OPINIÃO: Ao Sul… Escola Inclusiva … Inclusão na Escola!

Carlos Gordinho
Professor


Hoje, falar de inclusão é falar de um tema complexo. E quando o cenário é a escola, essa complexidade torna-se ainda maior.

Inclusão. Uma palavra que ouvimos cada vez mais. Está presente nos discursos, nos documentos, nas leis, nos projetos, nos relatórios e nos números. Mas será que está verdadeiramente presente na escola?

Tenho muitas reservas relativamente à forma como estamos a operacionalizar aquilo a que chamamos inclusão. Questiono, sobretudo, a sua intencionalidade e a forma como estamos, efetivamente, a ‘incluir’ os seres humanos na escola.

Enganam-se aqueles que pensam que a inclusão se destina apenas aos seres humanos que, por diferentes circunstâncias da natureza ou da vida, apresentam algum grau de ‘diferença’ intelectual ou motora.

A inclusão, ou a integração, é muito mais do que colocar e aceitar crianças na escola porque a legislação determina que todos têm direitos e que a escola é obrigatória. Devíamos ter direito a ser integrados condignamente. Com condições, com assertividade, com coerência. Não simplesmente lançados à ‘selva’ e deixados à espera de que tudo corra bem graças ao esforço, à sensibilidade, à vontade e, sabe-se lá, a mais o quê dos outros. Integrar uns é, muitas vezes, desintegrar outros. E é aqui que começa a minha inquietação. Queremos fazer inclusão numa sociedade que, cada vez mais, nos obriga a parar, refletir e repensar aquilo que queremos para o ensino e para a educação. Mas o problema parece ser muito mais profundo.

Está na própria sociedade e naquilo que ela está a produzir. Estamos, infelizmente, a receber cada vez mais crianças e jovens que necessitam de respostas especializadas, específicas e diferenciadas. Pessoas que precisam de um verdadeiro enquadramento, com estratégias, recursos e linhas de intervenção claramente definidas e adaptadas a cada realidade.

Mas muitas dessas condições não existem nas escolas. E, quando existem, nem sempre existem em quantidade ou qualidade suficientes. A tudo isto acrescentamos, muitas vezes, a falta de formação de quem, no terreno, recebe a responsabilidade de operacionalizar a inclusão.

E então, esperamos que a boa vontade resolva. Que a sensibilidade resolva. Que a compaixão resolva. Que o esforço individual de cada profissional consiga compensar aquilo que o sistema não consegue oferecer.

Será isso inclusão?
Com todo o respeito pelas famílias e pelos seres humanos que necessitam de respostas específicas, questiono se a escola deve transformar-se num ‘depósito’ de seres humanos, onde alguns passam demasiado tempo sem que existam respostas verdadeiramente adequadas às suas necessidades.

Não se trata de excluir.
Trata-se de encontrar respostas diferentes para necessidades diferentes. As condições que têm de ser criadas para estas famílias e a resposta social que lhes deve ser dada terão, forçosamente, de ser outras. Mas, infelizmente, parece existir uma distância cada vez maior entre quem decide e quem vive diariamente esta realidade. E quando aqueles que estão no terreno procuram respostas, muitas vezes encontram apenas a lei.

“Está na lei.”
Mas uma lei, por si só, não resolve uma realidade. Uma lei não substitui recursos, não substitui formação, não substitui pessoas e não substitui respostas. Precisamos, urgentemente, de regras diferentes, de recursos adequados e de respostas que consigam chegar a quem verdadeiramente precisa.
Porque está a ficar desgastante, pesado, desmotivador. Lutar todos os dias apenas para conseguir equilibrar aquilo que parece estar permanentemente desequilibrado. Sem um rumo suficientemente claro. Sem percebermos, muitas vezes, para onde estamos a caminhar. Sem vermos os frutos do envolvimento, do esforço e da dedicação de tantos profissionais.

E o mais curioso é que, aparentemente, todos sabemos o que fazer. Temos estudos, análises, relatórios, gráficos, doutoramentos e mestrados. Temos projetos, diplomas, selos e bandeiras. Tudo parece estar estudado, tudo parece estar planeado, tudo parece estar previsto. Então, se assim é, porque não avançamos verdadeiramente num sentido positivo?

Comparamos frequentemente o nosso sistema com outros contextos culturais e educacionais. Procuramos exemplos, estudamos modelos, analisamos resultados. Mas continuamos, muitas vezes, presos ao nosso próprio contexto. E quando chegamos ao momento de concretizar, parece que as possibilidades económicas deixam de existir, enquanto noutros contextos as opções e os recursos necessários são assumidos como prioridades.

Talvez, no final de tudo isto, aquilo que estejamos a fazer seja apenas sobreviver. Sobreviver na escola, sobreviver às dificuldades, às necessidades e ajudar outros a sobreviver.

Enfim … O que me parece é que vamos continuar a sobreviver e a ajudar a sobreviver.
Até quando? Não sei.

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