Jovens empreendedores ‘dão cartas’ no marketing digital em Lagoa

Devolver ao utilizador o poder sobre os seus dados. Amplificar, chegar a mais clientes e potenciar a visibilidade de um negócio. Estas são as bases de um projeto nascido e criado em Lagoa, pelas mãos de Nelson Maló, do Parchal, e Ricardo Viegas, de Silves.

Passam discretos na vida da cidade, mas a Logrise já chega a muitos clientes em Portugal, Espanha, França, Suíça, Bélgica e Inglaterra. Têm um volume de negócios que se situa entre os 200 e os 500 mil euros e continuam a trabalhar para crescer.

Em termos práticos, os jovens empresários têm um software (Amplifier) que agrega vários pontos de investimento de marketing, possibilitando que uma pessoa que não é entendida nesta área e que não pode pagar a uma agência, agregue tudo num só local de forma simples. O dono de um estabelecimento, pode, assim, direcionar campanhas para uma plataforma online com o objetivo de captar novos clientes ou ganhar mais visibilidade.

“Alguns empresários investem na formação em marketing e é um ótimo caminho, mas uma Pequena ou Média Empresa (PME) não terá tempo para tudo. Pode ter uma pessoa só para essa área, mas sai muito mais caro do que um software. Isto não substitui tudo, nem agência, nem freelancers, mas este custo é muito mais efetivo e o resultado é, essencialmente, o mesmo. Nós não estamos à procura da grande empresa, da multinacional. Estamos a trabalhar para os 98 por cento que não têm estes recursos”, explica Ricardo Viegas ao Lagoa Informa.

A simplicidade é, portanto, um dos aspetos mais atrativos, conforme acrescenta. Pois, qualquer utilizador pode aceder ao seu ‘dashboard’, escolher entre as diversas plataformas existentes (Google, Facebook, Instagram, Pinterest, Amazon, Tik Tok, Snapchat), quanto quer pagar e iniciar uma campanha. “Pode monitorizar valores, sem necessitar de outros relatórios. Em qualquer momento tem acesso à sua área e para verificar os dados e se a campanha está a funcionar”, explica. Ou seja, confirmar se aquilo que promove está a chegar aos potenciais clientes.

Na atualidade, há uma equipa da Logrise que irá verificar e trabalhar nesses dados, mas a intenção é que, no futuro, seja implementada mais inteligência artificial para que quando o cliente clique, possa ter campanhas automáticas e especializadas.

É uma verdadeira democratização do marketing digital na sua forma mais simples, pois até o modelo de negócio é semelhante à subscrição de uma Netflix, compara o jovem empreendedor. “A pessoa usa, quando já não quer cancela. Não há fidelização, nem cartas registadas com aviso de receção… Usa, paga um período de 30 dias, e antes do dia limite de cobrança, se já não quiser cancela, se quiser renova. É tudo automatizado”, descreve Ricardo Viegas.

No caso do Algarve é possível arriscar que este serviço quase que ‘assenta como uma luva’ devido à sazonalidade. “Temos clientes que começam em março e terminam em setembro e nós permitimos”, diz.

“À medida que a empresa cresce o que é preciso é talento,
boas pessoas, ambiciosas e é isso que procuramos”

“Trabalhamos de forma clara e não apenas para o cliente do Algarve, mas de várias localizações e setores. Temos uma PME que está nos ‘cinco por cento’, que é o ‘score’ das que mais faturam em Portugal, como temos uma empresa que vende flores. Não nos faz diferença, porque o sistema é um agregador de dados e segmentação dos mesmos”, justifica.

Os mercados mais pequenos são, aliás, os mais disponíveis para procurar uma solução mais simplificada como esta.

Abriram em outubro de 2019 e daí para cá tem havido muita abordagem a empresas de uma forma digital, havendo depois um contacto com um comercial ou vendedor para apresentar o produto. “Quando o apresentamos e a pessoa percebe o que é possível fazer é muito mais simples”, conta. A carteira de clientes passa da espiritualidade a flores, mobiliário, por lojas físicas, ao e-commerce.
Qualquer pessoa pode ser um potencial utilizador desde que procure um marketing direcionado, com objetivos concretos e rápidos.
“Também tentamos ajudar, quase num formato de consultadoria, não pago, chamando a atenção para algumas questões. Ainda hoje estava a falar com uma cliente que só tem Facebook e alertei-a que está a ‘meter muitos ovos no mesmo cesto’ ao colocar todo o negócio nas ‘mãos’ de uma rede social que não controla e sobre a qual não prevemos o seu futuro”, exemplifica.

Esta é a rede social mais usada em Portugal para divulgar pequenas empresas, mas os jovens recomendam o investimento em mais do que uma. “Que tenha, por exemplo, Facebook e Google. Curiosamente, a segunda rede mais usada em Portugal é o Pinterest, ainda que ninguém o use neste sentido. O Tik Tok está a ganhar forma, mas continua a estar direcionada para uma franja muito jovem de utilizadores que pode gerar muitos cliques, ainda que gere poucas conversões, porque esses utilizadores ainda não têm poder de compra. Pode ser interessante para determinadas marcas ou na área da promoção de eventos específicos”, analisa.

Capital próprio e investidores
A criação da empresa por estes dois jovens foi realizada com capital próprio. “Não temos apoio nenhum e não é uma crítica. É uma forma de estar. Ainda tivemos investidores, crescemos e voltamos a capitais próprios. Continuamos com os investidores que moram na Praia da Luz, são dinamarqueses e tinham uma empresa na Suécia, da qual venderam uma parte, vieram para o Algarve e investiram na nossa empresa. Já criaram outras. São empreendedores em série”, confidencia.

Não estão na operação todos os dias, mas são mentores acessíveis a quem os jovens podem telefonar, esclarecer dúvidas e apoiarem-se na experiência que eles têm acumulada ao longo de mais de 20 anos.

“Consideramos o primeiro ano um ano zero, porque tivemos de aprender um conjunto de coisas e só em 2021 é que tivemos condições para alavancar a empresa. O volume de negócios depende, mas anda entre os 200 e os 500 mil euros, porque funcionamos com mensalidades, com avenças. Em 2019, o volume foi irrelevante, em 2020 passamos para quatro pessoas e houve algum aumento ainda que pouco. Em 2021 passamos de quatro mil euros para 20 mil euros e a partir daí começou a crescer”, revela.

Um futuro imprevisível
A Logrise continua num mercado crescente, que na Europa vale sete mil milhões. Em princípio, este conflito geopolítico entre Rússia e Ucrânia não os afetará de forma direta, porque o marketing digital vai continuar.

“E no limite dos limites, em vez de olharmos para a direita, olhamos para o outro lado do Atlântico, adaptamo-nos ao Brasil e aí temos um novo mercado. O maior risco pode ter a ver com os clientes que não tenham bens para vender. Isso já acontece, devido a esta crise de produtos. Temos clientes em Espanha que só receberam o ‘stock’ de outubro em março, com muitos meses de atraso”, descreve.

Antes deste conflito ainda tinham a ideia que a Croácia ou os países nórdicos poderiam ser um bom local para a Logrise entrar, mas com a situação atual já não será uma realidade tão evidente.

“Maratona sempre em sprint”
Escolheram Lagoa para sediar a startup devido à sua centralidade, que permite chegar a mais pessoas na região. Têm colaboradores residentes entre Faro e Lagos e utilizam um modelo de trabalho híbrido entre presencial e teletrabalho. Algo implementado antes da pandemia, o que facilitou na altura dos confinamentos.

“À medida que a empresa cresce o que é preciso é talento, boas pessoas, ambiciosas e é isso que procuramos. Costumo dizer, estamos numa maratona, mas sempre em ‘sprint’”, acrescenta.

Fragilidade da saúde mental é umas mazelas da pandemia
Falando sobre a atualidade, Ricardo Viegas brinca ao dizer que, se calhar, seria mais fácil lidar com uma crise financeira. “Estivemos em pandemia, agora é um conflito geopolítico que é ainda mais complexo, quando seria necessária estabilidade”, atesta. Coloca, porém, o tom de brincadeira de parte, quando questionado sobre os entraves da pandemia.

“Tivemos um conjunto de oportunidades e, as dificuldades são mais ligadas a aspetos que ainda se vão notar muito. São do foro social e psicológico. Foi criada uma nova realidade e exigido que as pessoas começassem a lidar com a ansiedade e com a solidão. Para algumas pessoas, é complicado gerir esses aspetos. Nós, por exemplo, pagamos a todos os colaboradores um seguro de saúde, podendo ser usado para uma consulta de psicologia, e falamos abertamente sobre a saúde mental no local de trabalho. Não é nenhum tabu para nós”, afirma o empresário. “Uma pessoa que tinha covid e, infelizmente, faleceu um familiar seu… Não teve direito a ir ao funeral. Isso aconteceu-nos e não há nada que nos prepare para esta violência da realidade. É o mais difícil para nós”, resume.

Uma empresa jovem e humanista
A preocupação com o bem-estar e com um bom ambiente de trabalho é uma constante para os jovens empresários.

“Acreditamos que o colaborador tem de ter tempo para o trabalho, saúde mental e social. Não queremos que trabalhem horas a fio. Somos muito orientados para os resultados e, apesar de termos um período em que temos de estar mais disponíveis, para falar com os clientes ou reuniões, não somos ‘gestores de portas’. Não estou preocupado se a pessoa entrou às 9h00 e saiu às 18h00”, confidencia.
São dez trabalhadores, a maioria jovens, mas, em breve, podem ser mais, se a empresa continuar a crescer. Os que trabalham na Logrise, segundo Ricardo Viegas, têm alguns benefícios.

“O seguro de saúde abrange o agregado familiar e, para quem tem filhos, é algo relevante. Queremos garantir que se tiverem uma urgência conseguem ter acesso aos serviços. O mesmo para os filhos, pois se a criança não estiver bem, os pais também não estarão. Temos um programa de benefícios com descontos e com a possibilidade de pagar com um saldo digital. A pessoa pode converter esses valores num conjunto de serviços de farmácia, tecnologia, creche e jardim de infância para os filhos, PPR, lares. Podem escolher”, enumera. Têm sempre café, água e fruta fresca.

A reciclagem e as questões da sustentabilidade também não passam ao lado. Um colaborador que esteve em estágio profissional pediu para implementar a reciclagem e assim o fizeram. “Ter tuppewares em vidro para que, quem vai ao take away, possa ter uma embalagem reutilizável evitando custos a nível da sustentabilidade” é outros dos exemplos que Ricardo Viegas apresenta.

A maioria das pessoas encara estas soluções como pouco usuais, mas para Ricardo e Nelson, o importante é dar condições aos colaboradores, pois o sucesso deles será o sucesso dos empresários. “Temos que garantir que têm todas as condições. Por vezes é fácil, outras vezes não, mas tentamos todos os dias. Estamos também disponíveis para formar as pessoas. Para ensinar e dar novas oportunidades”, conclui.

Abrir uma empresa juntos era uma ambição antiga

Nelson Maló e Ricardo Viegas são amigos há mais de dez anos e sempre quiseram fazer algo juntos, mas enquanto a oportunidade não surgia, trabalhavam por conta de outrem, na área da tecnologia. Entraram em alguns concursos, ganharam uns e noutros ficaram em segundo, mas ainda não tinham tido o empurrão necessário. Entre os projetos no ‘curriculum’ há alguns na área dos vinhos e um de IOT, direcionado para diabéticos. “Recordava que a pessoa tinha de tomar a insulina e, quando não se verificava a toma, através da não abertura da caixa, disparava uma informação para os familiares”, descreve. Outro estava relacionado com o colecionismo e a banda desenhada. “Os comic têm vários arcos, depois há um arco principal e outros aspetos, e nós juntámos tudo numa base de dados única, que facilitava a troca de informações” sobre o que cada um possuía, caracteriza. Ainda apresentaram à companhia de seguros ‘Fidelidade’ a possibilidade de o acordo amigável, em caso de acidente, ser efetuado por telefone. “Não vou dizer que foi por nós ou se já estavam a desenvolver, mas acabaram por implementar essa medida”, acrescenta o empresário. Resolveram arriscar em 2019 e abrir a empresa, que é quase “saltar de paraquedas sem saber se ele abre”, metaforiza Ricardo Viegas. Até aqui, o balanço é positivo.


BREVES

A etapa anterior
O projeto que antecede a criação da empresa é um catálogo ‘B2B’ que permitia que os vendedores efetuassem descontos ao cliente, sobretudo da restauração. Iria reduzir os custos, porque evitava deslocações e a pessoa podia fazer o pedido online. “Não houve grande adesão nessa altura, mas depois, durante a pandemia, todos queriam e nós não tínhamos. Já não estávamos aí”, conta Ricardo Viegas.

Nome
‘Log’ está ligado ao registo, neste caso de dados, de API, ‘Rise’ está relacionado com o crescimento, com o crescer através dos dados, explica Ricardo Viegas, acrescentando que há ainda pequenos truques para tornar a palavra mais forte, com a utilização do ‘r’, do ‘g’.

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