Restaurante ‘O Capacho’: Uma joia gastronómica em Alvor

Texto e foto: José Garrancho
Já lá vão 26 anos desde que a família Colaço agarrou no restaurante ‘O Capacho’, que já fora famoso, mas que fechara, por motivos de saúde do seu proprietário. Deram-lhe uma volta completa, desde a decoração ao serviço, e criaram um espaço elegante, com excelente comida e serviço de cinco estrelas, a preços acessíveis. A sala exterior, ricamente decorada, com 40 lugares, é a mais usada. Há outra sala, com 30 lugares e uma decoração mais leve, direcionada para grupos.
O principal rosto é o de Fernando Colaço, um portimonense de gema, nascido no Sapal há quase 78 anos, que iniciou a sua vida profissional em 1961, no restaurante ‘Piedade’, na altura um dos melhores em Portimão. Depois de cerca de ano e meio de aprendizagem, foi para a ‘Pensão Central’, propriedade dos pais do conhecido cantor António Calvário, outra casa de renome, onde permaneceu cerca de dois anos. Tem como parceiros a sua esposa Teresa Colaço e o filho Paulo.
Após a ‘Pensão Central’ qual o rumo que tomou?
Fui para um café, que também tinha serviço de restauração, em Silves, e pertencia a um tio meu. Apesar de ser muito novo, fui substituir um chefe de mesa que era de Monchique. Com 17 anos, entrei no Hotel da Penina. Trabalhei uns meses no ‘grill’, passando depois para o bar, onde aprendi com grandes profissionais e me mantive até ir cumprir o serviço militar. Regressei e aí fiquei até 1975, quando fui para a América trabalhar nos cruzeiros, onde estive até 1980. Regressei ao Hotel da Penina, onde trabalhei durante três anos e meio.
Trabalhou sempre em locais que foram considerados grandes escolas profissionais?
É verdade. Depois, fui abrir o restaurante ‘Falésia’, na Praia da Rocha, como chefe de bar. Acabei por tomar conta do negócio, com outro colega, durante cinco anos, mas os donos quiseram fechar a casa para obras e indemnizaram-nos para sair. Foi quando comprei ‘O Capacho’.
E como entra a Teresa Colaço nesta ‘aventura’?
Sou de Monchique, vim para Portimão aos 16 anos e fui trabalhar para o Penina, onde encontrei o meu marido. Ao fim de três anos, casei e saí, quando tive o meu filho. Estive cinco anos sem trabalhar e decidi ir fazer um curso de cozinha, embora pensando que nunca me iria fazer falta. Quando o meu marido e o sócio ficaram com o restaurante ‘Falésia’, fui para a cozinha. Praticamente só fazia entradas, fui-me habituando e vendo como as coisas funcionavam e o curso deu-me uma grande ajuda. Quando viemos para aqui, fiz a ementa à minha maneira, fui buscar receitas antigas da minha avó, com os temperos caseiros. Tentamos fazer os pratos o mais saudável possível, trabalhando à base do azeite e só uso óleo nas frituras. O azeite que uso é mesmo azeite do bom, não é aquele que dizem ser azeite e não é.
Apresentam ainda uma variedade de sobremesas diferentes do que é habitual. É fabrico vosso?
Sim. Feitas pelo nosso filho, o Paulo, que é o nosso braço direito. Quem fazia a pastelaria era eu e um dia ele disse-me que eu tinha demasiado trabalho e pediu-me para o ensinar a fazer. E não tínhamos metade das sobremesas que temos hoje. Neste momento, faz melhor do que eu e outras que não sei fazer. Até os profiteroles são fabricados na casa. Temos de ir ao encontro dos desejos dos clientes, mas mantendo a qualidade.
Agarraram numa casa que estivera fechada e trouxeram-na para o topo…
Foi fácil, porque tínhamos muitas pessoas amigas que trabalhavam na hotelaria e que nos ajudaram a divulgar a casa. O meu chapéu de chefe de cozinha foi um hoteleiro amigo do meu marido, o senhor Ribeiro, que chegou aqui e disse que eu não podia usar o que tinha na cabeça e que tinha de comprar um chapéu. E ainda hoje o uso, em homenagem a ele.

Fernando: Foi muito difícil conquistar novos clientes?
Os nossos clientes, quando começámos, eram muito os amigos que trabalhavam na hotelaria e que continuam a vir. Tivemos grupos dos Rotários, durante muitos anos. E a nossa clientela estrangeira vem do Penina, do Pestana, do Hotel Algarve… Mas também temos outros, porque estamos abertos para todos e todos são bem-vindos. Hoje temos uma vasta clientela fixa, tanto de estrangeiros como de portugueses, incluindo os portimonenses. Mas convém sempre reservar, principalmente para jantar, através do nosso contacto telefónico (282 458 126).
Fernando: têm um ambiente cinco estrelas, da decoração ao serviço, com preços semelhantes à concorrência e pratos de excelência. Fica a sensação de ser caro…
Mas não é. E temos gosto de ter determinados cuidados. Por exemplo, as toalhas são lavadas e passadas a ferro, todos os dias.
Um serviço que se distingue também pela atenção ao cliente
Fernando Colaço cedeu esta entrevista quando o serviço de almoços estava já no final. Com duas mesas ocupadas e, embora Paulo Colaço assegurasse o serviço, o empresário dirigiu-se às mesas para pedir desculpa por se vir sentar a um canto, para falar com o Portimão Jornal. E, quando se levantaram, foi despedir-se dos seus clientes à porta. Neste restaurante, não há filas de clientes à espera, no exterior, pressionando quem está no interior para se despachar depressa. Se está cheio, está cheio e os clientes demoram o tempo que desejarem. Se uma mesa está a terminar, dizem ao cliente que chegou para passear um pouco e regressar um pouco depois.
Paulo Colaço é o pasteleiro de serviço de ‘O Capacho’
Divide o trabalho nas mesas com o seu pai, tem o curso de escanção e tornou-se o pasteleiro. Porquê?
Pela necessidade de ajudar a minha mãe e por curiosidade. E também pela alegria de ver os clientes ficarem satisfeitos com algo que faço de raiz, o que é raro nos restaurantes. Tenho uma lista grande, desde a torta de amêndoa, torta de laranja, tartes de amêndoa e de coco, o pudim de mel, tradicional de Monchique, mas a receita antiga e feita com mel bom. Há a maçã assada, uma coisa simples que muitos restaurantes podiam fazer. E, atualmente, muitas pessoas são alérgicas ao glúten. Para essas, faço receitas tradicionais, mas sem farinha. Criadas por mim, tenho a tarte de maçã e o bolo de figo, feito com base no bolo de ananás açoriano. Até os profiteroles são feitos na casa.
E a clientela ainda vai pelos vinhos, ou vão mais para água e cerveja?
Fiz a minha formação na Escola Hoteleira como escanção e tenho clientes que me dão a liberdade de escolher os vinhos. Tento sempre ter uma seleção que vá abranger todo o tipo de palato. No verão, como é óbvio, optam mais pelos vinhos verdes, brancos, cerveja e água. Mesmo com as carnes, vão para os brancos, embora mais secos ou mais encorpados. No inverno preferem os tintos, porque o clima assim o pede.
Fernando Bailote foi o primeiro proprietário do espaço

Como e quando surgiu ‘O Capacho’?
Eu e o João do Carmo Salgado, um amigo de infância, abrimos como loja de artesanato e minimercado. Depois, passámos para um snack-bar, com bilhares e snookers. Mais tarde, em 1990, mudámos para restaurante. Mas cheguei à conclusão de que tínhamos de nos separar, porque os nossos caminhos eram diferentes. Comprei a parte dele e fiquei só com a minha família, porque achei que tinha condições para levar o negócio mais além. Iniciámos a aventura, se não estou em erro, em 1992.
E depois?
Sempre tive o gosto, desde miúdo, de cozinhar para os amigos. Logo, abrir um restaurante, cozinhar para os outros e os clientes tornarem-se amigos seria a realização do sonho. Criei ‘O Capacho’ e os clientes foram meus amigos ao longo de muitos anos. Cozinhava por paixão, instruído pela minha mãe, que ia ao restaurante quase diariamente, me instruía e ajudava a completar aqueles pratos característicos do Algarve.
Mas houve algo que deu origem a essa transformação, ou não?
Houve. Um dia, estava sentado a comer sarrajão frito com arroz de conquilhas, na pequena esplanada que então existia. Passou um senhor que me perguntou o que estava a comer. Disse-lhe e ele comentou que tinha bom aspeto e perguntou se podia provar. Eu disse que sim, sentou-se à nossa mesa e tornou-se nosso cliente. Ele tinha casa em Alvor, ia lá com frequência e telefonava no dia anterior a encomendar o sarrajão frito com arroz de conquilhas. Foi quando pensei que tinha potencial para mais, que não podia andar a perder tempo, e decidi arrancar sozinho. Foi assim que começou.
E foram sempre mantendo esse tipo de pratos?
Sim, a comida que a gente comia, na nossa casa. Quando necessitava de aprender mais, ia pesquisar em vários sítios no Algarve. E trazia novas ideias para o meu restaurante. Tinha uma clientela maioritariamente portuguesa, porque, nessa altura, os nossos pratos tradicionais não abundavam nos restaurantes. Estava tudo virado para a cozinha internacional.
Houve a coragem de introduzir um conceito de cozinha algarvia numa zona essencialmente turística?
Sim, porque eu sou algarvio, prezo muito o Algarve e a nossa culinária e entendi que deveria ser esse o caminho. E tive a ajuda daquele casal que adorou o sarrajão frito com arroz de conquilhas. Tornaram-se clientes e disseram -me para ir por aquele caminho, que era o certo. O resto todos faziam.
Porque é que terminou?
Em 1999, quando tive um AVC. Continuou com a minha ex-esposa, mas não conseguiu aguentar o barco. Recuperei e fui para lá, mas não dava, pois foi um trauma muito grande, uma vez que o AVC aconteceu no restaurante. O stress era muito e achei que não era bom para mim.
Acabaram por vender ao atual proprietário?
Sim, ao senhor Fernando, um homem que está vocacionado para fazer o mesmo tipo de comida e até melhorá-la. Hoje, o restaurante é muito conhecido, continua a ter muita fama e o proveito de ser um restaurante algarvio a sério. Aliás, só o vendi por ser ele, porque não o vendia a alguém que estragasse o que eu tinha feito. Ele tornou-o melhor, o que me deixa feliz. E hoje sou seu cliente.




