a minha vocação. Mas nós temos de viver todos os dias.
E ‘A Nossa Tasca’, no Malheiro?
Está arrendada. Aquilo foi tudo restaurado pelo meu pai, que fez lá uma coisa bonita, mas era mais para a minha irmã desenvolver lá um conceito de restauração familiar. Estava a correr bem, era frequentada pelos médicos do hospital, mas é muito desgastante, as pessoas envolvem-se e acabam por perder muitas coisas a nível familiar, por falta de tempo. Foi por isso que largou, mas teve o cuidado de não fechar a casa e arrendou-a. Continua aberta, mas não temos qualquer ligação. Contudo, foi a minha mãe que a tornou famosa, com os seus bons cozinhados.
Afinal, é ‘Tasca do Estendal’ ou ‘Taberna Mata Porcos’?

Na esquina da Rua Alexandre Herculano com a Rua Dr. Manuel de Almeida, lá está ainda hoje, de pedra e cal, a antiga ‘venda’ do Joaquim Águas, hoje a Taberna do ‘Mata Porcos’, gerida por Maria Monteiro Santos Conceição, com 88 primaveras bem conservadas e famosa pelas suas deliciosas bifanas. Ao entrar, chama a atenção um letreiro sobre o balcão, preso por uma corda, dizendo ‘Tasca do Estendal’. Ninguém melhor do que a proprietária para falar dos dois nomes e sobre este espaço tradicional, que resiste aos tempos, ali no centro antigo da cidade.
D. Maria Santos, porquê ‘Tasca do Estendal’?
Um dos meus netos anda no mundo do cinema e, de vez em quando, gosta de fazer estas brincadeiras. Mas toda a gente conhece por ‘Mata Porcos’, embora não seja. O restaurante é que é.
A decoração é bonita e as mesas são uma maravilha. Onde as adquiriu?
Tudo quanto está aqui, no interior, foi o meu falecido marido que fez. Trespassámos a casa, há 32 anos, e ele modificou tudo, até a posição do balcão. E foi ele quem fez estas mesas, a decoração com os barris, consertou o teto, tudo. Foi sempre tasquinha e ele é que estava aqui, porque eu tomava conta do restaurante. Aquele é que é o ‘Mata Porcos’, onde já estamos há 52 anos. Quando fomos para ali, ainda era uma tasquinha; depois é que fizemos o restaurante, deitando abaixo uma parede falsa que lá existia. Quando tomámos conta desta tasquinha, ele mudou-se para aqui.

Mas a senhora também esteve uns anos na ‘A Nossa Tasca’, no Malheiro?
Fui fazer ‘A Nossa Tasca’, que é mesmo meu, porque era a casa dos meus pais. Estive lá 11 anos e, depois, voltei para o restaurante. E o meu marido aqui, a fazer estas coisinhas. Entretanto, eu já não podia e vim para aqui, deixando o filho no ‘Mata Porcos’.
Esta casa é simples, mas bonita, e parece trabalhar bem, com uma clientela certa?
Vai-se trabalhando. E, no verão, há muitos estrangeiros, que gostam da casa, porque é diferente, é tradicional. E eu aqui vou cozinhando uns petiscos e servindo umas bebidas. Mas, agora, vou fazendo pouca coisa para comer, porque já não posso fazer muito.
E, quando não puder, vem o filho para aqui?
Ele gostava, mas não sei. O futuro é uma incógnita.





