Dário Guerreiro: “O Môce dum Cabréste põe o país a imitar a pronúncia algarvia”

Natural de Portimão, Dário Guerreiro estreou-se a fazer ‘stand-up comedy’ em 2012, no palco do teatro municipal da sua terra natal. Prestes a celebrar cinco anos de carreira na voz de Môce dum Cabréste, o comediante confessa à Algarve Vivo: “Estou feliz com aquilo que alcancei até agora e motivado para ir mais além.”

Texto: Irina Fernandes / Fotos: Kátia Viola

Como e quando nasceu o gosto por comédia e ‘stand-up comedy’?

O gosto por fazer ‘stand-up’ nasceu na primeira vez que fiz, em 2012. Já gostava de assistir, sobretudo graças ao ‘Levanta- -te e Ri’, mas não me sentia tentado a experimentar, por falta de confiança. O facto de não me ter corrido mal terá sido essencial para que quisesse voltar a fazer. Mas o gosto por comédia cresceu comigo, é um daqueles interesses inerentes à nossa personalidade, mais desenvolvidos em quem tem sentido de humor e gosta de consumir tudo o que à comédia diz respeito.

Como surge a ideia de criar o nome artístico ‘Môce Dum Cabréste’?

Na altura pareceu-me giro dar este nome ao meu canal. Também por ser um nome que, apesar de comum no Algarve, cada vez se diz menos. Talvez uma tentativa inconsciente de preservar algum do património oral desta região, por isso aparece representado da forma como se diz e não como se escreve (moço dum cabresto).

O que é certo é que hoje em dia já é complicado dissociar o Môce dum Cabréste da minha pessoa, o que cumpre a proeza de pôr o país inteiro a ‘imitar’ a pronúncia algarvia.

Em 2010 criou o canal no Youtube. Como surgiu essa ideia?

Não terá sido bem uma aposta, mas mais a única opção para quem queria partilhar vídeos com os amigos. Comecei a alojar vídeos no YouTube em 2006, com um grupo de amigos num canal chamado ‘Arranhí Pacanherra’.

Em 2010, influenciado por um ‘boom’ de youtubers, decidi criar um canal a solo onde poderia publicar vídeos ao meu próprio ritmo.

Atuou, pela primeira vez, em 2012 no Teatro Municipal de Portimão. Que memórias guarda desse dia?

Estava doentiamente nervoso. Aquilo não foi na sala principal do teatro, obviamente. Foi no café-concerto, no primeiro andar. Esgotou. 200 pessoas curiosas para saber se eu seria tão engraçado ao vivo como nos vídeos.

Pediram-me para fazer 50 minutos, o que é absurdo para uma primeira vez. Hoje em dia, quem se estreia na ‘stand- -up’ não faz mais de 5, 10 minutos. Mas a minha ignorância e ingenuidade sobre ‘stand-up comedy’ levaram-me não só a aceitar o convite, como a exceder o tempo de atuação para uma hora e meia. Nada do que disse naquela noite de fevereiro faz parte do espetáculo que tenho hoje. Agora, quando olho para aquela atuação, já não me revejo em absolutamente nada do que disse.

Mas as pessoas aplaudiram, apoiaram-me, e isso foi muito importante. Se tivessem saído da sala e eu não tivesse sentido gratificação pessoal naquela atuação, possivelmente não teria voltado a fazer ‘stand-up’.

Qual o balanço que faz da sua carreira?

Tendo em conta que está prestes a fazer cinco anos e que não vivo em Lisboa, acho que o balanço é muito positivo. Estou feliz com aquilo que alcancei até agora e motivado para alcançar mais.

Qual a forma que mais gosta de comunicar o seu humor: criar vídeos ou protagonizar espetáculos ao vivo? 

Ambas. Não me imagino a abdicar de qualquer uma das duas vertentes. São formas diferentes de chegar às pessoas e que se complementam uma à outra. O YouTube foi o meio que me deu a conhecer às pessoas e o que me permite divulgar os meus espetáculos. Como não estou presente na televisão e o meu destaque mediático é reduzido, o YouTube é uma ajuda importantíssima.

Os espetáculos, por outro lado, dão ao público uma noção mais fiel do meu talento e do meu trabalho. Em palco a reação é imediata: as pessoas riem e aplaudem se temos piada, dão-nos silêncio se não temos.

Qual a temática relacionada com o Algarve que mais gosta de satirizar?

Não consigo escolher. Depende sempre do contexto. Mas, mesmo sendo orgulhosamente algarvio e devoto às minhas raízes, não me considero um humorista só para os algarvios. Há sempre temas que os algarvios gostam mais de ver escarnecidos, mas tento apenas abordá-los quando sinto que também interessa chegar ao resto do país.

É difícil ser-se humorista no Algarve?

É difícil ser-se humorista. Em qualquer lado.

Ser do Algarve e viver aqui tem algumas desvantagens, face ao centralismo de que o país é vítima, mas também tem as suas vantagens e não teria beneficiado delas se fosse mais um humorista da zona da Grande Lisboa, como tantos. Acredito que o facto de ser o único comediante, neste género, do Algarve terá feito, de certa forma, com que muitos algarvios se sintam representados pela minha voz.

Não que esse alguma vez tenha sido o meu propósito, mas ser algarvio dá-me uma perspetiva sobre o país diferente da de quem vive nos grandes centros urbanos.

Quem é o comediante português que mais admira? Porquê?

Apontar apenas um é retirar destaque aos restantes, e eu não admiro apenas um comediante. Admiro vários e por razões distintas. Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira e Nuno Markl são brilhantes nos seus registos.

Mas o caminho que o mestre Herman José desbravou permite-me fazer o que hoje faço e da forma que faço e tenho-lhe gratidão eterna por isso.

É natural de Portimão. O que mais gosta na cidade?

O facto de ser grande e pequena ao mesmo tempo, não me falta nada aqui. A gastronomia e o clima. Sinto-me enraizado aqui na bacia do Arade e não me agrada a ideia de passar muito tempo longe disto. Além disso, é em Portimão que joga o meu clube e, como ferrenho e amante de futebol, gosto de não faltar aos jogos.

O que gostava que melhorasse?

A regionalização seria uma vantagem, não só para o Algarve, mas para todas as regiões que vêem o poder central não ter em conta os seus interesses.

Em Portimão faz falta um pulmão verde, um grande jardim botânico com dimensões proporcionais à dimensão da cidade. Mas também faz falta aos portimonenses que sejam mais bairristas e orgulhosos das suas raízes.

Mais do que uma mudança governamental, precisamos de uma mudança cultural.

Que conselhos deixa a quem está agora a iniciar-se na arte de fazer rir?

Independentemente das adversidades que lhes possam surgir, não desistam. A menos que não tenham piada.

Nesse caso, a seleção natural acabará por fazer o seu papel e o público é soberano.

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