O fado bateu-lhe à porta… e João Leote abriu o coração

Texto: Hélio Nascimento | Foto: Kátia Viola, in Portimão Jornal nº36


Não foi amor à primeira vista nem um caso de herança ou legado. Nada disso. O início do percurso de João Leote no fado é até bem curioso e revelador das muitas surpresas que a vida nos guarda.

“Fadista desde sempre? Não. Aliás, antes de começar a cantar nem gostava de fado, pensava que era música para os mais velhos e não compreendia bem. Aos 13 anos, porém, através de uma amiga, soube que ia abrir uma escola de fado em Portimão e resolvi tentar a minha sorte e perceber melhor o que era o fado”, confessa o jovem portimonense, um nome em constante ascensão na cultura da cidade e uma voz cada vez mais respeitada no Algarve e no país.

João Leote, note-se, sempre gostou de cantar músicas que ouvia na rádio e na televisão, mas o fado, reconhece, chegava a aborrecê-lo. A inscrição na escola mudou-lhe a perspetiva.

“Comecei a participar em concursos e as pessoas gostaram de me ouvir. Depois fui convidado para espetáculos e para atuar em restaurantes e desde então tenho sempre evoluído”. Por outras palavras, “aprendi a gostar, tomando conhecimento do fado e da profundidade da música”. Agora, aos 23 anos, o fado é a sua vida.

“Os meus primeiros passos foram sempre positivos, graças a Deus. Continuei a inscrever-me em concursos para tentar perceber como era o meio, para ganhar confiança e saber se era bom naquilo que fazia. As indicações foram boas e as validações positivas, através de mais convites, sinal de que gostavam das minhas atuações”, prossegue João Leote, sempre pronto a recuar no tempo para acrescentar mais um dado. “Ao início ainda pensei que era uma fase e que me ia aborrecer. Mas não. O bichinho já não me deixava desistir e decidi apostar em mim”.

Um projeto que vai surpreender
O clique determinante na carreira de João Leote verificou-se quando foi ao Grande Prémio do Fado, da RTP. “Estava lá o José Gonçalez, uma personalidade bem conhecida no meio. Concorri, e, embora não tivesse conquistado um lugar especial, tive um feedback excelente e consegui mais visibilidade. Vi que o fado era mesmo o meu caminho e, desde então, não mais parei. Tinha aí uns 15 anos”, recorda. O fado bateu-lhe à porta e o fadista abriu o coração…

Fora da música, concluiu o 12º ano na área de Ciências e Tecnologias, mas não seguiu para a universidade. “Ainda tenho o objetivo de tirar um curso superior, mas espero pela altura certa. Sempre me interessei pela área da saúde, nada de específico, é verdade, mas sinto um instinto de cuidar e tratar dos outros. Era uma boa aposta, possivelmente, se não houvesse a música”.

No seu dia a dia, João Leote passa muito tempo a aprender músicas novas e a ensaiar. “Agora, estou envolvido num projeto que, acredito, será de enorme visibilidade, só que ainda não saiu nada cá para fora e não posso revelar pormenores. Trata-se de um projeto que não é só meu e acredito que as pessoas vão gostar e ficar surpreendidas. Até há pouco tempo trabalhava na área imobiliária, mas não estava a conseguir conciliar e fiz uma pausa. Quem sabe se não volto, mas agora é só a música”, garante o fadista, durante a animada conversa com a reportagem do Portimão Jornal, bem no centro da cidade. 

‘Reencontro’ com casa cheia
João Leote tem espetáculos praticamente todas as semanas, mas faz notar que “foi mais difícil durante a pandemia”. De momento “não me posso queixar, pois, desde que a vida abriu, como se costuma dizer, o trabalho é mais regular”.

Na memória estão dois concertos com a Orquestra Ligeira de Lagos. “Adorei e agradeço imenso o convite. Tenho mais concertos, que vou publicando nas minhas redes sociais, sobretudo no Algarve, mas também recebo convites da zona de Lisboa e acredito que serão cada vez mais frequentes”.
O primeiro disco, denominado ‘Reencontro’, foi lançado em julho, apesar de estar gravado há quase dois anos. Esteve marcado para o Teatro Municipal de Portimão (TEMPO), mas foi cancelado, por causa de pandemia. Desta feita, com casa cheia, no palco de excelência da cultura portimonense, foi um espetáculo fantástico. De seguida, vinca João Leote, “vou cozinhar algumas ideias para que, depois de dar corpo ao projeto de que falei, possa então lançar outras coisas novas”.

Fadista que se preza tem sempre cartas na manga e o jovem não foge à regra. Paralelamente, há sempre cuidados a ter em conta, especialmente com a voz. “Se tiver uma guitarra e ela se estragar posso comprar outra na loja, o que já não sucede com a voz. São precisos cuidados redobrados, e, no meu caso, evito as diferenças de temperatura e procuro não consumir nada com grandes amplitudes térmicas, ou seja, nem muito frescas nem muito quentes. Não digo que sou o mais cuidadoso do mundo, mas sim, tenho cuidados com a voz”.

O fado tradicional em primeiro lugar
Leote canta todos os tipos da sua arte predileta, destacando que dentro do fado “é necessário cantar um bocadinho de tudo”, mas isso não o impede de revelar uma preferência. “O que gosto mais é do fado tradicional, de referências antigas. As raízes vêm daí, de uma certa antiguidade, mas, desde que não perca essa mesma raiz, também gosto de uma certa inovação. Não sou purista. À raiz tradicional gosto de juntar umas inovações”.

Por falar em referências, Fernando Maurício e Francisco Martinho estão à cabeça, aludindo, precisamente, a artistas de outros tempos. Mas também a incontornável Amália Rodrigues, Fernanda Maria e Maria da Nazaré figuram entre os destaques, a par de Ricardo Ribeiro, Carminho e Ana Moura, estes entre os fadistas mais contemporâneos.

São muitos os guitarristas que acompanham João Leote nos seus espetáculos, inclusive porque, em alguns dos locais onde atua, os artistas das violas e das guitarras são fixos.

“Empresário? Não tenho. Gosto de dizer ainda não tenho, mas acredito que vou ter. Para já, sou eu que trato do agendamento dos meus concertos”.
Sendo um jovem, Leote comunga da ideia de que ultimamente há cada vez mais gente nova a cantar. “Ainda bem que é assim. A partir do momento em que o fado passou a Património lmaterial da Humanidade, os jovens despertaram mais. Comigo também aconteceu. Acho que é muito bom termos a certeza que o fado não vai morrer nem cair em desuso. É uma tradição que temos de manter e isso deixa-me imensamente satisfeito. Mais interesse porquê? Creio que há de tudo um pouco, desde as várias escolas de fado em Lisboa, à tradição familiar ou ao aperfeiçoamento que muitos procuram. E ainda porque está na moda e querem cantar. Mas, acima de tudo, está o gosto…”.

A luz baixa e um ambiente intimista
Bom conversador, de palavra fácil e ideias precisas, João Leote salienta que “adoro cantar num palco, com a multidão à minha frente, adoro mesmo”, mas, ao mesmo tempo, revela prazer com “o sentimento de atuar, por exemplo, num restaurante, com a luz baixa, num ambiente intimista”, ou seja, num ambiente tipicamente fadista.

No Algarve, contudo, quase não há casas de fado, como se vê na capital. “Há restaurantes que dão fado, isso sim, mas casa de fado no Algarve só a da Alexandra, em Almancil, que é bem conhecida. Acho que devia haver mais, claro, com aquele respeito intrínseco, porque às vezes, nos restaurantes, há barulho e pessoas a servir. Falta isso, é verdade, para se sentir o respeito pelo fado que há nas casas típicas de Lisboa”.

João Leote gostava de gravar um disco a um nível mais alto e acalenta também a ideia de um dueto “com fadistas que são minhas referências e até com cantores fora do fado”, no tal sentido de inovar. “Não são sonhos, são mesmo projetos, nos quais gosto de acreditar”. 

O fadista portimonense não descarta a hipótese de rumar a outras paragens, nomeadamente Lisboa, para desfrutar de mais experiências e ter novas oportunidades. “Houve pessoas que sempre me disseram que tinha de sair daqui. Achava desnecessário sair do sítio onde nasci para evoluir, mas agora já percebo. O caminho, possivelmente, passa por isso”, assume com naturalidade.

No estrangeiro, Leote já teve a oportunidade de dar três concertos em França e ficou fascinado “com a saudade, o respeito pela nossa cultura e a amizade” dos emigrantes portugueses e de quem mais o ouviu. “Quero repetir esta experiência no meu percurso”, garante.

Brincalhão e descontraído
“Quer no fado, quer na vida… sou eu, mas com vertentes diferentes”, comenta João Leote, a propósito do ser humano que há para lá do fadista. “Sou mais brincalhão e descontraído fora do fado, uma pessoa, digamos, leve, enquanto nas atuações tenho outra atitude, que o próprio fado exige, mas acho que sou sempre uma pessoa muito descontraída”.

Leote vive com os pais, tem muitos amigos e nos tempos livres adora cozinhar. “Não há muita gente da minha idade que goste de cozinhar, mas é verdade. Gosto também de ver o mar, de ler poesia, coisas que me inspiram. Muitas vezes, enquanto cozinho ou vou à praia, tenho ideias inspiradoras” que absorve e depois coloca em prática.

“Não tenho ainda originais, mas espero criar relações com pessoas que possam vir a escrever para mim. Canto fados que já existem, referências antigas, que não se ouvem tanto, às quais dou um cunho pessoal”, remata o fadista, dono da tal voz que encanta e disposto a subir sempre mais degraus nesta ‘escadaria’ onde quer deixar o seu nome. 

Os sonhos e os melhores momentos

Pisar o Coliseu de Lisboa e o do Porto, dando largas à sua voz, é um dos grandes sonhos de João Leote, cujos olhos brilham quando nos faz esta confissão. Para trás ficam já gratas memórias, de espetáculos que guarda “de maneira especial”.

Por exemplo, a participação no Caixa Alfama – que hoje se chama Santa Caixa Alfama – onde cantou e teve o seu nome ao lado de alguns dos maiores intérpretes do fado. E, claro, a apresentação do seu disco, ‘Reencontro’, um momento deveras significativo, “aqui, na minha cidade”, perante um público amigo e que o admira. Voltando ao futuro, mas a muito curto prazo, vem aí o tal projeto. “Dentro de pouco tempo vou revelar e as pessoas poderão assistir. Toda a minha energia está canalizada para isso. Mas estou a planear outras coisas para lançar depois…”, promete.

O município ao lado dos artistas

João Leote está muito agradecido à Câmara Municipal de Portimão, sublinhando o seu papel na divulgação da cultura e dos artistas locais.

“O município está sempre disposto a ajudar e a contribuir para que eu possa continuar a evoluir. Nada a apontar, antes pelo contrário. Apoiou muito a gravação do meu disco, a conceção e o espetáculo que fiz”. Nesta sessão, que ficou memorável para o fadista, foram revisitados temas e autores em que se inspira, “procurando cantar histórias que inspirem também quem as ouve”.

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