No reino da Quinta Pedagógica tudo tem mais encanto e alegria

Texto: Hélio Nascimento | Foto: Eduardo Jacinto, in Portimão Jornal nº52


Interagir de perto com os animais e ter o mundo rural à porta de casa é um privilégio ao alcance de poucos. Ou melhor, de pouquíssimos. Em Portimão, contudo, essa ‘viagem’ não só é possível como é altamente recomendável, inclusive para quem prefere, por estes dias, uma manhã de praia. Pois bem, se está de férias tire pelo menos um bom par de horas e delicie-se com o que a Quinta Pedagógica tem para lhe mostrar e oferecer. 

Em primeiro lugar, este incrível espaço, de quase dois hectares, “faz a aproximação à cidade do que é o mundo rural, de como funciona uma quinta”, com o foco, naturalmente, na agricultura e nos animais. “Vimos como se trabalha numa horta, nos pomares, e, o mais engraçado, é que tudo isto se passa em plena cidade”, congratula-se Eva Leal, a coordenadora que recebe a reportagem de Portimão Jornal e nos transporta para uma realidade que faz as delícias de todos, mormente da pequenada. 

“As pessoas sentem que estão praticamente no centro da cidade e ao mesmo tempo entram no quotidiano do campo”, prossegue a agrónoma, dando a cada frase um sentimento de puro prazer, ao mesmo tempo que nos leva para junto das cabras e das ovelhas, das árvores de fruto e de um espantalho feito pelas crianças. Também há um riacho, onde os patos são reis e senhores, e, claro, muitas gaiolas e galinheiros, para já não falar nos espaços maiores, ‘controlados’ pela vaca Júlia ou por quatro burras à espera de brincadeira. 

Muitos adultos e até estrangeiros 
Fundada em 2008, a Quinta Pedagógica tem crescido “com novas experiências e mais hortas” para mostrar aos visitantes. “Há culturas que conseguimos adaptar e importa transmitir esses dados”, conta Eva Leal, aludindo também aos ciclos de vida dos animais. “Morrem aqui, é verdade, mas de velhice. Nascem na Quinta, vivem, desenvolvem-se e acabam por morrer, o que nos provoca tristeza, obviamente, muito embora seja gratificante acompanhar todo esse ciclo”. 

“O ambiente é uma preocupação: reciclamos muito, não entram químicos e é tudo produzido de forma sustentável e por método natural, fundamentado na agricultura biológica” 

Licenciada em agronomia e beirã de nascimento, Eva está na Quinta Pedagógica desde 2017, depois de ter trabalhado no associativismo, ligada à cultura biológica e à produção integrada. Em Portimão, faz equipa com a engenheira Catarina. “O que aprendemos e a formação que vamos tendo ajuda a esclarecer e a dar o máximo de informação a quem nos visita”. 

Além das duas, também a psicóloga Marisa, a socióloga Irene e ainda Nídia, que gere e funciona quase como ‘caseira’, são elementos imprescindíveis do aprazível espaço, que, como se sabe, é municipal. “Temos depois os tratadores da casa, que desempenham um papel importantíssimo, e que são o Arlindo e o Fernando”, às vezes ajudados por outros dois tratadores, que chegam através de protocolos e projetos. 

Em 2021, a Quinta registou 16800 visitantes, um número sempre a aumentar, e, curiosamente, não apenas referente aos mais pequenos, uma vez que “os adultos aparecem cada vez mais, incluindo estrangeiros”. Neste ponto, Eva destaca a troca de informações a nível da agricultura, “o que é muito bom, pois, além de servirmos as escolas, fazemos o mesmo para toda a comunidade”.

A vaca Júlia e o pónei Pirata 
Andar por um sítio tão agradável, ao ar fresco, e ter a possibilidade de ver e interagir com os animais…enfim, é mesmo de encher a alma. Falando de animais, a lista é grande e diversificada, e, sendo enumerada por Eva Leal, temos até direito a saber o nome de muitos destes magníficos e bem tratados ‘membros’ da Quinta. “Começando pelas aves, contamos com rolas, pombos, dois pavões, dois faisões, galos e galinhas, patos e duas peruas”, salienta a coordenadora, com o maior dos entusiasmos e pronta a seguir a descrição. 

“Temos dois porcos, o Pedro e a Rita, três póneis, um cavalo, que é o Oriente, e cabras e ovelhas de raça autóctone algarvia. Ainda há a Júlia, a nossa simpática vaca, mais quatro burras, para além de vários cães e gatos”. A limpeza, claro, é uma constante, sendo que algumas aves “são limpas uma a uma”.  

Quanto à reprodução, esclarece a agrónoma, “é algo que controlamos”, quer quando há lugar aos cruzamentos ou respeitando a consanguinidade. “A afinidade com os animais é intensa e o objetivo é manter a interação com as escolas e com a comunidade. Trabalhar assim é gratificante”, vinca, referindo ainda que a pequenada não tem preferências em relação à bicharada. “Gostam de todos, é mesmo verdade. E os animais também interagem, até porque ficam contentes quando vêm os miúdos, sinal que vão comer e brincar mais”. 

Um dos pontos altos deste período de verão é o passeio nos póneis. As crianças anseiam pelo momento, aguardando que a Joana e o Daniel, monitores selecionados para funcionarem agora na Quinta, vão buscar o Pirata, o dócil pónei que também adora uma passeata.   
 
Confecção de biscoitos e caça aos ovos 
Para lá dos animais, as árvores e a horticultura são igualmente uma referência incontornável nesta alegre viagem. “A variedade é grande e abordamos todo esse ciclo, fazendo sementeiras, vendo as vinhas e mostrando às crianças de onde vêm as frutas e os legumes que se compra nos supermercados. As ramas das cebolas deixam-nos surpreendidos, porque não é usual terem essa visão”. 

“A variedade é grande e abordamos esse ciclo, fazendo sementeiras, vendo as vinhas e mostrando às crianças de onde vêm as frutas e os legumes que se compra nos supermercados”

Nesta altura, decorrem as Férias de Verão, que funcionam praticamente como um ATL. “Por semana temos um grupo de 15 miúdos, que todos os dias nos visitam. Na semana seguinte vem outro grupo e assim sucessivamente. Proporcionamos o máximo de atividades, desde as artes na cozinha à criação de um espantalho para a horta, que eles constroem. O ambiente é uma preocupação nossa: reciclamos muito, não entram químicos e é tudo produzido de forma sustentável e por método natural, fundamentado na agricultura biológica”. 

As iniciativas são diversas e todas as sextas feiras, por exemplo, temos o ‘Vem dar o pequeno almoço aos animais’, que junta quatro aglomerados familiares, uma atividade sempre com muita gente nas férias. “Eu e a Catarina também vamos às escolas, passar a mensagem e mostrar que até numa varanda, dentro de um vaso, podemos produzir”, prossegue Eva.  

Há, igualmente, a confecção de biscoitos, em que os miúdos manuseiam tudo, dispondo de formas com desenhos de animais para concluir o processo. E a caça aos ovos? Claro que é outra aventura, quando se entra num galinheiro à procura de surpresas…  

Um dentista e um ferrador, mais um apicultor e uma escritora 
A Quinta Pedagógica está aberta de segunda a sexta feira, mas, depois das férias, pode também ser visitada aos sábados, em cujas manhãs decorre outra atividade do agrado geral, com a parceria da Biblioteca Municipal, denominada ‘História da Quinta’ e acompanhada por teatro. São “as tais coisas novas e diferentes” que se implementam. E vêm mais: “Há sempre mais ideias para evoluir e desenvolver. Vamos continuar a ir às escolas, mas, quanto ao mais, tenho de guardar segredo”, revela a coordenadora. 

Um dentista e um ferrador deslocam-se de quando em vez ao espaço, para ‘tratar da saúde’ aos animais, e a comemoração, recente, do ‘Dia da Abelha’ foi outro êxito. “Tivemos cá um apicultor e uma escritora a falar das abelhas. Os jovens quiseram vir, aderiram e inscreveram-se, e os pais ficaram deveras satisfeitos. É esse feedback que nos deixa ainda mais felizes”, garante Eva. 

Por falar em felicidade, a coordenadora não esconde o sentimento que a invade constantemente por fazer aquilo que tanto gosta. “É um privilégio e cada vez temos maior motivação e vontade. Toda a equipa da Quinta dá sempre o seu melhor e por isso digo que este é o local mais maravilhoso de Portimão. Não sou de cá, mas já tenho uma costela e gosto de viver na cidade. Trabalho no que adoro, só me posso sentir bem”. 

Mantendo a estrutura, a Quinta vai passar a dispor de um parque infantil, um “projeto engraçado”, contíguo à área do já existente jardim, onde a pequenada gosta de correr e brincar. D resto, as obras de conservação e manutenção são uma constante. Tudo funcional e sempre modernizado, para gáudio de Filipe Bally, chefe da Divisão do Ambiente da Câmara, que também se juntou à conversa e acompanhou parte da reportagem.

Crianças e animais numa harmonia perfeita 

A nossa reportagem cruzou-se com o grupo de crianças que visitou a Quinta, numa manhã naturalmente para recordar. À espera de vez para ‘cavalgarem’ no Pirata, o pónei de eleição, a miudagem revelava a excitação própria da altura, mas para a Beatriz, de 11 anos, a novidade era relativa, uma vez que se tratava da terceira presença no local. Mesmo assim, transbordava alegria. “Gosto muito da Quinta e de todas estas experiências. O contacto com os animais e o poder alimentá-los, bem como andar no pónei e fazer outras atividades, deixa-nos sempre muito contentes”. Ao lado da menina estava a Joana, voluntária, de 20 anos, licenciada em gestão e quase a embarcar para Roma, onde vai fazer o mestrado. “Já tinha feito as Férias Desportivas e adorei. Agora, repito a sensação, que é muito boa, sobretudo porque trabalhar com crianças é algo que me preenche”. O outro voluntário, o Daniel, de 22 anos, a cursar saúde e o ramo da fisioterapia, corrobora o agrado geral. “Inscrevi-me e estou a gostar imenso. Juntar crianças e animais, ou seja, acompanhar estes dois mundos, é bastante gratificante”.    

A deliciosa história da ovelha que foi rejeitada

Situada na Aldeia Nova da Boavista, com entrada grátis e aberta das 9h30 às 17h30, a Quinta Pedagógica tem histórias deliciosas para contar, e, quiçá, guardar num livro de memórias. Desafiada a evocar um desses episódios, Eva Leal nem pensa duas vezes. “Posso falar da Alice, a nossa ovelha que foi rejeitada no seu rebanho. Houve uma senhora que a recolheu e trouxe-a cá, pedindo se podíamos ficar com ela”. O resto é tipo conto de fadas: a Alice mamava de três em três horas, tal como um bebé, chegou a usar fralda e andava atrás das pessoas da Quinta como se fosse um cão. “Trata-se de uma ligação incrível e de uma experiência muito engraçada”, sublinha a coordenadora, ‘apresentando-nos’ a Alice, hoje já uma ‘senhora’ e de resto muito bem acompanhada, no caso pela filha Esperança e pelo marido Juju.   

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