A história de António Bonezinho cruza-se com a da Praia da Rocha

Texto: Hélio Nascimento
António Bonezinho alugou toldos, guardou roupa, teve concessões, foi nadador-salvador e em 1963 abriu o primeiro restaurante no areal da Praia da Rocha. A história da sua vida, aliás, cruza-se com a da mais famosa praia de Portimão, tantas são as alusões ao local que o viu nascer e com o qual continua a manter, hoje, aos 91 anos, uma profunda ligação. “Fui o primeiro a abrir um restaurante junto ao areal. Antes havia a casa do Socorro a Náufragos, que até tinha um livro de 1922, onde se dava conta dos tratamentos que faziam na praia, ou seja, já existia qualquer coisa”, conta o nonagenário, que recebe o Portimão Jornal na esplanada do seu estabelecimento.
“Andei também no aluguer dos toldos, desde 1948, num negócio do meu pai. Eu e o meu irmão, mas ele, que era mais velho, esteve só um ano, disse que trabalhar só no verão não era para ele. Foi fazer vida do mar, primeiro como ajudante num barco e depois como piloto de navio na Alemanha”, prossegue António Bonezinho, falando calmamente e olhando algumas vezes o infinito, quiçá para se concentrar em todas estas recordações. Tinha 12 anos quando começou a ajudar o pai no aluguer de toldos e passou a banheiro aos 16.
“Eu fiquei sempre por aqui. Depois dos toldos e das concessões abri o restaurante em 1963, mantendo a ligação à praia. Sou nascido e criado aqui, mesmo na Rocha. É bom ter 91 anos? Para as outras pessoas, sim, mas quem os tem…”, atira, com graça, o cidadão António Gonçalves Duarte, que interrompeu momentaneamente a sua ‘sopa de letras’, algo com que se distrai amiúde, para falar com o Portimão Jornal.
Bonezinho, já dá para perceber, é alcunha. Vem do pai, que nasceu na zona do atual edifício da Câmara. “Quando era garoto a mãe, minha avó, comprou-lhe um boné, que teimava em nunca tirar. Os vizinhos diziam sempre ‘vem aí o bonezinho’ e toda a família ficou desde então assim conhecida. Muita gente não sabe que é alcunha e já houve quem me pedisse desculpa, mas nada disso, o termo ‘Bonezinho’ é nosso e veio para ficar”. E é uma referência, acrescente-se, de tal modo que, excetuando documentos oficiais, tanto António como as suas filhas assinam Bonezinho.
“Ouço casais a gabarem o nosso espaço”
O restaurante chama-se naturalmente ‘O Bonezinho’ e data de 1963, mas em 2005/06 mudou de local, na sequência da reestruturação do areal da Rocha e inauguração do passadiço. A localização, todavia, pouco mudou: o primeiro situava-se no fim das escadas e rampa que vêm do Hotel Júpiter – para muitos a entrada principal da Praia da Rocha – e o atual está uns metros mais à frente, na direção da Fortaleza. “Foi este o espaço que me foi atribuído, mas não tenho razões de queixa. Continuamos a trabalhar muito bem”.
António Bonezinho garante que “sempre funcionámos às mil maravilhas, sem um problema que fosse”. O restaurante serve de tudo um pouco e a comida é apreciada, muito por obra e talento da sua falecida esposa. “A minha mulher cozinhava na perfeição, tinha tudo impecável e a clientela dizia que a comida ‘era de trás da orelha’. Ensinou muita gente, que, entretanto, já desapareceu, e foi o meu braço direito. Tivemos empregados a trabalhar para nós durante mais de 24 anos, com ela todos os dias na cozinha”.
Para além do cuidado com a alimentação, desde a qualidade à apresentação e limpeza do local, António Bonezinho destaca a atenção dedicada aos clientes, que é fundamental. “Às vezes estou aqui sentado e ouço casais a gabarem o nosso espaço e o aspeto sempre limpo. É bom ouvir este mimo! É um prestígio”, assinala.
A clientela é maior ao almoço e no mês de agosto, mais uma vez, não houve mãos a medir, mas a satisfação é total porque “nunca tivemos problemas, nem um que fosse, e até a fiscalização, quando cá vem, nos dá os parabéns no fim da visita”. O proprietário fala então das filhas, a Célia, que está mais na retaguarda e dá assistência, e a Cristina, diariamente no restaurante e “em cima da jogada”. São as atuais responsáveis pelo estabelecimento (ao todo tem entre dez a 12 empregados, dependendo da altura do ano) e acompanham de perto a conversa do progenitor.
“Cheguei a dormir na praia…”
António Bonezinho fala ainda das concessões que teve e de mais um marco importante na sua ligação com o mar: “Fui o primeiro a montar um restaurante e a ter toldos na Praia do Vau, mais ou menos na mesma altura deste, também chamado ‘Bonezinho’, que vendi uns aninhos depois”. A praia, repita-se, é uma constante na sua vida. “Sim, é verdade. Cheguei a dormir na praia para tomar conta do restaurante e da concessão, às vezes com as meninas e com o mar a bater na falésia. Ainda passei por um susto ou outro”.
O empresário continua a deslocar-se todos os dias ao restaurante, “às vezes com algum sacrifício, mas as filhas dizem que me distraio e faz bem”. Às cinco da tarde a Célia vai buscá-lo e regressa a casa, no bairro da Aldeia das Sobreiras, depois de ter preenchido mais umas ‘sopas de letras’, um caça-palavras ideal para exercitar a mente. Tem dois netos (e duas bisnetas), um contabilista e o outro enfermeiro, que, segundo assegura, “não se vão meter nisto”.
As filhas juntam-se então à conversa, de todo satisfeitas com a desenvoltura do pai na abordagem aos temas. Célia é a primeira a evocar mais dados, começando pela homenagem prestada recentemente pelo Museu de Portimão, na exposição ‘Sol, Sardinhas e Sombreiros’, que esteve patente na antiga Lota, entre 7 de junho e 31 de julho, propondo uma viagem pela história do turismo no concelho de Portimão ao longo do século XX. A mostra conduz os visitantes desde as primeiras estruturas de acolhimento turístico e do nascimento da Praia da Rocha como estância balnear de referência e o nome de António Bonezinho lá estava em ‘letras gordas’ (ver caixa).
“Lembro-me de muitas histórias do meu pai, por exemplo de contar das pessoas que vinham de Monchique, ao banho do 29, quando as meninas ficavam em combinação na praia. Lembro-me que ele alugava fatos de banho, nos balneários, que tinham divisões para duche e vestuário, umas masculinas e outras femininas”. Estes balneários situavam-se junto à casa do Socorro a Náufragos, em que as pessoas se despiam e vestiam os fatos de banho, que ficavam guardados, bem como os objetos pessoais.
Peixe de posta grossa
Cada pessoa recebia uma ficha plástica, com número, que trocava pela respetiva roupa depois do passeio ou de um bom mergulho. António Bonezinho acena com a cabeça, em sinal de aprovação, situando estas instalações junto à rampa e perto da ‘barraca do peixe aranha’, nome pelo qual era conhecida a casa do Socorro a Náufragos, que à noite era quarto dos marinheiros que faziam serviço e durante o dia dispunha de enfermeiro.
“As pessoas mordidas pelo peixe aranha apanhavam uma injeção e aquilo doía”, realça Célia. “A praia era mais pequena, as passadeiras eram de cimento ao longo do areal, não de madeira, e podíamos passar para as outras praias pelos túneis. Os balneários também eram nossos e o pai fazia e arranjava cadeiras. E foi nadador-salvador”. Um enorme sorriso invade o rosto do homem, que se apressa a exclamar ser “o nº 20 do país”, após um primeiro curso em Algés e o outro em Portimão. “Nesses tempos nadava imenso. Até acho que nasci dentro de água”, graceja.
Célia sublinha que o pai “nasceu, estudou e fez toda a vida na Praia da Rocha”, conhecendo pelo meio “uma jeitosa de Monchique com a qual casou”. É a filha mais nova (58 anos) e diz que o segredo de ‘O Bonezinho’ reside no facto de “estarmos sempre juntos e unidos”, o que ajudou a superar as jornadas de mais de 16 horas diárias de labuta. “Começámos a ajudar desde novinhas e a trabalhar aí com uns 14 anos. A minha mãe fazia tudo natural, com um tempero incrível. Agora, a Cristina (62 anos) passa mais tempo aqui, é o coração da casa. O pai, pese as dificuldades próprias da idade, é autónomo, independente e ainda me alerta para não esquecer algumas coisas”, argumenta, com enlevo.
O restaurante, que fecha em janeiro e fevereiro, serve mais peixe para os turistas portugueses, desde grelhados às cataplanas, marisco, arroz de lingueirão e de tamboril, ao passo que os estrangeiros, em especial os ingleses, preferem a carne. “O meu pai sempre nos ensinou a dar primazia aos portugueses, que vêm todo o ano, e temos ementas caraterísticas, com petingas, joaquinzinhos e outros petiscos”. Atento à conversa, António faz então uma revelação curiosa: “Gosto mais de carne. O peixe tem de ser de posta grossa, ou, quanto muito, umas sardinhas de vez em quando”.

Com o verão a aproximar-se do fim, os responsáveis por ‘O Bonezinho’ lamentam que o conceito de ‘família de férias’ esteja a desaparecer. “Antes, as famílias alugavam toldos de um ano para o outro e tínhamos clientes que vinham dois meses. Agora, é uma semana. Criámos amizade com muitas pessoas, do Alentejo ou outros pontos do país, de quem ainda hoje somos amigos”, releva Célia, alertando ainda para a necessidade de Portimão se manter na crista da onda do turismo – “não basta ter sol e mar” – face ao crescimento das praias fluviais e do turismo rural.
“Sempre gostámos disto”, dizem as manas, que têm cursos de hotelaria e turismo e de cozinha. Cristina está prestes a ir colocar “o dedo na cozinha”, como sempre com uma receita simples e eficaz: “fazer todos os pratos com amor, que era já uma frase da minha mãe, uma grande mulher em todos os aspetos”. O progenitor, feliz com estes momentos de partilha de memórias, triplica o orgulho ao indicar que tem o nome associado a Portimão, ou não tivesse recebido, há uns anos, a Medalha da Cidade.
Os primeiros equipamentos de praia
Com a devida vénia, transcrevemos a citação e o inerente destaque dado a António Bonezinho na ‘Sol, Sardinhas e Sombreiros”, a exposição que esteve na Antiga Lota e nos fez viajar pela história do turismo portimonense. “A partir dos anos 40, surgiram na praia as primeiras concessões de toldos e barracas. Até aí, apenas as famílias mais abastadas tinham o seu toldo privado, montado por um serviçal. António Joaquim Fialho e Fabiana, Joaquim Bacharel e António Duarte Bonezinho terão sido os primeiros a explorar as concessões e Manuel Mimoso as gaivotas de praia. Alugar um toldo custava 10 tostões por dia. Seguiram-se os balneários e, aos vendedores ambulantes de águas e refrescos, pirolitos, sandes, etc., juntaram-se, no início da década de 60, os primeiros restaurantes de praia em estruturas desmontadas no final da época balnear. O restaurante Bonezinho foi o primeiro, em 1963, e outros se juntaram, como o ‘Oh Zé’, os Três Castelos ou o Viegas. No areal, para além do ‘cabo do mar’, surgiram os banheiros como vigias e tutores de natação, evoluindo para os nadadores-salvadores a partir de 1956.”




