Um espetáculo “emocionante” mostrou que a diferença não é barreira

Subiram ao palco do Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa, a 14 de janeiro, numa estreia que deixou a plateia comovida. Muito aplaudidos, os atores desta peça de teatro mostraram que quem tem uma limitação física ou psicológica, com força de vontade, pode chegar a patamares elevados.

O projeto resulta de uma candidatura efetuada à Direção-Geral das Artes para promover a contratação de artistas profissionais com deficiência, explicou ao Lagoa Informa Elsa Mathei, diretora executiva do espetáculo. Foi colocada em prática pelas associações Artis XXI e pela Questão Repetida com uma iniciativa intitulada ‘Diferente-Mente’ que contou com duas performances distintas, mas ligadas entre si.

“O que sinto, enquanto algarvia, é que falta criar as condições para que as pessoas com deficiência sintam confiança e impulso de poderem enveredar por uma carreira artística”, em qualquer área, constata a responsável.

As atuações destas pessoas anónimas foram apoiadas pela subida ao palco de Paulo Azevedo, ator profissional com uma malformação congénita, e que teve como objetivo “empoderar as outras pessoas que vivem na região e que, provavelmente, não sentem ainda motivação para abraçar uma carreira artística”, justificou Elsa Mathei.

Foi, portanto, neste sentido, que a Associação Artis, que tutela o Conservatório de Artes de Lagoa, criou a Companhia D’Algibeira.

Uma lição de autossuperação
Toda a sessão tocou o espetador, que assistiu a duas partes do espetáculo, uma delas foi o ‘Diferente-Mente’ e a outra foi ‘Viram a Ana?’. Levam a uma reflexão sobre o que é a diferença, sobre a forma como cada um se vê e como é visto pelos outros, sobre as limitações de cada um, sejam físicas, como as doenças ou malformações que afetam a locomoção ou os sentidos, sejam psicológicas, em que as doenças como a ansiedade ou a depressão ganham destaque. Por ser um espetáculo inclusivo, contou com uma tradutora de linguagem gestual, durante toda a sessão.

Para a organização, o balanço foi positivo. “As pessoas adoraram, ficaram comovidas, porque o resultado final… Não tenho oportunidade de ver pessoas, outras pessoas que não o estereótipo, em palco. É comovente perceber que todos temos capacidades em palco e que a autossuperação é possível quando são criadas oportunidades para tal”, destaca Elsa Mathei. A iniciativa das duas associações “é uma tentativa de criar situações para estas pessoas se autossuperarem”, adianta ainda.

Conservatório que abraça o teatro
Neste momento, o Conservatório de Artes de Lagoa assegura o ensino articulado de música, mas uma das intenções, desde que foi criado, foi alargar o âmbito a várias formas artísticas para o tornar multidisciplinar. O teatro será, assim, um primeiro passo, e materializa-se com esta nova companhia.

“A ideia é criar uma estrutura profissional que permita desenvolver estes projetos, que podem ser comunitários e participativos, como é o caso deste, em que temos profissionais e amadores. Também queremos que sejam inclusivos. Aliás, aqui nem queremos que a inclusão seja uma barreira. Queremos que o Conservatório passe a ser um polo de teatro, amador ou profissional”, explicou.

Covid complicou preparação
A evolução pandémica a nível nacional, nos últimos meses, com o agravamento do número de casos positivos de covid-19, provocou dificuldades na preparação desta peça de teatro. “As residências artísticas foram decorrendo de forma espaçada, desde outubro, e a covid impediu-nos, muitas vezes, de nos juntarmos todos. Houve também momentos em que tivemos de cancelar porque alguém testou positivo. Quanto ao resto, posso afirmar que, se comparar com profissionais, a motivação do elenco ultrapassou as minhas expetativas. A dedicação, o empenho, é extraordinário é uma iniciativa para continuar”, concluiu a responsável da Artis XXI.


“Tratamos muito pouco da nossa saúde mental”

Maria do Carmo Cruz | Diretora do serviço de psiquiatria da Unidade de Portimão do CHUA

“Este foi um espetáculo fora de série e quero agradecer, enquanto profissional ligada à saúde mental, por haver pessoas que se dedicaram a trazer à comunidade esta realidade. De uma vez por todas, temos de acabar com o estigma do ‘ser diferente’. Inclusivamente, este estigma inibe as pessoas de procurarem ajuda o mais cedo possível, o que leva a que as doenças se agravem. Como membros da sociedade, todos temos esse dever e temos de perceber que todos somos diferentes. Ter uma doença mental é igual a ter outra doença qualquer. Temos o direito de tratar e ninguém tem o direito de discriminar. A pandemia aumentou um pouco as ansiedades, levou ao isolamento, o que exacerba esta problemática. Tratamos muito pouco da nossa saúde mental, pois não tratamos a doença atempadamente”.


“A peça devia chegar a todos”

Fernanda Silva | Professora

“Foi um espetáculo visualmente muito bonito. A mensagem, o conteúdo, a capacidade de se expressarem, o que transmitiram tornaram este espetáculo num meio de sensibilizar o público. E faz todo o sentido, sobretudo, numa altura em que procuramos tanto que as escolas sejam inclusivas que haja estas iniciativas e estes momentos. Por essa razão, trouxemos o nosso filho. Mesmo que para ele possa ser estranho algo que tenha observado, quero que ele cresça num mundo em que todos temos e pertencemos a um lugar. Como professora, quando tenho alunos ‘diferentes’ penso que eles têm direito a uma vida adulta com oportunidades. O nosso mundo tem de evoluir muito nesse sentido, a nível tecnológico, social, pessoal, de consciências. Fiquei extremamente emocionada e acho que deveria ser apresentado em mais municípios. Devia chegar a todos.

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