Maria do Carmo é aos 94 anos a mais antiga artesã de Lagoa

Texto e foto: José Garrancho


Natural de Estômbar, onde sempre tem vivido, Maria do Carmo Santos já fazia ponto cruz com cerca de 10 anos. Nessa altura, uma vizinha desafiou-a para fazer um saco bordado em sarapilheira e ela não se fez rogada. E nunca mais parou de criar, nas mais diversas atividades.

Ao Lagoa Informa, a artesã conta a sua história e recorda esses primeiros tempos. “As senhoras Lima, catequistas, moravam junto à igreja e dedicavam-se a fazer trabalhos em empreita, mas arte fina, que vendiam ao Grandela, no Chiado. Eu tinha nove anos, ia à catequese e, quando elas deixavam cair os bocadinhos, apanhava-os e tentava imitá-las. Foi o início”, lembra.

A paixão pelas artes foi crescendo no atelier da sua tia Bárbara e aperfeiçoou-se mais tarde com um curso de corte e costura por correspondência. A sua vida mudou, passando das tarefas no campo à sua própria retrosaria, mas nunca mais parou de criar.
A sua obra é variada, indo do croché aos bordados e a trabalhos feitos com bocadinhos de tecido. Dedicou-se de alma e coração à empreita, numa fase posterior, quando a viu em risco de extinção no Algarve. Chegou mesmo a ensiná-la no ensino recorrente. Mas, durante muitos anos, fazia as obras de arte para oferecer.

Só começou a vender a partir de 1984, quando se viu obrigada a produzir muito mais para expor na FATACIL. Nunca mais parou e faz as feiras todas no concelho de Lagoa. Além disso, podemos encontrá-la, diariamente, no ‘Cantinho do Artesão’, na Rua da Misericórdia, em Estômbar, fazendo os seus trabalhos em tecido e em empreita.

Carminha, como também é conhecida, tem uma vivacidade contagiante, é simpática e boa conversadora, com uma memória impressionante e 94 anos da história da sua aldeia bem presentes.

“Está a ver este trabalho em tecido. Vendi um ao senhor Tallon, que o queria para colocar na parede, mas a esposa queria-o para usar como colcha. Vendi outro para um escritório de advogados, no Alentejo. É bonito e é diferente”, conta ao nosso jornal.

Esta é uma arte que se está a perder ao longo do tempo e apesar de já ter tentado transmiti-la, diz que “as filhas não querem saber, embora a mais velha faça bem crochet. Revela que a neta “gosta de costura e tem arte, mas seguiu outra vertente profissional e tem pouco tempo livre”. Já Carminho, a bisneta, de dez anos, já começa a seguir-lhe os passos, o que lhe dá grande alegria. “Se ela quiser, eu ensino-lhe, embora ela tenha de estudar, porque os tempos são outros”, afirma.

Tempos antigos e difíceis
“Sou do tempo em que as crianças pobres passavam fome. Felizmente, nunca passei, mas trabalhei desde pequenina. O meu pai trabalhava e fazia trabalhar. Ele semeava, tínhamos grão, feijão, milho com fartura e batata-doce que dava para o ano todo”, recorda Maria do Carmo.

“Havia uma casa com chão de cimento, onde colocava, em camadas alternadas, as batatas e palha. Mandou fazer uma panela grande a um latoeiro para cozer as batatas-doces. Estava sempre tapada com um cobertor, para se manterem quentes. Eu ia para a escola e levava sempre almoço, mas tinha duas colegas que se escondiam debaixo de uma alfarrobeira e descobrimos que o faziam, porque não tinham nada para comer. Comecei a levar duas batatas para mim e uma para cada uma delas, escondidas. O meu pai matava porco, tinha um pote de azeite para o ano todo, tínhamos patos, coelhos, ovos. As pessoas iam apanhar berbigão e vinham trocar por milho. Era cá uma refeição, as papas de milho com berbigão! Podia dizer que era rica, comparada com as outras”, conta.

Mas o pai não dava ponto sem nó e, quando a viu a fazer ponto cruz, resolveu um problema, que era receber sacos velhos dos compradores, em vez dos novos que ele entregava com o trigo ou o milho.

“Foi buscar uma mão-cheia de sacos novos e mandou-me bordar ‘MDG’, as iniciais do seu nome, em todos eles, com linha de meia”, refere.

A primeira máquina de costura que teve, tem uma história curiosa. “Um senhor tinha uma máquina que deu por garantia a quem lhe emprestou dinheiro. Mas o outro colocou-a num local onde se estava a estragar. Então, ele pediu ao meu pai que lhe emprestasse o dinheiro e ele trazia a máquina para a nossa casa. Assim foi e eu comecei a limpá-la, até que ele disse ao meu pai que ficasse com a máquina pelo dinheiro que lhe tinha emprestado. Pedi-lhe para ficar com ela, mas o meu pai disse que só a comprava, quando eu soubesse costurar. Era um problema, porque eu não sabia cortar”, relata.

No entanto, arranjou maneira de encontrar uma forma de ficar com a máquina. “Naquele tempo, os homens usavam cuecas em tecido e eu fui buscar umas velhas e desmanchei-as, para servirem de molde. A minha mãe tinha tecido em casa e fabriquei umas cuecas novas. Quando lhe mostrei, ele não acreditou que tinha sido eu a fazer, que tinha pedido à minha tia para cortar. A minha mãe garantiu-lhe que não e foi buscar os moldes. Então ganhei a máquina”, diz com satisfação.

Mais tarde, aprendeu corte e costura, num curso por correspondência. “Enviavam-me os moldes, eu costurava e mandava de volta. E davam notas, de acordo com a qualidade do trabalho”.

Maria do Carmo tirou a carta de condução aos 60 anos. Hoje, aos 94 anos, consulta a internet como muita gente, com metade da sua idade, não consegue fazer. A bisneta ensinou-a a consultar a aplicação na net, onde vai à procura de ideias que, depois, desenvolve e executa ao seu jeito. Em suma, transforma em arte tudo o que vê.

Condecorada ao fim de 42 anos
As senhoras Lima, que ensinavam a trabalhar a empreita e eram muito conhecidas e respeitadas no concelho, foram convidadas a expor na FATACIL em 1984. Muito recatadas e já bastante idosas, recusaram. Os organizadores pediram a Maria do Carmo que as convencesse. Por fim, acederam, com a condição de que esta, que também fora convidada, partilhasse o stand com elas.

Este foi o início da sua participação na feira, que já dura há 42 anos. Foi uma mudança na sua vida. Poucos anos depois, as senhoras Lima deixaram de ir, mas Maria do Carmo nunca mais parou. Foi homenageada este ano, na inauguração do evento, a 21 de agosto, pelo presidente da autarquia, Luís Encarnação.

Foto: CM Lagoa

“Fizeram-me chorar, porque não sabia de nada. O ano passado, fui convidada para trabalhar ao vivo. Este ano, pensei que era o mesmo. Fiquei muito feliz, porque, para mim, não é só o dinheiro que conta. O mais importante é ver que as pessoas gostam do que eu faço”, revela com emoção.

Bisneta segue as pisadas…
A bisneta Carminho, de 10 anos, esteve sempre junto à bisavó, no dia da homenagem na FATACIL, com um ramo de empreita e uma pedra nas mãos. “Estava a desfiar empreita, que trouxemos em bruto. E, com a pedra, estava a endireitar peças que a minha bisavó já tinha começado, mas que não estavam ainda acabadas, porque não podemos coser, antes de estarem direitas, senão fica tudo aos esses. Tem de ser feito com uma pedra lisa molhada em água”, explica a menina, que desde cedo começou a aprender com a bisavó.

“De pequenina, sempre a vi fazer e quis imitá-la. Ela dava-me bocados de tecido e uma agulha sem bico e eu começava a coser, até aquilo ficar tudo empeçado. Mais velhinha, comecei a aprender pelo trapilho, que é entrançar e depois coser, porque eu gostava muito de fazer tranças. Fiz uma pega para oferecer à minha professora, no final do 2º ano. Também quero aprender empreita, mas acho um bocadinho complicado. Estou a aprender a tratar e, talvez este ano ou para o ano, comece a fazer a sério”, diz.

Recorde de venda de camisolas de lã em agosto na FATACIL

Nos finais dos anos 80, ainda o piso da FATACIL era em terra batida e os stands cobertos apenas com rede. Para proteger os trabalhos de tecido do vento e do pó, Maria do Carmo tinha o cuidado de forrar meticulosamente o seu stand com plásticos. Passou o Inverno a fazer uma enorme quantidade de camisolas de lã e decidiu levar todas para a feira. Alguns colegas brincaram com ela, questionando quem iria comprar roupa de lã em pleno Verão algarvio. Contudo, a meio da feira, abateu-se um temporal de chuva e frio. Sem chapéus de chuva, os visitantes tentavam procurar abrigo nos poucos locais secos que encontravam e um deles era o stand dela, que se encheu de gente. Acabou por vender quase todas as camisolas num único dia de Verão.

Falta ensino de artes tradicionais aos mais novos

Maria do Carmo recorda quando uma professora a convidou para ir ensinar a sua arte na escola, à noite, no ensino recorrente. A sua neta Viviana considera que as autarquias deviam introduzir as artes tradicionais nas férias de Verão, como complemento às férias desportivas. “Até pela importância de juntar gerações diferentes, seja em trabalhos manuais, seja na culinária. Saem coisas giras e é benéfico para todos”, salienta.

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