Rosto do ‘Studio V – Música Livre’ é o professor Luís Fonseca

Luís Fonseca, natural de Portalegre, fez o curso de mestrado em Ensino de Música na Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco e passou grande parte da sua vida no Alentejo. Até ao dia em que decidiu concorrer como professor na Escola Básica e Secundária da Bemposta, onde passou a lecionar a disciplina de Formação Musical.
Foi assim que há oito anos chegou a Portimão com a sua esposa Vitória, que o tem acompanhado e ajudado neste percurso. Na bagagem trouxe o ‘Studio V – Música Livre’, o projeto que iniciou na sua terra natal, de ensino personalizado e que já é um sucesso na cidade onde escolheu morar… Portimão.
Como surge este projeto do ‘Studio V – Música Livre’?
Quando estava em Portalegre tive sempre este ‘part-time’. Na altura, estive quatro anos no Instituto Português do Desporto e da Juventude e eles cederam-me um espaço. Tinha um estúdio para ensaios, uma sala para dar as aulas e um auditório onde realizava muitas apresentações, aulas e workshops. É um projeto que já me acompanha desde Portalegre, Elvas e agora cá. De início conciliava com as aulas na rede de ensino público, mas agora dedico-me a ‘full time’ ao ‘Studio V’. Tomei esta decisão porque comecei a ter muitos alunos. Desde então, não tenho concorrido às escolas. Sinto-me mais realizado ao fazer este trabalho do que quando estou no ensino público ou no ensino particular e cooperativo como é o caso dos conservatórios de música. Consigo trabalhar em paz, com um aluno de cada vez e adapto o ensino ao ritmo de cada aluno.
Há então, este ano, um ponto de viragem no projeto?
Mais ou menos. Ao longo deste percurso, tenho feito muitas apresentações com estes meus alunos, sobretudo na Casa Manuel Teixeira Gomes. Este ano, o concerto final foi na Biblioteca Municipal de Portimão e mais uma vez, enchemos a sala. Todos muito apertadinhos, mas felizes. Nesta ocasião, sendo o Concerto Final, todos vêm apoiar… os pais, os avós, os amigos e outros convidados. Sabendo que temos sempre uma excelente assistência neste evento, este ano fiz um pedido à Câmara Municipal para me cederem o Teatro Municipal, mas a resposta veio negativa. Nos dois últimos anos estivemos no Auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão, amavelmente cedido pelo senhor diretor Pedro Moreira.
Quem não tem nenhum conhecimento de música, inscreve-se no ‘Studio V’ e o que é que acontece?
Começamos do zero. Temos um método para cada instrumento. Aliás, até tenho vários métodos para diferentes instrumentos. Para piano, por exemplo, tenho quatro. Se for um aluno inglês tenho um método inglês, o mesmo para um francês ou português. Adapto, não só à língua, mas às necessidades de cada aluno, dado que cada aluno tem a sua própria personalidade. Faço essa gestão, consoante o aluno e idade. Começamos muito calmamente com o solfejo e pela primeira abordagem ao instrumento.
A ideia é que percebam música?
Sim. Vão aprender a ler música. Têm o solfejo. A primeira parte da aula é leitura musical, saber interpretar uma partitura, depois na segunda parte da aula é que vai para o instrumento.
O solfejo é a parte mais chata?
Não é. As pessoas pensam que sim e sei que têm essa opinião. Por isso, tento encontrar maneiras de mostrar que apesar de trabalhoso, é muito necessário. Às vezes, faço jogos e brincadeiras que disfarçadamente acabam por fazer essa aprendizagem à mesma, mas de forma divertida.
E há muito talento escondido por aí?
Este ano tive 35 alunos. Desde que cá estou já tive mais de cem alunos. É óbvio que umas pessoas têm mais talento do que outras e, às vezes, há meninos com muito talento, mas que estão sobrecarregados de atividades, acabando por não ter tempo para estudar, e o talento musical fica um pouco sem espaço de evolução. Tudo é importante, mas, quando são muitas atividades, não conseguem acompanhar bem. De qualquer forma, tenho alunos que já tocam muito bem. Há um aluno, por exemplo, que não se deita enquanto não souber a música de cor. Está de pijama a tocar, a mãe diz para se ir deitar e ele pede só mais um bocadinho. Ele é muito dedicado e também joga ténis. Consegue conciliar.
O projeto agora fará uma pausa de verão. Quando retoma?
Retomamos em setembro. É importante fazer uma pausa para férias, até para que os alunos tenham saudades das aulas. Se não paro eles cansam-se de mim (risos). Assim, dois meses de pausa e quando voltarem já têm vontade de estar ali. Começo a agendar em setembro e, a princípio, há sempre alunos novos. Tenho esta média de 35.
As aulas são sempre individuais?
Sim, mas é muito importante, para quem estuda música, saber tocar em grupo. Por vezes, toco com eles, e sempre que posso junto alguns alunos para tocarem em conjunto. Foi o caso deste final de ano onde juntei alguns e fizemos uma banda de ocasião. Piano, dois saxofones tenores, um saxofone alto, uma guitarra elétrica e um baixo elétrico, e eu fiquei na bateria. Funcionou muito bem!

Porquê ‘Studio V’ como nome?
É um V de Vitória, o nome da minha mulher, que me tem acompanhado neste percurso. Aliás, ela tem formação no Conservatório em piano e participou em diversos workshops de voz e técnica vocal. Para mim, ela é a melhor cantora do mundo só que ela não acredita (risos). Foi vocalista em diversos projetos musicais.
RAÍZES ALENTEJANAS
Falando um pouco sobre si, como é que chega a Portimão?
Vinha sempre de férias, com a minha esposa, para cá e gostava muito desta zona. Como já referi, um dia surgiu um concurso para a Escola da Bemposta e era mesmo na minha semana de férias. Disse à minha esposa que ia aproveitar para concorrer. Foi o que fiz e entrei. Organizamos tudo e viemos.
Isso aconteceu há quanto tempo?
Oito anos. É engraçado que, quando era jovem, era futebolista no Estrela de Portalegre, que na altura estava na segunda divisão e era uma boa equipa, e houve um presidente do Portimonense que me quis contratar. Não vim nessa altura, mas sempre tive aquela ideia de vir para cá.
E voltando atrás, como surge a música na sua vida?
A minha mãe era muito visionária, digamos assim, apesar de ser analfabeta. A nossa vida era no campo. Ela era doméstica e o meu pai era vaqueiro. Queria levar-me para guardar as vacas. A minha mãe disse que não, que eu ia aprender música. Inscreveu-me na Banda Filarmónica Euterpe a aprender solfejo e onde aprendi Saxofone Soprano e Requinta e, depois, fui também aprender acordeão. Fiz parte de um rancho folclórico. Até que surgiu a oportunidade de ir estudar para o Conservatório em Castelo Branco, porque não havia em Portalegre.
Um carro sem carta de condução
Era longe…
De Portalegre a Castelo Branco são 80 quilómetros. E o que é que a minha mãe fez? Comprou um carro, mesmo sem ter carta. Então, convidava os vizinhos para irem comigo a Castelo Branco. Uma semana ia um vizinho, noutras ia outro vizinho e assim pude ir estudar. Entretanto, mais tarde, surgiu o Conservatório em Portalegre e comecei a estudar lá. Fiz o curso e pelo meio meteu-se a arquitetura, tendo trabalhado muitos anos num atelier. Não fiz o curso de arquitetura, mas ainda gostava de fazer. Apesar disso, fiz muitos projetos para um engenheiro em Portalegre. Só que as obras, com a crise, acabaram e eu regressei à música.
Foi trabalhar como professor?
Sim. Contrataram-me numa escola de música em Portalegre. Ensinava tudo o que lá havia. Vamos imaginar que havia uma guitarra portuguesa. Não sabia tocar, mas antes, preparava uma ou duas lições para a frente e o novo que vinha sabia menos que eu. Ensinava o que já sabia, porque ao fim ao cabo já tinha uma certa experiência na música e conseguia contornar.
E ficou por aí?
Sentia-me incompleto porque não tinha um curso superior. Só o Conservatório. Então resolvi ir fazer um curso superior a Castelo Branco. Já tinha carro (risos). Estive lá seis anos, porque era a antiga licenciatura de quatro anos, mais dois de mestrado. Quando terminei fui trabalhar no Conservatório em Portalegre, depois ainda estive em Elvas e, mais tarde, foi quando concorri à escola da Bemposta.
A Escola da Bemposta também era já um regime mais inovador?
Tem uma grande parcela de ensino artístico. Tive muita sorte nesta mudança. Quando vim, estava em Elvas na Academia de Música. Lá tinha um aluno particular que cantava fado. Quando lhe disse que vinha para Portimão, ficou muito triste, mas em conversa disse que o sogro tinha cá casa. E onde? Na Bemposta. E que a casa estava fechada. Expliquei que vinha precisamente para a Bemposta e arrendaram-me a casa. Foi mesmo fantástico. Entretanto, além da Bemposta, fui ainda dar aulas na Dom Martinho e depois na Buisel. Estive também como diretor pedagógico do Conservatório de Música de Albufeira. Este ano, voltaram a convidar-me, mas é longe e não aceitaram os honorários que pedi, e por outro lado não posso deixar os meus queridos alunos e alunas que tenho no meu projeto. Mesmo se fosse para Albufeira, seria sempre para conciliar com o meu projeto pessoal ‘Studio V’.

Para terminar, qual o instrumento que gosta mais de tocar?
Toco vários instrumentos. Piano, guitarra, acordeão e saxofone são os meus favoritos. Até já pensei em fazer um concerto de carreira.Gostava, mas ainda não tive paciência… Mas na verdade, o que gosto mesmo é tudo o que é instrumentos de percussão. Se me derem uns ferrinhos, deliro, um bombo… bateria.
Deixou algo no Alentejo em termos musicais?
Ajudei a formar duas associações de música tradicional com pessoas da terra. Uma em Gáfete e outra em Alagoa, ambas no concelho do Crato. Igualmente com este projeto. Atualmente estas entidades já contam com algumas atuações internacionais e até na televisão.
Isso dá-lhe alguma satisfação?
Dá, sim. Não os formei sozinho, pois há sempre algum apoio das Juntas de Freguesia, mas musicalmente fui eu que os formei do zero. Vê-los agora andar de terra em terra a tocar, traz-me muita satisfação.
IA ainda não vai substituir ensino presencial
O avanço das tecnologias, num mundo em constante mudança, não passa despercebido também na área da música. Hoje, a inteligência artificial já é uma realidade na vida de muitas pessoas. Na opinião do professor Luís Fonseca ensinar e ‘fazer aprender’ ainda não é algo que seja viável, porque considera que “as pessoas não são máquinas e precisam de atenção, carinho e motivação”, algo que as máquinas ainda não fazem. “Muitas vezes, além de professor, sou quase psicólogo”, refere.
A verdade é que já há avanços importantes na área da composição. “A minha mulher, além de ser auxiliar de fisioterapia, ajuda-me bastante no meu projeto. No outro dia, descobriu uma aplicação de inteligência artificial na música e testámos. Escolhemos o ritmo, algumas palavras relacionadas com a mensagem que queremos passar, poucas e o resultado… foi assustador, porque é muito bom”, confidencia. Há algum tempo, Luís Fonseca até investiu em divulgar que poderia compor uma canção a pedido para quem quisesse fazer um agrado a familiares ou amigos, porque também é compositor, mas esta evolução atesta que cada vez menos, com a existência da IA, seja viável divulgar este serviço.
BREVES
Música no Festival Chaminé d’Ouro
Além de músico, Luís Fonseca também compõe. Foi com temas originais que concorreu quatro vezes ao emblemático Festival Chaminé d’Ouro, promovido todos os anos pela Junta de Freguesia de Portimão. Ganhou duas vezes consecutivas. Na edição deste ano, o evento que se realiza este sábado, dia 18 de julho na Alameda, coloca a concurso as músicas vencedoras dos últimos 14 anos, onde estará uma das que foi composta por si, com o titulo ‘Não e Ponto’.
Um acordeão na rua e um dinheirinho extra
“No ano passado, fui tocar acordeão para a rua, só para ver como era. Pus uma caixinha para as pessoas deixarem umas moedinhas”, conta o professor. As pessoas gostaram e o certo é que a brincadeira lhe rendeu, em três noites, 150 euros. Só que, para quem não sabe, além da licença da Câmara que é gratuita, o professor Luís teve de pagar 22 euros por dia à Sociedade Portuguesa de Autores para poder tocar descansado, pois é uma lei do país. Com humor, afirma que “se no futuro precisar…” pode sempre ponderar a hipótese de “ir para a rua tocar”.
Saudades do ensino
O professor confessa que, às vezes, sente saudades do ensino, e até pensa voltar, mas a realidade atual das escolas não o faz regressar para já. “Às vezes, apetece-me voltar à escola, mas não com horários completos. Umas cinco horas, por exemplo, só para estar naquele ambiente”, afirma. Algo que começa a ser um desejo mais distante quer pela realidade do ensino nos dias de hoje, quer porque tem já um número considerável de alunos.




