Opinião: Um pacotinho d’açúcar

João Reis | Professor


Aquela esplanada do parque, tão cheia de ar livre, plátanos e chilreio de pássaros e crianças, ‘chamou-me’ para tomar um café. Correspondi à ‘chamada’ e pedi uma ‘bica cheia’. O ambiente, ameno, pleno de paz, ajustava-se saborosamente ao agradável amargo do café que ia sorvendo. Fiquei, para gozar mais um pouco do local e do momento.

À falta de um livro ou de um jornal, os meus olhos ‘entretiveram-se’ a ler o pacotinho d’açúcar que ali ficara, sem uso. Pouco p’ra ler, obviamente – a marca do bom café que bebera, o peso do açúcar que continha (5 gramas), a idade da fábrica, outras curiosidades publicitárias. Nesta leitura mecânica e distraída notei, porém, em letras mais visíveis, uma pergunta que, por ser ‘pergunta’, desafiava-me a responder: “E SE VIVÊSSEMOS MAIS DEVAGAR?”

Admito a perplexidade que, de repente, me tomou – um insignificante papelinho interrogava-me, propunha-me um tema… actual e profundo! Suscitado o interesse, veio a consequente reflexão – justificar-se-á tal pergunta? Estamos, realmente, a viver muito depressa? O pensamento respondeu a ambas, afirmativamente: SIM, a pergunta tem razão de ser, é congruente, e SIM, temos vindo a ‘acelerar’ a vida, constantemente, ao longo do tempo. Agora, caros Leitores, convido-vos a fazerem-se aquelas mesmas perguntas; estou convencido de que as respostas serão coincidentes, ou quase.

Olhe-se à História, sempre boa auxiliar nestas matérias. Tome-se, por amostra, a forma como nos transportamos; tendo começado pedestres, passámos a cavaleiros, carroceiros e ciclistas. Lá para trás, têm ficado as charretes, os coches, os barcos a remos; agora, transportamo-nos por combóio, automóvel, avião ou navio. Convenientemente mais rápido!! Temos pressa!!

Também não gastamos tanto tempo com a alimentação; em vez de cozinhar, encomenda-se ‘fast food’, comida quase instantânea, entregue no domicílio por velozes motas. Podemos, até, variar com as refeições congeladas, pré-cozidas, pré-fritas, pré-mastigadas… Sem nos apercebermos, temos vindo a substituir os calmos, salutares e familiares almoços e jantares do passado. E, a propósito – como é produzido o que se come?? Seja agrícola, pecuário, avícola ou piscícola, resulta de produções intensivas, com animais em doentios cativeiros em estábulos, redis e tanques, tantas vezes de acanhadas dimensões e coagidos a cevarem-se e reproduzirem-se artificialmente. E depressa – para serem, rapidamente, distribuídos pelas ‘super-lojas’, onde nós iremos, num fugaz ‘self service’, efectuar as nossas compras. E aos vertiginosos meios de comunicação, dispenso-me de referir…
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Estes exemplos são tão comuns, na vida de todos nós, que já nem os notamos. A par destes, outros aspectos sofrem ‘regras’ semelhantes: no trabalho, aumenta-se a rapidez com o auxílio do computador e do robô (a Economia chama-lhe ‘produtividade’); na Educação, o aluno tem de ter ‘aproveitamento’ em todos os ‘períodos escolares oficialmente estabelecidos’, senão ‘não passa’; na saúde, o ‘medo’ de dois espirros e um ‘pum’ podem motivar uma ida às ‘urgências’ onde será medicado para se curar mais rapidamente do que seria com alguns cuidados caseiros; o próprio ‘lazer’ deixa de o ser assim que se entra de férias – é vê-los, por essas estradas, acelerando para não ‘perder tempo’, tomados de uma impaciência que, amiúde, passa à indelicadeza, ao confronto e à agressão verbal (ou pior).
Não devo, nem quero, fazer juízos de valor, até pela subjectividade do tema. E sei que tudo tem a ver com o (chamado) PROGRESSO e com o ESTILO DE VIDA que temos vindo a criar – sem sustentabilidade, mas exigente, desumanizado, ganancioso e competitivo.

Apesar de tudo, a pressa ainda nos fica a DEVER TEMPO para a Família, para os Amigos, para o fraternal convívio; tempo para a generosidade e partilha, para o sorriso e para o abraço, tempo para a música, a leitura, as artes. Em suma – para uma EFECTIVA QUALIDADE DE VIDA e ALEGRIA DE VIVER.

Nota – Quero, aqui, homenagear aquele humilde ‘pacotinho d’açúcar’ convertido à Filosofia e, sem saber, meu ajudante neste texto.

Escrito sem a aplicação do novo acordo ortográfico.

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