Ao sul … Um dia de escola

Carlos Gordinho | Professor


Acordar antes do sol nascer. Preparar o corpo e o espírito para mais um dia de trabalho, com um sorriso e um pensamento positivo, mesmo quando tudo à volta parece insistir em contrariá-lo. Ainda assim, sei que por vezes, o sorriso também é uma ferramenta útil e eficaz, um gesto exterior capaz de abrir brechas nas barreiras do quotidiano.

Entrar na escola é mudar de estado. O que trago comigo fica à porta. Cá dentro, preparo-me para o embate, árduo, por vezes inglório, mas no qual continuo a acreditar.

Há um breve silêncio inicial, quase ritual. Um momento de observação antes de mergulhar num sistema tantas vezes esgotado, confuso e descaracterizado, que não raramente nos deixa sem rumo.

Depois vem o ruído. Um ruído que se mistura com a necessidade de silêncio. Entre movimentos, cores, cheiros e correrias, impõe-se o desafio: ouvir, respeitar, estar presente. No meio da algazarra, procurar uma harmonia que tarda em chegar.

A escola é feita de olhares, humores, emoções e atitudes. Há dias em que tudo se faz por amor, noutros, por puro dever. E há também o peso do tempo, a mesma escola não é igual de segunda a quinta-feira.

Cada aula é um exercício de ajuste. “Ensinar” é também aprender, mas exige flexibilidade. Cada contexto na escola, traz um vento diferente e é preciso saber ajustar velas.
Há alunos que crescem diante de nós. Outros parecem encolher. No equilíbrio entre uns e outros, tentamos encontrar sentido. Estamos para os que nos querem e também para os que não nos querem. No meio disto tudo aparecem os adultos. É preciso paciência.

Aliás, a paciência é talvez uma das maiores exigências da escola. Porque ensinar não depende apenas de quem ensina, mas de quem está disposto a aprender. É uma evidência mas nem sempre uma realidade. Ainda assim, persiste em nós essa quase teimosa ilusão.

E talvez o mais inquietante seja isto, aquilo que verdadeiramente importa ensinar parece, muitas vezes, distante do que a escola valoriza ou do que os seus próprios frequentadores esperam. Entre egos, personalidades e tensões ,onde todos nos incluímos, instala-se um desgaste silencioso, fruto de um desalinhamento constante.

Seguimos, ainda assim. Cada um na sua rota, convencido de que faz o melhor que pode, à sua medida. E talvez seja isso que nos mantém nessa crença, ainda que por vezes ilusória.

Porque não somos apenas professores. Somos, também, construtores de possibilidades. Inspiramos, motivamos, fazemos acreditar. Em certos dias, parecemos vendedores de sonhos.

Noutros… talvez apenas a tentar não perder os nossos.

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