Flávia Polido: “Prevenção de suicídio não pode ser visto como tema tabu”

Setembro é o mês da prevenção do suicídio, uma morte evitável que continua, porém, a fazer parte da realidade portuguesa, com especial incidência nos idosos. O Algarve é a segunda região do país a apresentar a taxa mais elevada.
Antes de mais, o que faz a Unidade de Psicogerontologia?
Estamos vocacionados principalmente para as pessoas com deterioração cognitiva, que ainda não estejam em fase de demência, como os déficits cognitivos ligeiros, e oferecemos uma resposta de reabilitação cognitiva, com estimulação sensorial e, até depois, terapia de reminiscência com a nossa neuropsicóloga. A ideia é orientar os idosos, se bem que, no caso das demências, recebemos cada vez mais pessoas com menos de 65 anos. Tentamos melhorar a qualidade de vida das pessoas, atrasar ao máximo a evolução, porque sabemos que ainda não há nenhuma medicação espetacular que a impeça. As que há apenas atenuam ou atrasam. O nosso objetivo é dar uma resposta no sentido de reabilitar e impedir a progressão da doença. Os doentes vêm cá duas vezes por semana e nós aplicamos escalas antes e depois dos programas que têm cerca de seis meses de duração.
Para avaliar a evolução?
Para ver se estamos a fazer alguma coisa de útil ou não. Temos notado melhorias em termos do humor. Estão mais bem-dispostos, menos deprimidos, porque a depressão é muito comum numa pessoa que nota que está a ficar mais esquecida, que já não consegue fazer as tarefas como antes, ou que está mais dependente de outros. Habitualmente deprimem, não têm iniciativa ou vontade e isso vai agravando o estado cognitivo e a evolução da demência.
Como é que esta questão se cruza com a campanha de prevenção do suicídio?
Para além do programa de reabilitação, fazemos campanhas de intervenção na comunidade, de psicoeducação, muitas vezes em articulação com centros de convívio ou organizações, sobretudo as que estão sob a alçada das autarquias e são direcionadas para os idosos. Organizamos atividades de promoção de bem-estar, mas também para falar do luto ou prevenção do suicídio. Como a pessoa deve agir, quais os sinais de alerta, para que aprendam a pedir ajuda e chegar até nós.
Quantas pessoas seguem?
No mínimo, agora, entre 300 e 400 pessoas, o que é bastante. Portugal é o segundo país mais envelhecido da Europa, por isso, a quantidade de doentes que nos chega acaba por ser elevada.
É bastante para uma equipa que coordena todo o Balavento, mas se calhar é muito pouco para a realidade atual?
Ainda estamos muito longe de captar todos. Por um lado, há a questão de as pessoas conseguirem chegar até nós, por outro, conseguir atender todos os que chegam, porque psiquiatra sou só eu, com o apoio de um interno de psiquiatria uma vez por semana. Até vou aos lares e vejo quatro ou cinco utentes para evitar que tenham de vir cá. Também temos ações na rua. No ano passado, por exemplo, fomos com esta campanha da prevenção do suicídio para os mercados de vários concelhos, até os mais afastados.
O suicídio nos mais idosos é preocupante?
Não é a única área em que atuamos, mas, nesta altura do ano, promovemos ‘Setembro, mês da Prevenção do Suicídio’. É uma questão que nos preocupa, a mim e à equipa, porque, ao contrário do que as pessoas têm noção, o suicídio é muito mais frequente nos idosos no contexto português, quando comparado com outros países. Em Portugal, a taxa média tem sido, nos últimos anos, 9,6 ou 9,7 por cento por 100 mil habitantes. Se formos aos idosos, com mais de 65 anos, a taxa pode subir para valores entre 14 ou 20 por 100 mil e, no caso específico dos homens com mais de 75 anos, chega a 66. É particularmente dramático nos homens idosos, onde é de longe muito mais alto do que no resto dos grupos.
É uma consequência da dinâmica atual da sociedade?
É isso mesmo. É verdade que a maior parte dos suicídios acontece em contexto de doença mental, mas não todos. No caso dos idosos, acrescentamos vários fatores como o isolamento social, um dos mais frequentes. O afastamento em relação às famílias, porque estão a trabalhar e a dinâmica destas é muito diferente da de antigamente. Há a questão das dores e das doenças crónicas. A dor não tratada é, infelizmente, ainda uma das causas que leva idosos a cometer suicídio, porque pensam: já cumpri os meus objetivos de vida, não estou cá a fazer nada, a família está noutro lado…
Não se sentem úteis para ninguém?
Nem para a sociedade, porque temos, infelizmente, ainda este preconceito do “idadismo”. Ou seja, a pessoa, a partir de uma determinada idade, já não serve. Isto gera uma situação de afastamento social e isolamento, em que a pessoa sente que já não tem utilidade, porque é muito velho. E não há respostas para a maioria destas pessoas que ficam sozinhas. O Algarve é a segunda zona do país com a taxa de suicídio mais alta. Só estamos atrás do Alentejo.
É um problema que se acentua nas zonas mais rurais?
Temos muitas pessoas em aldeias, onde tudo está afastado. Os acessos não são fáceis, não há transportes públicos adequados. Os idosos não conseguem sair de um local para ir para outro sítio. Depois, com a idade, os problemas de saúde aumentam e, também aqui a nossa média é menos boa quando comparada com outros países. A média europeia é viver até aos 60 e poucos anos sem doença. Em Portugal estamos nos 59. Juntámos o sofrimento, que é psicológico, a solidão, o isolamento, o sofrimento físico e a ausência de uma responsabilidade ou utilidade, através da qual a pessoa sinta ter um propósito nesta vida, e acabamos em situações mais dramáticas. E os idosos são os mais vulneráveis nesta situação.
Por vezes, quando há um suicídio, as pessoas comentam: ‘Não fazia ideia que não estava bem’. Há sinais, mas, numa sociedade apressada, não os vemos?
É verdade. E, no caso dos idosos, é particularmente mais difícil, porque nem sempre o sinal é direto. A pessoa não chega ao pé de si e diz: “Olha, quero matar-me”. Começam primeiro a mudar o comportamento, face a um comportamento prévio. Se antes faziam várias atividades, encontravam-se ou telefonavam a alguém, podem deixar de o fazer. Isolam-se ainda mais. Deixam os poucos contactos que tinham, o interesse em falar com a família ou em estar com outras pessoas. É um dos primeiros sinais. Também se nota o deixar de comer, porque acham que não vale a pena, não têm fome ou apetite, ou o deixar de dormir. Também pode acontecer precisamente o contrário, como comer ou dormir demais e passar mais tempo na cama. O desleixo no autocuidado, o não se arranjarem como antes ou parecerem menos interessados na roupa que estão a vestir. Também não é incomum usarem expressões como: “Isto não vale a pena”, “não ando para aqui a fazer nada”. Por sua vez, também não é incomum, termos tendência para desvalorizar e dizermos: “Não digas essas coisas”.
Sentem que não estamos a dar importância?
Pior. Pensam: se a pessoa me responde isto, é porque não percebe como me estou a sentir. E então retraem-se.
Ainda há muito estigma em falar sobre o suicídio?
A verdade é que falar sobre suicídio é um tabu, por várias razões. Há a questão religiosa. Somos um país de predomínio católico, não sendo bem visto nesse contexto. Quando sentem ou pensam estas coisas, têm muita vergonha de dizer e, até sentem que não o deviam dizer, porque é contra a sua religião e fé. Depois, quando há estas conversas os outros dizem: “Não estás a pensar nos teus filhos ou na tua família”. A pessoa não controla estas ideias e não é algo que queira pensar. Mas se as tem e, ao mesmo tempo, sente que são erradas, não vai falar sobre isto. Enquanto ouvintes, temos que ter muito cuidado com o que dizemos. Temos de tentar que sintam que não há essa crítica da nossa parte, que sabemos que está deprimida e isolada.
O que faz falta para reverter esta realidade?
Acho que faz falta uma resposta de ocupação, que não seja somente ocupação de tempo, mas que mostre que estas pessoas têm utilidade, porque elas ainda têm muito para partilhar connosco. E, felizmente, já vai havendo um esforço muito grande de câmaras e de juntas de freguesia em arranjar este tipo de respostas. Há algo que também combatemos muito aqui: a infantilização do idoso. Não são crianças! Já tiveram uma vida ativa, contribuíram para esta sociedade e muito, criando filhos, trabalhando, pagando impostos e, entretanto, estão a perder algumas capacidades. No entanto, ninguém lhes tira a história de vida que têm. E essa é também uma mensagem que, às vezes, é difícil que as pessoas entendam.
Falamos dos idosos, mas também há uma elevada taxa nas pessoas mais jovens. Os sinais de alerta mantêm-se?
No jovem, curiosamente, também há uma mudança de comportamento, mas as depressões têm manifestações diferentes. É mais frequente isolarem-se em casa ou ficarem muito irritados, mais zangados, responderem torto. Sabemos que hoje há toda uma questão associada às redes sociais e aos smartphones. O bullying atingiu uma outra dimensão, potenciada pelas redes. Antes, acontecia durante o dia inteiro na escola, mas ia para casa e estava mais resguardado. Hoje, fica 24 sobre 24 horas. No caso dos jovens, não é onde temos a taxa de suicídio mais alta, mas é um problema particularmente relevante, porque é uma das principais causas de morte em jovens. O que é uma infelicidade enorme, porque há respostas. Essa é outra parte da mensagem que queremos passar: o suicídio é uma morte evitável, se nós, enquanto sociedade, estivermos atentos, se houver respostas para as situações.
Falta uma grande rede que dê importância à saúde mental. É o parente pobre da saúde?
É. Dou sempre um exemplo, um pouco escandaloso que coloca as pessoas a olhar com cara de horror. Imagine, por ano, numa realidade pior, morrem 500 pessoas em acidentes de viação. Quantas campanhas de prevenção de acidentes rodoviários são feitas? Por ano, em Portugal, morrem cerca de 1000 pessoas por suicídio. Quantas campanhas se vê sobre prevenção do suicídio? Temos estas em setembro, mas não pode ser apenas algo mensal. Sempre houve o problema, e todos os jornalistas sabem isto, do efeito Werther. Está estudado. A partir do momento que se divulga um suicídio, alguém com as mesmas ideias pode pensar que é uma solução viável. Mas isto não é uma questão de noticiar um caso. É falar da prevenção, pois é preciso. As pessoas têm que ter ferramentas e saber como identificar.
Quem vos chega sabe da existência dessas ferramentas?
Não, a maior parte das pessoas não sabe. Temos tido o cuidado de divulgar a linha da prevenção do suicídio (1411), mas ainda não chega à população. Por isso é que digo, que é preciso campanhas e falar sobre estes temas. E a verdade é que continua a ser um problema, portanto, estarmos calados não está a funcionar.
A sociedade evoluiu muito depressa sem preparar terreno para estas realidades?
É difícil dizer se foi depressa ou devagar. Não houve um acompanhamento na mudança de políticas. Claro que só sabemos as consequências depois de acontecer e só agora estamos a lidar com o impacto das redes sociais. Por exemplo, nas raparigas adolescentes é mais incidente a questão depressiva e os comportamentos auto-lesivos, com existência de auto-mutilação. Nos rapazes são mais as questões relacionadas com o vício em vídeos pornográficos e no jogo patológico. E aqui, voltamos ao mesmo, protegemo-los não deixando ir a pé para a escola ou proibindo de sair, mas depois têm um telemóvel sem qualquer controlo. E é bastante perigoso tudo o que se passa ali.
O que se devia mudar?
Felizmente há mudanças que têm vindo a começar devagarinho, como a questão da proibição dos telemóveis na escola. Parece-me óbvio e do bom senso mais prático, mas suportado por tudo o que é evidência científica, porque os jovens não convivem, não falam, não sabem conversar uns com os outros, não sabem resolver conflitos ou interagir e, depois, uma percentagem destes jovens vão acabar, e nós notamos muito isso, na psiquiatria de adultos.
É um problema. Mas os pais também estão sobrecarregados?
Consigo ver os dois lados da moeda. A sociedade, como um todo, está uma grande confusão, porque há pais que, para conseguirem manter comida na mesa e pagar a renda da casa, têm dois trabalhos. Não estão em casa. Também, os miúdos quando estão agarrados a um telemóvel habitualmente estão quietinhos, portanto, compreendo os pais que cedem a isto. É óbvio que é muito fácil criticar e dizer “não devia”. Também apanhamos pais de uma transição de geração que não têm grande conhecimento de informática e, portanto, nem percebem exatamente o alcance. É difícil gerir. Parece-me óbvio que, havendo estas dificuldades, algumas das orientações têm que ser de fora. Foi como os cintos de segurança nas crianças. É uma regra e isso diminuiu a mortalidade rodoviária de crianças.
Há outra questão recorrente de: ‘cão que ladra, não morde’. Aquelas pessoas que dizem frequentemente vou matar-me estão só a chamar à atenção?
Outro mito. Não posso dizer todas, porque não há nada na medicina e na saúde que seja sempre ou que seja nunca, mas a verdade é que a maior parte das pessoas que cometem suicídio avisou, disse qualquer coisa antes. Ou procurou ajuda. Nós é que não soubemos ler os sinais ou ajudar. Dizemos: “Está a chamar a atenção” ou “isto é só para fazer fita”. Quando uma pessoa diz algo assim, está a querer dizer-nos, a chamar a atenção, é verdade, mas para um problema que tem.
É um pedido de ajuda?
Com certeza. Está a pedir ajuda e não sabe pedir de outra maneira. Não é incomum os idosos fazerem isso. Claro que há situações em que as pessoas manipulam, mas não é a maioria. E não devemos desvalorizar, mas sim procurar ajuda, um psiquiatra, um psicólogo, um médico de família que oriente e analise se há risco ou não. Não é suposto ser o cidadão comum a conseguir avaliar ao certo.
Uma campanha em vários concelhos
A campanha de prevenção de suicídio no Algarve é promovida pela ULS, através do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, com atividades a decorrer em setembro. Segundo explica a psiquiatra Flávia Polido, da Unidade de Psicogerontologia, situada junto ao Hospital de São Camilo, na atualidade, os serviços de psiquiatria “estão organizados sob a forma de equipas comunitárias”, com cada uma a desenvolver ações na sua área de atuação. Neste contexto, em Portimão destaca-se ‘chá de afetos’, no dia 18, entre as 10h00 e as 12h00, no Hospital de Dia.




