Opinião: O Enterro do 25 de Abril de 1974

Pedro Manuel Pereira | Historiador

in Portimão Jornal nº 29


Morreu na madrugada do dia 25 de Julho de 2021, Otelo Saraiva de Carvalho. Para uns, foi um herói, para outros, um terrorista, mas a verdade é sem ele não teria existido a revolução de Abril/74.

Com ele será enterrado simbolicamente o que resta dessa data que transformou o Portugal era, naquele que conhecemos hoje, que se encontra “festivamente” (para a classe política dominante) na cauda do “pelotão” dos 27 países da União Europeia.

De entre todos os militares intervenientes no 25 de Abril de 1974, a morte do capitão Salgueiro Maia, constituiu o enterro simbólico dos ideais de transformação do país, expressos na sua intervenção aos militares formados em parada, na unidade militar de Santarém onde prestava serviço, na madrugada do 25/Abril/74:

“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!”.

Tal como Salgueiro Maia, outros militares utópicos/idealistas, foram perseguidos por canalhas do novel regime e “apagados” da nova vida colectiva da nação.

Dos demais militares intervenientes na madrugada que instaurou a III República, exceptuando os que à revolta militar a ela aderiram por razões corporativas/reivindicativas castrenses e os infiltrados ao serviço do PCP, o planeamento estratégico militar de Otelo e a sua atuação foram decisivos para a queda da ditadura, quer se goste dele ou não. É uma realidade insofismável que se encontra inscrita na História contemporânea de Portugal.

O que seguiu na sua actuação nos tempos que seguiram, incluindo a sua participação nas brigadas das FP 25, foi submerso nas décadas seguintes por bandos de canalhas, corruptos e arrivistas acoitados em partidos ditos democráticos e noutros em que os seus programas até são democráticos. E assim continua, aumentada, agravando a situação pandémica infectada por essa fauna, bem pior e mais destrutiva para a nação portuguesa, do que o famigerado covid 19.

Sobre o estado político degradado (e degradante) a que o país chegou, há dez anos Otelo dizia em entrevista (11 de Abril de 2011) que “Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro”. (https://www.jn.pt/nacional/se-soubesse-como-o-pais-ia-ficar-nao-fazia-o-25-de-abril-diz-otelo-saraiva-1829254.html)

Ainda sobre Salgueiro Maia e como uma metáfora da História, sintomaticamente, em 2011 a filha de Salgueiro Maia, Catarina Salgueiro Maia, com o marido desempregado e um filho asmático (que necessita de um medicamento que não é comparticipado em Portugal), teve de emigrar para o Luxemburgo para que família pudesse sobreviver. Regressou mais tarde, mais teve de voltar novamente a emigrar para esse país, porque considera que o país se encontrar pior do que 2011.

Referiu Catarina Salgueiro Maia: – “Às vezes digo que o meu pai, lá em baixo, deve estar às voltinhas no caixão. O meu pai lutou por uma democracia, por um país livre, correcto, aberto”.

(https://www.publico.pt/2015/04/26/politica/noticia/filha-de-salgueiro-maia-no-luxemburgo-depois-de-convidada-a-sair-por-passos-coelho-1693706).

*Artigo escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico

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