Ferragudo tem um dos poucos capitães bacalhoeiros algarvios

Texto e foto: José Garrancho
Filho de um pescador que foi mestre de várias traineiras, o Capitão Condesso, como era conhecido, veio com os pais para Ferragudo, com pouco mais de três anos, na altura em que desapareceram o galeão de pesca e a fábrica de conservas de peixe existentes em Albufeira.
Quando tinha oito anos, a família mudou-se para Sines, onde o pai foi governar uma traineira. Aí, terminou o ensino primário. Estudar mais significava deslocar-se diariamente para Santiago de Cacém e optou por se dedicar a uma vida no mar.
Começou no mar às escondidas. Como foi isso?
O meu pai pediu ao patrão e fui aprender serralharia para a oficina dele. Entretanto, o peixe falhou em Sines e o meu pai veio pescar para o Algarve e convidou-me para vir com ele. Aceitei, mas ia morrendo pelo caminho, com o mau tempo. Fartei-me de vomitar. Foi um bom batismo de mar. Depois, habituei-me, mas tinha de ficar no beliche, lá em baixo, quando vinham vender o peixe. Se fosse apanhado, o meu pai pagava multa.
E quando regressou a Ferragudo?
Com 13 anos. O meu pai veio para mestre da traineira Maria do Pilar, do albufeirense Rafael Arruta que, mais tarde, mandou construir a traineira Cristina Leote, que era o nome da esposa. O meu pai tentou colocar-me na oficina do Alfarrobeira, mas eu ainda não tinha 14 anos, que era a idade mínima. Então, começou a levar-me à pesca com ele. Nesse tempo, não havia sondas, nem sonares. Pescava-se ao ardor ou ao futuro. O meu pai ia para a proa e levava-me com ele. Uma noite, frente a Olhão, o mar ‘ardia’ e o meu pai perguntou-me se via alguma coisa mexer. Disse-lhe que sim e a rede foi ao mar. Enchemos cinco enviadas de biqueirão que renderam 150 contos. Imagine que estávamos no fim do mês e só tínhamos vendido cerca de 20 contos. Foi uma festa. No dia seguinte, repetimos a proeza com mais 152 contos vendidos. Foi um mês rico.
E o ‘senhor capitão’ ainda ia à socapa?
Pois ia. Mas, passado pouco tempo, fiz 14 anos e o meu pai levou-me logo à delegação marítima de Albufeira, para tirar a cédula. Entretanto, uns industriais de Lagos compraram o Mira Rio, traineira que o meu pai já tinha governado, em Sines, e chamaram-no para mestre. O barco tinha a base em Lagos, a nossa casa era em Ferragudo, o meu pai tinha problemas de estômago e eu tinha de cozinhar para ele. E tinha de fazer o trabalho de bordo, como os outros. E, à noite, queria-me junto a ele, à proa. Era muito pesado. Mas, mal juntei dinheiro, comprei uma bicicleta para me deslocar entre Lagos e Ferragudo.
E como foi parar ao bacalhau?
Queria fugir desta vida e, mal fiz 18 anos, tentei entrar na escola da marinha mercante, em Caxias, mas fiquei em espera um ano. Naquela altura, não havia carteiros em Ferragudo. As pessoas iam levantar a correspondência ao posto de correio. Avisei a D. Alice que iria chegar um postal para mim e, quando chegou, ela colocou-o sobre a secretária, encostado à parede. Mas acabou por cair para o chão e ela nunca mais se lembrou. Quando telefonaram a perguntar porque não me tinha apresentado, já o prazo tinha terminado. Pensei logo: se não vou para a marinha mercante, vou para a escola do bacalhau. Fui à inspeção em Portimão, passei e inscrevi-me na escola, em Pedrouços.
E conseguiu entrar?
Sim, mas deu-se um caso engraçado. A mãe do meu pai era professora de lavores e fazia coisas lindas em empreita, com desenhos. E a D. Eugénia Monteiro, que era diretora de todas as escolas de raparigas das Casas dos Pescadores, tinha-a levado como professora para a escola de pesca de Tavira. A minha avó fez-lhe um pedido, mas acabei por entrar sem cunhas. Um dia, a D. Eugénia entrou na sala de aulas e perguntou quem era o José Manuel Condesso. Levantei-me e disse que era eu. Deu-me duas bofetadas, dizendo que era por eu ter ido para a escola e não a ter informado. A escola devia ter 100 alunos e só tinha 99. Eu sabia lá da conversa entre ela e a minha avó?!
Como foi a vida na escola de pesca?
Não me posso queixar. Um dos professores, o Dr. Varela Cid, soube que eu tinha andado ao mar e que sabia cozinhar. Ele tinha um iate a meias com outro sócio e começou a levar-me com ele, nas férias. Fui às Berlengas, Gibraltar, Tânger, Málaga. E era pago. Na escola, as aulas eram boas e eu queria aprender. Estudava muito. Enquanto andei nas traineiras, fui fazendo um diário com os locais onde se podia pescar sem partir a rede, desde a Arrifana a Vila Real de Santo António. Ninguém sabia melhor onde havia pedras do que os homens das lanchas a pescar com anzóis e eu aprendi com eles.
E foi para o bacalhau?
Fui como moço para o ‘Avis’, um lugre de quatro mastros e motor auxiliar fraquinho, que não dava mais de seis nós. Partimos em abril, já eu tinha feito 19 anos. Levávamos sardinha para iscar, mas já não estava em condições, quando chegámos à Terra Nova. O capitão decidiu ir à Nova Escócia comprar cavalas. Levámos 18 dias a chegar lá. Depois, passámos entre o Labrador e a Terra Nova, no estreito da Bela Ilha, com muitos blocos de gelo à deriva, a caminho da Gronelândia. Mais 14 dias. Em dois meses, carregámos 12 mil quintais de bacalhau bom, cerca de 720 toneladas.
Como era a vida de moço, a bordo dos navios bacalhoeiros?
Muito dura e desgastante. Os pescadores levantavam-se às quatro horas da madrugada. Os moços saíam da cama 20 minutos antes, a fim de safar o isco e cortá-lo, para lhes entregar. Depois, íamos para os ganchos, para ajudar a pôr os dóris no mar. Assim que eles partiam, íamos safar o sal, de gatas. De seguida, lavávamos o convés e só depois íamos comer. Entretanto, começavam a chegar dóris, com mais ou menos peixe. Tínhamos de segurar os barcos e, por vezes, ajudar com o bacalhau, que eles atiravam com os garfos. Depois, agarrávamos nas cabeças dos bacalhaus que tinham sido escalados e salgados, no dia anterior, e retirávamos as caras e as línguas, que pertenciam ao capitão.
Era mesmo duro…
Sim e entretanto tinha início a escala dos bacalhaus capturados no dia, que podia durar até à meia-noite. No dia seguinte, o mesmo. Vá lá que, de vez em quando, havia mau tempo e descansávamos. Uma vez, levámos 22 dias seguidos a pescar. Depois, quatro dias de mau tempo. Nesses quatro dias, quase não saí do beliche, para recuperar. Mas nunca arreei! E, quando chegámos a Leixões, a minha ideia era continuar durante seis anos, o que me livraria do serviço militar obrigatório. E juntar dinheiro para comprar um barquinho de pesca, com redes e aparelho de anzol.
Regresso aos estudos com 20 anos
Como aconteceu a mudança na sua vida?
Vim para Ferragudo e recebi uma carta do Dr. Varela Cid a dizer que me tinha conseguido uma bolsa de estudo, através do Grémio da Pesca da Sardinha. Estudar aos 20 anos? Quando até já tinha uma namorada?! Não respondi, nem disse nada aos meus pais. Passados três ou quatro dias, cheguei a casa e o Dr. Varela Cid estava lá e convenceu-me que era melhor estudar do que ser pescador. Mas, embora lesse e escrevesse bem, teria de fazer o 2º, o 5º e o 7º ano liceal em cinco anos e, depois, dois anos de Escola Náutica. Fui falar com o pai da rapariga, contei-lhe o que se passava e que não sabia se ela estava disposta a esperar por mim. Ele pediu-me para falar com ela, mas ela respondeu: “Esperar sete anos, sem ter a certeza se, depois, voltas ou não? Nem penses!”.

Mas, ao trocar o bacalhau pelos estudos, arriscava-se a ter de fazer o serviço militar obrigatório?
É verdade. E, quando estava no 6º ano, chegou uma carta da Marinha de Guerra para ir fazer o tirocínio de grumete. Fui obrigado a ir. Estive lá seis meses e saí como 1º grumete. Mas saía mais cedo à sexta-feira, para ir à escola. Embora estudasse, quase perdi o ano. Entrei na Escola Náutica no último momento, pois 25 anos era a idade máxima permitida. Acabei o curso com quase 28 anos.
Foi uma grande mudança para um pescador de Ferragudo?
Se foi! Fiquei aboletado na casa da mãe do Dr. Varela Cid, gente fina, onde aprendi a comer de faca e garfo. Na traineira, era com faca, à mão. Depois, consegui lugar num petroleiro, o ‘Cercal’, como piloto praticante. Fiz duas viagens e tive de regressar à Marinha de Guerra, durante seis meses, para fazer o tirocínio de oficial. Cheguei a embarcar no navio-escola Sagres.
E como regressou ao bacalhau?
Um dia, vinha ver o meu pai a Setúbal, vi a esposa de um capitão bacalhoeiro que conhecia à espera dele e ela disse-me para esperar. Ele chegou, olhou para mim e perguntou-me se queria embarcar como piloto, pois ia dar baixa do que tinha ido com ele. “Se quiseres ir, começas a ganhar a partir de amanhã”, disse-me. Fui nessa viagem, como 2º piloto, e ganhei 32 contos em quatro meses, o que era muito bom. Na viagem seguinte, mais 30 contos. Entretanto, casei e ele mandou-me ir fazer a descarga, porque iria como imediato na viagem seguinte. Levei a esposa e foi assim que passámos a lua-de-mel, 15 dias no navio.
O casamento foi com outra senhora?
Sim, a outra não quis esperar. Casei com a aquela que ainda é a minha atual esposa, que já conhecia antes e que esperou por mim.
Na viagem seguinte, passou a imediato…
Sim, o capitão mudou de navio e levou-me com ele, como imediato. Era o ‘Águas Santas’, um navio a vapor, que gastava diariamente 12 toneladas de água e 14 toneladas de nafta. Tinha de ir a terra mensalmente. Fomos para a Gronelândia, regressámos em novembro e já tinha uma filha à minha espera. O navio necessitava de reparações e o capitão de um navio de Aveiro convidou-me para ir como imediato. Pedi 50 contos para uma viagem de três meses e deram-me. Depois, fiz duas viagens com um capitão de Olhão. Duas boas viagens, as melhores do navio.
Radiotelegrafistas ganhavam mais
Seguiu-se mais uma mudança…
Entretanto, começou a haver falta de radiotelegrafistas, que começaram a exigir salário igual ao dos imediatos. A empresa concordou. Logo de seguida, exigiram mais mil escudos mensais e foram atendidos. Achei errado que ganhassem mais do que o imediato e exigi pagamento igual. Disseram-me para ficar quieto, porque o capitão ia para um navio novo, de arrastar pela popa, e eu ficava como capitão. Capitão, com um ano de empresa, havendo imediatos com vários anos de casa? Não aceitei e fui para Aveiro, onde o capitão Morais, com quem já tinha feito duas viagens, me convidou para imediato, garantindo que a empresa me pagava os mil escudos. Acabei por andar com ele durante seis ou sete anos.
Ainda foi algum tempo…
Sim, mas depois chateei-me com ele. Dizia-me que, na viagem seguinte, ficava em terra e eu ia como capitão. Eu fazia o serviço todo em terra, levava os dias inteiros no navio a prepará-lo e, quando estava tudo pronto, aparecia ele e dizia que tinha de ir. Fez isso duas vezes e então eu disse-lhe que quem ficava em terra, na viagem seguinte, era eu! Quando cheguei a Lisboa, pensava em ir tirar a carta de comandante da marinha mercante, mas a mulher tinha comprado um apartamento em Portimão e não havia reserva de dinheiro. Acabei por ir para o Cabo Branco, no ‘Praia de Algés’, como imediato. Mas o capitão apenas tinha carta de praticante de piloto e tive de registar-me como capitão. Na viagem seguinte, ele ficou em terra, fui como capitão e foi a viagem mais rica do navio. As viagens duravam, habitualmente, entre 35 e 40 dias. Regressei ao fim de 25 dias, com o navio carregado. Eu, habitualmente, tinha sorte na pesca e sabia. Tinha aprendido com o meu pai, nas traineiras, a pescar ao futuro, colocando as bocas da rede de acordo com o movimento habitual do peixe: iam para os locais menos profundos à noite, regressando de manhã aos mais profundos.
Os bacalhaus também têm esse hábito?
Também. Quando já pescava de arrasto, às vezes, ao cair da noite, levantava a arte e mudava de sítio. Os outros diziam-me: “Apanhaste duas ou três toneladas e vais-te embora?”. Ia para locais menos profundos, onde apanhava mais peixe. A empresa tinha lugar para mim em Moçâmedes. Recusei e regressei ao bacalhau, no ‘Senhora do Mar’. Mas a pesca estava cada vez pior, só fazíamos uma viagem por ano, ficando em terra o resto do tempo
A pesca de arrasto era menos pesada do que com os dóris e, talvez, mais rentável?
Era. Mas, quando um indivíduo faz mais do que os outros, começa a inveja. Fiz duas viagens como capitão e foram melhores do que as dele. Quando regressei da segunda, começou a criticar-me, perguntando o que lhe tinha feito ao navio. Eu, já tinha 55 anos e com vontade de ir para a reforma, fui à capitania ver os navios e o tempo que tinha de atividade e encontrei um indivíduo que tinha sido meu piloto e já era capitão. Convenceu-me a regressar ao bacalhau no ‘Lutador’: uma viagem como imediato e, depois, como capitão. No Cabo Branco, tínhamos uma rede especial para a pescada. O ‘Lutador’ possuía esse tipo de rede, mas ele tinha medo de usá-la. Chamei o mestre de redes, mudei a arte e começámos a apanhar mais do dobro do que os outros apanhavam. Mas, quando era ele a largar, ensarilhava as portas todas. O navio não podia parar, porque se pescava a 800 ou 900 metros de profundidade e não podemos deixar as portas ir abaixo. Mas uma noite, deixei ir para o fundo e já ia nos 3.000 metros, quando puxei para cima. As boias de vidro rebentavam com a pressão da água. De repente, oiço gritar, olho para a popa e vejo um chouriço enorme, tudo vermelho. Apanhámos 30 toneladas de ‘red fish’.
Depois de reformado ainda se manteve ativo…
Sim, às vezes, quando havia problemas difíceis de resolver a bordo dos navios. E lá os ia resolvendo, até 1992, quando parei por completo.
Ainda passou pela política?
Sim, concorri pelo PSD à Junta de Freguesia de Ferragudo, mas achei que não tinha jeito. Ainda andei por aí, mas não gostei. Fiquei como uma espécie de ajudante.




