Nuno Bento: “O mais importante num corpo de bombeiros são os seus operacionais” 

Nuno Bento assumiu a função de comandante do Corpo dos Bombeiros Voluntários de Lagoa em novembro de 2024, mas há vários anos que está na corporação. Em entrevista, faz um balanço deste período, revela quais são os principais desafios e os projetos que pretende implementar no futuro.

O que já fez desde que assumiu funções de comandante?
Os traços gerais e o objetivo mantêm-se os mesmos e fazem parte de algo que trazíamos do passado. Não há uma rutura. Há o continuar. O que foi mais marcante neste último ano tem a ver com as condições de estar no quartel e de preocupação com os operacionais, mais centrado na distribuição de horários e nas carreiras, algo que vinha a ser trabalhado e que está ligado à nossa progressão interna, que é por categorias. Assinalo ainda as obras de remodelação do Quartel que criaram outro tipo de condições. Ainda que o edifício seja relativamente novo, tem muita afluência. Vamos entrar num segundo ano em que o foco se manterá nos nossos operacionais com o melhoramento dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e de algumas viaturas. O objetivo é ainda o mesmo: servir a população o melhor possível.

Quais são as principais limitações que sente?
O desafio diário é a gestão do corpo de bombeiros, em que o serviço não é programado. Não é o mesmo que gerir outro tipo de associação ou empresa. Claro que temos planos e há a questão do pessoal, dos equipamentos, das viaturas e queremos continuar a apostar na modernização.

São caros os equipamentos?
Qualquer Equipamento de Proteção Individual (EPI) sim e são individualizados. O de combate a incêndios estruturais é diferente do de espaços naturais. Neste momento, pelos menos os operacionais que estão na primeira linha, cada um vai ter o seu EPI. Temos custos de manutenção do equipamento e gasóleo, com acordo de frota, mas o desconto comercial é igual ao de outro tipo de empresa, ainda que haja depois apoios do Estado para os combustíveis. E aí entra a gestão da Direção, que são ‘bombeiros sem farda’, mas são bastante preocupados. A corporação já tem um volume financeiro considerável e há que prever muitos ordenados e condições. Em Lagoa, temos cerca de 60 funcionários do quadro permanente, o que é bastante. Deve ser a terceira ou quarta instituição do concelho com maior número de empregados permanentes, e não estou a contar com os sazonais. A nós, por estarmos na rua fardados, todos nos identificam como bombeiros, mas qualquer corpo tem por trás uma Associação que tem uma Direção. Temos um vínculo próprio por sermos uma Associação Humanitária e por ser de Bombeiros, mas temos uma Direção com o seu presidente, vogais, tesoureiros, secretários, uma Assembleia Geral, Conselho Fiscal e temos sócios. Se bem que cada vez são menos.

A população já não se mobiliza nesse sentido?
Já não, embora haja focos de apoio na comunidade. Por exemplo, a comunidade estrangeira residente no Algarve valoriza bastante e dá-nos muito apoio, bem como alguns particulares, mas a nível de associativismo diminuiu bastante. E tem tudo a ver com a sociedade em que estamos. É esse trabalho da Direção que não é tão visível, mas que faz a gestão financeira do corpo de bombeiros que é muito importante. Estas associações são criadas com o único objetivo de manter o corpo de bombeiros. Portanto, não existe associação sem corporação, nem vice-versa. E o trabalho deles, aproveito aqui para enaltecer isso, é mesmo muito importante, tal como o é a relação entre a Direção e o Comando. Muitas das notícias que correm na comunicação social de comandantes que deixam de o ser, têm a ver com esta relação. Os comandantes são, por força de lei, escolhidos pela Direção de um corpo de bombeiros e quando ambas não têm uma boa relação, não corre bem. Em Lagoa, a Direção, presidida pelo Francisco Martins, está muito próxima de mim, do Comando, dos operacionais e restantes elementos.

Ele entende as necessidades?
Sim, e é também uma pessoa ligada à área da saúde, foi gestor municipal, foi presidente da Câmara. Nesse aspeto estamos muito bem e somos até um exemplo a nível da ligação do presidente com o comandante e o comando.

Voltando aos custos, estamos a falar de que apoios?
O grande suporte financeiro das associações humanitárias dos bombeiros locais são os protocolos com os municípios. Há, depois, alguns serviços de financiamento próprio, como o serviço de emergência pré-hospitalar, também subsidiado e que parte do protocolo com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) também é financiado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), mas, no dia a dia, o financiamento está ligado aos protocolos com os municípios. E, neste caso, também somos felizardos, porque em Lagoa, o presidente e o executivo, têm uma grande preocupação para com os bombeiros e pela segurança dos munícipes. Escutaram sempre as nossas necessidades e temos um protocolo que permite manter a nossa missão. Esta tríade, entre Direção, Comando e Câmara, é importantíssima, ainda que não esqueçamos que o que sustenta o corpo de bombeiros são os seus operacionais.

Tipos de ocorrências
Como estão distribuídas as equipas em Lagoa?

Temos três grandes valências. Uma delas é a saúde, com equipas que fazem a emergência pré-hospitalar, protocolada com o INEM e que no país é feita, na ordem dos 90 por cento, pelas corporações de bombeiros e Cruz Vermelha Portuguesa. Temos também as equipas de intervenção que atuam em caso de incêndio urbano ou florestal, desencarceramento e outras ocorrências como aberturas de porta, por exemplo. Dentro destas equipas, há algumas mais especializadas. Temos mergulhadores, embarcações de socorro, salvamento em grande ângulo, que são aquelas equipas que geralmente atuam em falésias para fazer o salvamento por cordas. Neste momento, temos três Equipas de Intervenção Permanente (EIP) que são protocoladas entre os municípios e o governo central. Estas profissionalizam cinco elementos por equipa, por isso, agora temos quinze elementos dentro das EIP. Estas equipas têm um perfil diferente e os seus vencimentos são subsidiados, uma parte pela Câmara Municipal e a outra pela ANEPC, ficando a cargo da Associação alguns complementos. Os elementos têm de realizar testes anuais para se manterem nas EIP e o não alcançar os objetivos mínimos obriga à desvinculação dessa EIP. Por fim, temos as equipas de transporte não urgente de doentes.

Qual a vertente que mais ocupa os bombeiros de Lagoa?
É a emergência pré-hospitalar, com cerca de 300 a 350 serviços mensais neste momento, e, depois, as situações que não são doença súbita, mas que englobam uma das EIP. No caso de um acidente de viação, sai a equipa de emergência pré-hospitalar, com dois homens e uma ambulância, mas sai também uma viatura com cinco homens da EIP.

Algarve é exemplo no país
Há uma perspetiva regional diferente do resto do país, certo?

Sim, porque estamos muito em rede. Lagoa não tem área florestal considerável, mas o corpo de bombeiros tem um sem número de solicitações para incêndios florestais na região. Por exemplo, se no Verão houver um incêndio florestal em Silves, nós saímos na primeira linha. Por isso é que nesses meses mantemos duas a três equipas de combate só para incêndios rurais. Isto porque, na região, há esta perspetiva, e estamos todos, Comando Regional da Proteção Civil, presidentes dos municípios e comandantes dos corpos de bombeiros, alinhados nesse sentido. Fazemos a diferença e exemplo para o resto do país com esta maneira de trabalhar. Se tivermos agora aqui a infelicidade de um alerta de incêndio num restaurante, sei que vou ter aqui os meus três ou quatro carros, com seis ou sete homens meus, mas sei que vêm mais cinco de Portimão e há de vir um autotanque de outro lado qualquer.

Isto transmite outra segurança?
E outro tipo de resposta também. Há 40 anos respondia-se com dois homens e um carro a uma situação. Hoje, no mínimo, do nosso quartel, para uma ocorrência de fogo em qualquer edifício, saem o veículo de intervenção com cinco homens, uma ambulância pré-hospitalar, com mais dois, mais um oficial para comandar, mais cinco que vêm de outra corporação, mais outros dois, e é assim que se responde ao alerta inicial. A verdade é que não estamos sozinhos. Ou seja, o corpo de Lagoa não é só Lagoa, o de Portimão já não é só Portimão.

Voluntariado escasso
Ainda há voluntários?

É algo que, e especialmente no Algarve, é muito escasso.

Porquê?
Há muita oferta de trabalho para os jovens no Verão. Bem remunerado e menos agressivo. Isto fez com que as corporações começassem a pensar na profissionalização cá dentro. Hoje, a sociedade já não espera que, toque uma sirene, e o corpo de bombeiros leve 15 a 20 minutos até que cheguem os voluntários para formar uma tripulação numa viatura para ir combater um fogo. Hoje, tudo se quer imediato e bem equipado, porque o escrutínio das redes sociais é enorme. De há 30 ou 40 anos para cá, a exigência para com um corpo de bombeiros, seja ele profissional ou voluntário, aumentou drasticamente.

Falta valorização da profissão?
O mais importante num corpo de bombeiros são os seus operacionais, os homens e mulheres. Isso é que faz uma corporação, não são as paredes nem os carros. São as pessoas que estão cá dentro. E temos um grupo de trabalho muito bom, que está a apostar no seu crescimento pessoal e está muito ciente de qual é a sua missão.

É necessário o amor à camisola?
Não vejo a minha função aqui dentro, nem a de bombeiro, como uma profissão. Podemos ser profissionais, mas isto não é uma profissão igual às outras. O que é pedido a nós próprios para ser bombeiros, enquanto pessoas, é muito mais. Há profissões muito parecidas, não ponho isso em causa. O nosso trabalho é sempre sob stress. Lidamos com a pessoa doente, a pessoa traumatizada, a família. É também arriscado, mas nós formamo-nos e preparamo-nos para esse risco. O treino que temos permite-nos ir dois ou três passos à frente do que é um cidadão que não esteja treinado e que não tenha os equipamentos necessários. Há, porém, sempre um grau de risco diferente nas nossas operações. Na generalidade, a população reconhece e os bombeiros em Lagoa têm uma valorização por parte da sociedade. Mas também é verdade que quando algo corre mal somos muito fustigados. Hoje, há muita opinião que é formada pelos órgãos de comunicação social, pelas redes sociais e pelo exemplo negativo.

É preciso pensar nas volatilidades da região?
Certo. Enquanto agora tenho cerca de 20 elementos para serviços diários, no período diurno, e cerca de 15 no noturno, no Verão, além desses, temos mais 12 só para o incêndio rural. Ou seja, chegamos a ter dias com 30 ou mais elementos de serviço permanente. Como se planeia um serviço que não é previsível numa região que quadruplica o número de pessoas no Verão? É um dos nossos desafios. Os valores de Inverno não têm nada a ver com os de Verão.

Se bem que este ano houve alguns desafios no Inverno?
Sim, por exemplo, nesses dias aumentamos significativamente o número de operacionais. Duplicámos, porque os estados de prontidão que são decretados a nível nacional pela ANEPC fazem com que tenhamos que crescer em número de operacionais para dar resposta ao que se prevê.

E como é que conseguem?
Com a boa vontade dos nossos homens e mulheres. Porque eles saem às 8h00 para ir de folga e em vez disso assumem um turno de voluntariado. Quando se faz o DECIR, faz-se com as folgas e férias dos bombeiros. Antigamente era com os voluntários e o pessoal tirava férias dos empregos e vinha. Atualmente, fazemos com os tempos de descanso que os nossos operacionais dão em prol da atividade de bombeiros. E vamos tirar estes tempos à família, ao nosso lazer. Nas outras profissões se um chefe chega e diz: ‘Agora fazes mais oito horas…’. Aqui, dizemos que precisamos de mais cinco homens, que vamos aumentar face ao estado de prontidão especial, e oferecem-se. E é assim que se consegue gerir. Por isso é que consigo, em termos de comando, hoje cinco e amanhã se for preciso dez. Aí é que entra a diferença de um corpo de bombeiros ser feito pelos seus operacionais e o ‘ser bombeiro’, ter preocupação com a segurança dos outros e com o outro.

Certificar formação e saúde mental são apostas de Nuno Bento

Há dois projetos que o comandante Nuno Bento gostaria de implementar no Bombeiros de Lagoa. Um deles é tentar que a corporação seja reconhecida pela DGERT como entidade formadora para ter oportunidade de alargar as funções externas. Isto porque, os bombeiros já promovem diversas ações de sensibilização, como as de manuseamento de extintores ou em suporte básico de vida, mas passariam a ser certificados como entidade formadora. Outro dos objetivos é apostar num projeto de saúde mental, que previna e se mantenha como uma preocupação presente na corporação. Por isso, além da modernização contínua, Nuno Bento revela que considera que o apoio psicológico poderia ser melhorado. “Se algum de nós gostasse de ver este trauma e esta doença toda, algo não estaria normal em nós próprios. Claro que isso é traumatizante”, explica. Apesar de existir apoio de estruturas nacionais, ao qual podem recorrer, não é continuado. “Recorremos quando algo sai muito mais fora do normal, porque fora do normal é sempre”, afirma. Por esta razão, o projeto para este ano será implementar um apoio contínuo e permanente.

Quem é Nuno Bento?

Com 53 anos, Nuno Bento já conta com muitos anos de experiência neste concelho. Chegou entre 1998 e 2000, por via do casamento. Fez o seu percurso académico nas Forças Armadas, tendo concluído o curso superior de enfermagem, enquanto militar da Força Aérea. Prestou serviço por alguns anos como enfermeiro, na altura, na Unidade de Evacuações Aeromédicas nas Lajes, nos Açores. Quando se mudou para o Algarve, ingressou nas urgências do Hospital de Portimão, onde foi chefe de equipa alguns anos. Os bombeiros estiveram sempre presentes e Nuno Bento recorda que o seu pai “toda a vida esteve ligado a companhias de bombeiros privadas e privativos em termos industriais”. E havia muitos convites informais que continuavam a deixar a ideia presente. “Em 2002, resolvi vir falar com o anterior comandante Vítor Rio e acabei por ficar”, conta. Primeiro como voluntário, depois, ao longo dos anos, subindo por carreira na estrutura de comando. “Entretanto, houve este convite para assumir o cargo de segundo comandante e de forma permanente, como funcionário da associação e aceitei. Estive nesse cargo desde 2007 até ao ano passado. Com a entrada do comandante Rio no quadro de honra assumi as funções de comandante”, conclui.

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