Opinião: Do mito sebastianista no imaginário nacional

Pedro Manuel Pereira | Historiador


A derrota militar portuguesa na batalha de Alcácer Quibir (El-Ksar-el-Kibir) em 4 de Agosto de 1578, constitui uma das mais negras páginas da História de Portugal, cujos ecos se continuam a sentir.

Não obstante, estamos em crer, que passados que são mais de quatro séculos dessa tragédia, Portugal ainda não se recompôs da mesma. Continua um país órfão. O mito sebastianista mantém-se presente no inconsciente colectivo. Talvez ninguém o tivesse retractado tão bem até hoje, como Fernando Pessoa.

Ciclicamente em tempos de grave crise política, económica e social, o colectivo nacional reaviva a vaga esperança de que algo ou alguém venha «numa manhã de nevoeiro» salvar os portugueses da desgraça. O sentimento de orfandade não expressada, assola então os portugueses, até que um qualquer pretenso salvador assuma com mão de ferro os destinos da governança do reino. Só no século XX ele foi um Sidónio Pais, um Salazar, alguns dos capitães de Abril, um Sá Carneiro, um Cavaco Silva…

Portugal continua a ser um reino sem rei, no inconsciente colectivo do seu povo. Um presidente da República, qualquer que ele seja, não chega nem tem cariz para preencher o vazio de um soberano, de um pai da pátria, de um paizinho da nação.
Mário Soares, enquanto presidente, quase chegou a preencher esse vazio, só não o personificando dada a limitação constitucional de poderes, de regime e… porque não era um monarca.

A batalha de Alcácer Quibir mobilizou pela parte portuguesa os melhores e mais poderosos membros da aristocracia, o melhor da sua juventude e avultadas somas de capitais, fruto sobretudo de enormes empréstimos, não obstante o exército se encontrar francamente em mau estado, quer em termos de disciplina, quer em organização. Para além das forças portuguesas, existiam também, mercenários espanhóis, italianos e alemães. A empresa teve o «empurrão» do papa Gregório XIII que promulgou uma Bula a favor dessa expedição. Em abono da verdade se refira, no entanto, que o rei Filipe II de Espanha enviou a D. Sebastião uma embaixada chefiada pelo Duque de Medinaceli a fim de o dissuadir dos seus intentos de passar ao Norte de África.

Perto de Alcácer Quibir, as forças portuguesas, compostas por 15.000 infantes, 1.500 cavaleiros, para além de algumas centenas de criados, mulheres, escravos, etc., que constituíam a retaguarda logística, mais uns quantos partidários de Mulay Muhammad, foram destroçados pelo exército do sultão Mulay ‘Abd al-Malik, composto por 8.000 infantes e 41.000 cavaleiros, para além das tropas regulares.

Com D. Sebastião pereceu a nata da aristocracia e do exército do País, num total aproximado de 7.000 homens, para além dos milhares de feridos e prisioneiros, muitos deles remidos ao longo dos anos pelos seus familiares, a troco de avultados cabedais, que levou à ruína poderosas famílias.

Com o desaparecimento do soberano (em combate numa manhã de nevoeiro), estava aberta a porta para a União Ibérica, não obstante a aclamação régia do Cardeal D. Henrique, que tomou assento no trono com sessenta e seis anos de idade e uma saúde débil.

Quando por sua morte por tuberculose, em 31 de Janeiro de 1580, deixou o reino sem sucessor. Assim, D. António, Prior do Crato, assume-se como o candidato natural, tendo o apoio de grande parte das massas populares e é aclamado rei em Santarém. Como tantos outros, houvera ficado prisioneiro na batalha de Alcácer Quibir, tendo no entanto, obtido depressa o resgate.

O duque de Alba e as suas tropas invadem o País por ordem de Filipe II de Espanha. Mais se diria que foi um tranquilo passeio, tal a quase nula resistência encontrada, à excepção da movida por D. António, derrotado na ribeira de Alcântara, junto com o seu improvisado exército de sete a oito mil homens. Escapou e fugiu para França onde foi reconhecido como de iure rei de Portugal, tendo continuado a luta contra os espanhóis com o auxílio da Inglaterra e da França. Teve como seu último baluarte, a Ilha Terceira, que se rendeu a Filipe II em 1583, aclamado que tinha sido nas Cortes de Tomar em 1581 rei de Portugal com o título de Filipe I.

Só no dia primeiro de Dezembro de 1640, O País retomaria de novo a sua independência, que durou até à sua adesão à Comunidade Económica Europeia, passados mais de quatrocentos anos

*Artigo escrito sem aplicação do Novo Acordo Ortográfico

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