A menina que se tornou fadista graças a um anúncio no Vai e Vem

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: D.R.


Joana Rato é uma das vozes mais conhecidas do Algarve, através do fado, essa arte tão portuguesa que desperta emoções e embala o coração de quem o ouve. Nada e criada em Portimão, cidade de que muito se orgulha e na qual tem com as pessoas uma relação de carinho e proximidade, a fadista, que também é enfermeira, revelou ao Portimão Jornal algumas facetas da sua vida e da sua carreira, com o primeiro enfoque no modo engraçado como começou a cantar.

“Costumo dizer que há várias versões da Joana, uma vez que tenho dois trabalhos, sou também enfermeira e considero o fado, igualmente, como trabalho e não como hobby, até porque faz parte da minha vida. Surjo no fado por volta dos 13 anos, apesar de a minha mãe me contar que aos quatro anos já ouvia e cantava. Não me recordo, mas a minha mãe fala disso”, refere.

Do que Joana se lembra é de estar em casa, no quarto, em frente ao espelho, procurando entoar algumas melodias. “Tenho essas memórias, isso é um facto, numa altura em que as minhas referências eram a Ana Moura e os Deolinda. Aquilo até me soava bem”, atira, com uma gargalhada, antes de se referir ao episódio curioso que marcou a sua carreira. “Uma certa vez ia no Vai e Vem e ao olhar para trás, para um outro, numa paragem no Largo do Dique, reparei numa publicidade a anunciar um Concurso de Fado Amador em Alvor…”.

Com os olhos mais brilhantes, Joana confessa que às vezes ainda se admira como teve coragem para dar um passo em frente, porque, regra geral, ficava sempre nervosa quando as coisas fugiam ao habitual. “Quero experimentar, disse então à minha mãe. Foi o pontapé de saída no fado. Sempre achei que tinha algo próprio virado para a música, desde pequena que assim era, andei no rancho folclórico, sabia que tinha ritmo, mas o resto… se calhar só comecei a descobrir quando estava ao espelho e me ouvia a cantar”.
 
Os originais que estavam na gaveta
Joana não foi ao pódio nesse concurso em Alvor, mas recorda-se bem de subir ao palco e do modo como estava vestida, maquilhada e penteada pela mãe. “Levava uma calça balão e alguém comentou que não se canta o fado de calças, o que me marcou de tal maneira que pouco ou nada voltei a vestir calças quando canto”. Apesar dos muitos nervos, o primeiro passo fora dado e não havia volta a dar.
Hoje, definindo-se como uma “portimonense de gema, com muito orgulho, tal como digo várias vezes que é um orgulho cantar na minha terra”, Joana reitera a ideia de que Ana Moura foi uma espécie de musa inspiradora, através da sua voz, do timbre e do modo como canta e interpreta. “Tudo isto me motivou e contribuiu também para começar a carreira”.

Nos seus espetáculos, a fadista portimonense canta muitas músicas de Ana Moura, para além de fados tradicionais, castiços e sem esquecer o fado-canção. “Quando vou fazer palcos com outros colegas gosto particularmente de nos completarmos, indo do fado mais tradicional ao mais recente. E também aprecio alguma ironia no fado, acompanhando com expressões faciais. Alguns estrangeiros já me disseram que não percebem nada da nossa língua, do que eu estou a cantar, mas que através do gesto e das tais expressões chegam lá”.

Não se pense, todavia, que Joana Rato fica por aqui em termos de repertório. O melhor, aliás, pode estar para vir. “Tenho estes fados, mas estou aqui e há coisas a acontecer. Um amigo, o Wilson, que conheci quando estava na tuna, apresentou-me há algum tempo uma proposta, de fazer uns originais para eu cantar coisas minhas. Consegui passar-lhe o sentimento, o que me vai na alma e as ideias que tenho, e ele escreveu vários temas, criando praticamente um CD”.

Imponderáveis da vida, quer profissionais quer familiares, levaram a que o projeto ficasse dentro da gaveta, apesar de, pelo meio, terem decorrido alguns ensaios. “Este ano, com uma motivação diferente, mais tempo e uma mentalidade também diferente – as coisas acontecem quando têm de acontecer, sempre sem stress, como diz a minha mãe – acabámos por tirar o projeto da gaveta e, dentro das nossas possibilidades, vamos para a frente. Se sai este ano, se é um CD ou se são apenas três ou quatro músicas, não sei, vou deixar acontecer”.
 
A preferência vai para o palco
Além de fadista, como já se disse, Joana é enfermeira, cumprindo o seu dia a dia no Centro de Saúde de Portimão. Há alturas em que é “uma correria, pois tenho também mais coisas onde gastar o meu tempo”, mas tudo se consegue, sobretudo para quem noutras fases da sua vida se dedicou à guitarra, ao teatro, ao rancho e tinha ainda explicações escolares e atividades desportivas como natação e basquetebol. “É bom conciliar o que se gosta de fazer e só de manhã é que tenho a enfermagem, o que é uma vantagem”, reconhece.

A conversa volta a centrar-se no fado, que, este ano, corre totalmente de feição, com algumas atuações durante a semana e o fim de semana sempre preenchido, tudo na região algarvia. “Canto nos hotéis, eventos, feiras, restaurantes, coletividades, enfim, um pouco de tudo. Gosto de todos os espetáculos, mas a minha preferência vai para o palco, porque montamos uma história e a interação com o público é diferente através da escolha das músicas e dos temas”.
No Algarve, a exemplo do que sucede por todo o país, há cada vez mais gente nova a tocar e cantar fado. Joana salienta que alguns artistas têm a ambição, natural, de procurar outros rumos e dispor de novas oportunidades, nomeadamente em Lisboa, e que, por cá, ficam sobretudo as pessoas que trabalham e cantam. “O fado no Algarve é muito turístico, não sei ainda, sinceramente, se isso é bom ou se é mau. Se explicarmos o que é o fado, se houver respeito e silêncio, dignificando esta tradição tão nossa, é bom ser turístico, mas vamos ver com o decorrer do tempo”.
Satisfeita pela muita divulgação dada ao fado nos tempos que correm, Joana lança um pequeno alerta em relação a “certas modas”, sobretudo quando se diz às crianças que “cantem porque têm boa voz”. As coisas têm de fazer sentido, argumenta, e o fado tem que “ser sentido”.
 
“Não sou só a Joana fadista”
Voltando aos temas originais que estão numa fase de preparação, a artista revela que a aposta se estende também ao fado-canção, mas sempre fiel ao seu estilo. “Não consigo tirar o meu timbre, que está moldado ao fado, não sai da minha voz, mas posso garantir que não será um CD só de fado. Não sou só a Joana fadista, se sentir algo mais não posso ter limites, é da minha natureza ir mais além e explorar outras coisas. Por exemplo, este ano vou entrar de novo nas marchas populares, o que me divertiu imenso e quero repetir”.

É neste contexto de interagir com a comunidade que Joana salienta que os portimonenses gostam de fado, conclusão que tira fruto de uma relação muito boa que mantém com os seus conterrâneos. “Se não gostam nunca me disseram”, exclama, com novo sinal de boa disposição. “Vou na rua e as pessoas conhecem-me, dizem que sou aquela que canta o fado. Eu vou refletindo e é engraçado, parece que existe algum respeito quando descobrem que tu és uma artista”.

Este sentimento, de resto, é extensivo ao seu trabalho na enfermagem – Joana está na saúde escolar e quando se desloca a algum local é habitual “muita gente dizer que é a menina que canta o fado, ou seja, deixo de ser a enfermeira e passo a ser a fadista”.

A cereja em cima do bolo de todo este bom relacionamento centra-se no restaurante dos pais, a ‘Quintinha’, estabelecimento bem conhecido na cidade. “A ligação da minha carreira ao restaurante é forte e data do tempo em que os meus pais faziam noites de fado. Pararam quando chegou a covid, mas, antes, um domingo por mês, estava sempre esgotado. Foi dos primeiros sítios onde atuei, o que impulsionou o meu percurso, dando mais vontade e confiança, para além de terem surgido também algumas pessoas que me ajudaram imenso”.
 
Redobrar o entusiasmo e alimentar os sonhos
Têm sido várias, de facto, as pessoas a interferir, e no bom sentido, em todo o trajeto de Joana Rato. Mesmo sem querer individualizar, e abordando, ainda, as primeiras atuações no restaurante dos pais, cita a presença de Vítor do Carmo, guitarrista de renome e uma referência no assunto. “Ia a casa do senhor Vítor tentar tocar viola e também cantava, tipo aulas de canto. Ele tem um papel deveras importante no fado algarvio e agradeço-lhe, de modo especial, porque foi das primeiras pessoas que me ouviu e incentivou”.

Carla Pontes, a professora de canto, foi muito mais do que isso, justificando igual dose de apreço. “A Carla ajudou-me imenso, deu um abanão na minha maneira de ver as coisas, na voz e em tudo o mais”, vinca, aludindo à questão psicológica, já que esta intervenção da professora surge na altura da pausa na música motivada pela covid, ou seja, quando quase tudo era posto em causa e importava redobrar o entusiasmo e alimentar os sonhos.

Por fim, e porque os últimos são sempre os primeiros, tal como se costuma dizer, Joana fala dos progenitores, Paula e Joaquim. “Tenho, naturalmente, de salientar o apoio dos meus pais. Ele é mais reservado, discreto, não demonstra muito o sentimento, mas sei que gosta de me ouvir e já o vi com umas lágrimas nos olhos. A minha mãe é o oposto! Fala, grita, diz para não levar esse vestido, para pentear o cabelo assim, enfim, é a maneira como ela se posiciona e que usa para me incentivar”, assume a fadista, ciente de que nos tempos que correm é ela própria a moldar-se ao que faz e ao que pretende fazer na vida.

“Agora tenho de ser eu”

“Projetos? Tenho refletido bastante, de há dois ou três anos para cá, inclusive sobre onde quero estar na vertente artística. Se fizesse só música não tinha dúvidas, mas, tendo outra vida, gostava muito de tentar ser eu!”, exclama Joana, quando confrontada com a questão final de uma conversa agradável e que correu sem amarras. “Seja no fado ou não, gostava de marcar a diferença. Ando a explorar como isso pode suceder, preciso de o fazer para ser realmente feliz. Não quero depois olhar para trás e pensar ‘se tivesse tentado, se tivesse feito’… Tenho 31 anos, não será tarde, tenho de ir por aquilo que sinto”, assegura, determinada. A fadista evoca então a paragem durante o período da covid e os problemas implícitos, quer na voz quer em termos psicológicos. “Ia cantar e chorava, sempre duvidando se as pessoas iam gostar, e a professora Carla Pontes, como já disse, foi incrível, dando o abanão de que tanto necessitava. É engraçado, porque quando volto dessa pausa as pessoas dizem que estou a cantar de forma diferente, mais liberta e mais confiante. É isto! Sempre gostei de cantar, mas punha tanta pressão, tanta exigência”, confessa Joana, deixando transparecer a força interior que lhe vai indicar o caminho a trilhar. “Ter mais maturidade ajudou, claro, mas é para isto que tenho de continuar. Agora tenho de ser eu, na linha de chegar ao ponto, de fazer as coisas à minha maneira”.

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