Pedro Guerreiro: “É um orgulho enorme o feito que estas jogadoras conseguiram”

O ambiente é de alegria e entusiasmo, quase de festa, ou não fosse o último treino de uma época de sonho para as atletas de futsal feminino da Sociedade Recreativa Boa União Parchalense. Foram campeãs distritais, venceram a Taça do Algarve e garantiram a subida à II Divisão Nacional, um feito inédito. Na próxima época será a única equipa do sul do país. Apesar de estreantes, tiveram ainda uma brilhante prestação da ‘Final Four’, onde conquistaram o terceiro lugar, mas estiveram perto da final. Foram a surpresa da temporada e o Lagoa Informa foi perceber como foi possível esta equipa e este clube aqui chegarem. O treinador Pedro Guerreiro, que está na sua terceira época no clube, destaca o empenho e o compromisso das atletas, que “nunca faltaram aos treinos”.

Ficou surpreendido com as conquistas da equipa esta época?
Inicialmente tínhamos como objetivo ganhar o Campeonato Distrital. Após esta conquista, em que fomos também a melhor defesa e o melhor ataque, havia a final da Taça do Algarve. Estas vitórias não foram uma surpresa. Quando entrámos para o acesso ao nacional, havia a dúvida em relação aos adversários que iríamos defrontar. Conseguimos passar e na segunda fase sentimos que podíamos alcançar mais do que tínhamos estipulado. Lutámos por isso e subimos de divisão.

No início da temporada achava isso possível?
Tivemos sempre a sensação que esta equipa tinha algo mais do que lutar só pelo Campeonato Distrital. Não sabíamos era que, no curto prazo, conseguíamos atingir feitos maiores. Houve uma grande evolução na segunda fase da época e até conseguimos aumentar a intensidade de treino e de jogo. As atletas estiveram muito bem.

Na ‘Final Four’ a equipa esteve em bom nível e com sorte poderia ter ido ainda mais além…
A ‘Final Four’ foi a cereja no topo do bolo. A experiência por si só foi bastante gratificante e nunca o clube e estas jogadoras tinham lá chegado. É uma experiência que vai ficar para o resto da vida destas atletas. Tivemos momentos de convívio únicos. Em termos competitivos calhou-nos o Atlético, a equipa vencedora da Taça Nacional, mas conseguimos ‘bater-lhes o pé’. Sabíamos que era difícil e quase que passávamos à final, pois apenas perdemos por 2-1. Assim, não aconteceu. Ficámos com a sensação que éramos a segunda melhor equipa da ‘Final Four’, depois de vencermos o outro adversário por 4-1. Se tivéssemos tido sorte no emparelhamento dos jogos, teríamos defrontado o Atlético na final.

Qual o ponto forte deste grupo?
É o compromisso. Estas atletas comprometeram-se desde o primeiro treino. Temos mais de 100 unidades de treino e nunca faltaram, as 15 sempre estiveram presentes. Mesmo as que estavam lesionadas apareciam e algumas que jogavam menos. Houve sempre uma proximidade muito grande e o foco no coletivo. E como os resultados foram acontecendo, o grupo ficou mais unido e focado. Esta equipa fez coisas fantásticas e na adversidade, conseguiu responder sempre muito bem.

Que importância tem esta conquista para si e para as atletas?
Nenhuma atleta tinha conseguido este feito e eu também não. Trabalhámos sempre todos para o mesmo e conseguimos em conjunto. É um orgulho enorme o feito que estas jogadoras conseguiram e um prémio para o nosso trabalho. Este é um marco para elas.
Depois deste desempenho, acha que o futsal da SRUB Parchalense passará a ser visto com outros olhos pelas equipas adversárias?
O Parchalense já começa a ser olhado de forma diferente. Está no mapa do futsal. Pouco acreditavam que aqui chegássemos, mas depois foram os próprios treinadores e atletas adversárias a dizerem-nos que tínhamos a melhor equipa para subir à fase nacional. Felizmente para o Algarve, já começamos a ser identificadas como a equipa algarvia que é capaz de fazer mossa no nacional.

Rita Nunes eleita melhor atleta jovem do ano

Depois de uma época tão bem conseguida, a equipa de futsal da Sociedade Recreativa União Boa Parchalense (SRUBP) viu Rita Nunes e Inês Marques serem nomeadas para jogadora de futsal do ano e atleta jovem do ano pela Associação de Futebol do Algarve. E Rita, ‘Flecha’, como é conhecida, foi mesmo eleita a atleta jovem da época 2021/2022. O treinador da equipa, Pedro Guerreiro, também esteve nomeado para técnico do ano.

O que dizem as craques e os dirigentes

Ana Rita, a capitã
“Sempre acreditámos que podíamos conseguir um pouco mais”

Uma das figuras da equipa é Ana Rita, a capitã. Líder dentro do campo e uma das mais experientes, sempre confiou na qualidade do conjunto e em grandes conquistas. “Ao princípio o nosso objetivo era o Campeonato Distrital. Sabíamos com a qualidade que tínhamos e com a união que existia que isso podia acontecer, apesar de termos três ou quatro equipas fortes a lutar pelo título e que dificultaram a nossa caminhada. Mas sempre acreditámos que podíamos conseguir um pouco mais, o quê é que não sabíamos. Acabámos por subir à 2ª Divisão Nacional e é, sem dúvida, aquilo que merecemos enquanto equipa e o clube também”, refere.

Ana Rita destaca a experiência na ‘Final Four’ como única. “Foi muito emotivo. Foi a primeira vez que a disputámos, não só o clube, mas todas as jogadoras. Valeu a pena e foi um marco na nossa história. Chegar lá foi muito bonito de se viver e de sentir. O segredo foi o trabalho, a dedicação, o empenho e a união que existe entre nós. Somos uma autêntica família e isso foi fundamental”, sublinha.

Flecha, a goleadora
“Na próxima época queremos ganhar o máximo de jogos possível”

Rita Nunes é a melhor marcadora da equipa. Aos 19 anos, mais conhecida por ‘Flecha’, é uma das atletas que se tem destacado e já esteve ao serviço da Seleção Nacional. Cheia de energia e motivação, destaca aquela que foi a sua melhor época da curta carreira.

“Foi uma temporada fantástica, a minha melhor de sempre. Fomos campeãs regionais, subimos à 2ª Divisão Nacional e representei a seleção de sub-19. Foi um ano de sonho”, salienta, mostrando ambição para o próximo ano.

“Espero que possamos ganhar o maior número de jogos possível e passar à fase seguinte. A título pessoal, gostava de voltar à Seleção Nacional, agora de sub-21”, revela.

Zuca, a mais bem-disposta
“Gostava de subir à 1ª Divisão Nacional”

Ana Carolina, de 27 anos, é mais conhecida por ‘Zuca’, ou não fosse ela brasileira. Contudo, o sotaque é quase inexistente. “Já estou cá há 12 anos”, justifica. Mas a gargalhada fácil e a boa disposição não escondem a origem da craque, que é considerada a mais bem-disposta da equipa, ela que é a subcapitã. “O meu espírito é assim aqui e em casa, com os amigos”, refere.

Feliz com a temporada realizada, destaca a importância da conquista do título distrital. “Quando atingimos o objetivo de vencer o campeonato, falámos umas com as outras e percebemos que se tínhamos conseguido isto, poderíamos ir mais longe. Mentalizámos isso e chegámos onde poucas pessoas imaginariam. A nossa união e o espírito de equipa foram fundamentais”, destaca. Sempre com um sorriso e muito otimismo no discurso, ‘Zuca’ não perde tempo, mostra ambição e traça objetivos altos para a próxima época. “Gostava de subir à 1ª Divisão. Já joguei lá pelo Padernense. Este ano também ninguém acreditava e conseguimos subir”, recorda.

Susana Miguel, a ‘mãe’ e amiga, sempre perto das atletas
“Foi um ano de sonho que culminou com o que imaginámos”

Dirigente e quase como uma espécie de ‘mãe’ das atletas no balneário, Susana Miguel está sempre muito próxima da equipa e de cada uma das jogadoras. Vive tão intensamente os jogos como se estivesse dentro do campo.

Faz “a ligação da equipa técnica com as atletas” e viveu esta época momentos muito felizes.

“Foi um ano de sonho que culminou com o que imaginámos. Não foi fácil ganhar o campeonato, pois não éramos os principais candidatos. Notámos que em algumas situações as coisas não eram favoráveis a nós, mas felizmente conseguimos destronar o Machados. Fizemos um trabalho exaustivo ao longo de 10 meses. O grupo é espetacular e o ambiente fantástico”, frisa, mostrando orgulho pelo trabalho das meninas e pela relação que mantém com todas.

“Sinto-me uma mãe. Temos aqui atletas com 16 anos, que vieram para cá com 14. Algumas vêm de famílias de pais separados e sinto que, por vezes, sirvo de consolo para algumas. Procuro ser atenciosa e estar disponível para o que precisarem e até dar mimo. O clube acaba também por desempenhar um papel social pelo que proporciona a estas desportistas”, afirma.

Ivo Roque, o presidente
“A nossa ambição é ficar na 2ª Divisão Nacional”

O presidente da Sociedade Recreativa Boa União Parchalense, Ivo Roque, está orgulhoso com o feito alcançado, assegurando que não é propriamente uma surpresa, mas foi conseguido antes do projetado.

“Quando criei o futsal feminino não imaginei que em tão pouco tempo conseguissemos isto, mas sempre disse que tínhamos de ter uma equipa competitiva. O primeiro ano do técnico Pedro Guerreiro foi para montar o projeto como ele quis. Seguimos as diretrizes do treinador, porque apesar de ser a primeira vez que orientado meninas, sentimos que tinha e tem um carisma e uma aptidão únicos para as treinar, para mim, fora do comum. E fez com que nós acreditássemos e elas também. E os frutos disso chegaram”, afirma.

Apesar da subida de divisão, o dirigente destaca como aqui se construiu este sucesso. “De forma cautelosa, sustentada, sem grandes alaridos, com passos seguros e com um enorme espírito de equipa. Por isso, é que temos as mesmas 15 a treinar hoje, inclusive quando estão lesionadas vêm cá. Há muita entrega, empenho, talento e empatia neste grupo”, revela.

Para a próxima época, o dirigente pretende manter os ‘pés bem assentes no chão’. “O objetivo passa pela manutenção na 2ª Divisão Nacional. Não queremos andar a subir e a descer e queremos estabilidade. Num futuro próximo, gostava de ter escalões desde os benjamins até aos seniores femininos. O meu sonho era ver a equipa sénior entrar em campo de mãos dadas com as miúdas pequeninas, de cinco ou seis anos, devidamente equipadas”, salienta.

A finalizar, Ivo Roque destaca a importância deste feito. “Para o clube foi fenomenal. Nesta modalidade ninguém conhecia o Parchal, nem tinham ouvido falar deste clube, mas hoje a nível nacional no futsal todos conhecem e falam da equipa feminina do Parchal e do concelho de Lagoa na vertente do futsal feminino. Até aqui, no desporto, apenas falava de Lagoa do andebol e do basquetebol. Agora já falam também pelo futsal feminino, estamos a conseguir isso”, sublinha.

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