A mais incrível das viagens ao mundo do colecionismo

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Algarve Vivo


Custódio Bartolomeu começou a “guardar coisas” por volta dos oito anos e nem ele imaginava que esta “paixão pelo antigo” o levasse a ter, nos dias de hoje, milhares e milhares de peças. Sim, leu bem, milhares e milhares, um número difícil de contabilizar tal não é a dimensão da sua coleção e a vastidão de armários, prateleiras, cómodas e balcões repletos de artigos. A Casa Museu, localizada no Sítio dos Lombos, onde habita e tem a sua quinta, permite uma incrível viagem ao mundo do colecionismo.

Custódio tem 73 anos e é natural, precisamente, do Sítio dos Lombos, no concelho de Lagoa. A visita começa pelo moinho, edificado há 23 anos, junto à sua residência, na quinta de que é proprietário e que tem vindo a aumentar com terrenos contíguos. Um moinho que trabalha, como nos garante, na antecâmara da descoberta de algo que contado, se calhar, poucos acreditam. Só visto.

“Abalava daqui às três e quatro da manhã para ir ao Alentejo buscar estas madeiras e algumas coisas já usadas. Montei a estrutura, procurei as pessoas indicadas para fazer isto, mas estava difícil, até que um homem que trabalhava com o moinho de Odeceixe me deu a ajuda necessária e indicou os locais onde ir. Depois, foi tudo feito e transportado para aqui, tirei medidas e moldes e o encaixe assentou na perfeição. Funciona, é ver como está o vento, é puxar e rodar”, diz, apontando para vários instrumentos e indicando a maneira correta de meter o moinho a trabalhar.

Do moinho descemos para o admirável mundo das velharias. Uma riqueza como Lagoa e muitos lagoenses, por certo, nunca viram. As salas sucedem-se umas às outras, num total de sete, cheias de objetos de todos os tamanhos, feitios e géneros. Há ainda um bar, uma cozinha, uma discoteca, as indispensáveis casas de banho e duas compridas mesas onde se serve o petisco em dias especiais. O nosso espanto é maior quando começamos a ver figuras de homens (algumas ‘retratando’ o próprio Custódio) e mulheres e até um pequeno lago, com peixes, que recebe a água vinda de uma cascata!

“Agora só as peças raras me fazem perder a cabeça”
Um pequeno parêntesis na descrição da viagem para melhor apresentar Custódio Bartolomeu, que trabalha desde os 13 anos, na construção civil. Foi servente, pedreiro e a partir dos 25, após a tropa, estabeleceu-se por conta própria, sempre no Algarve e sobretudo no concelho de Lagoa. “Além da construção tinha quatro carros em que vendia água e limpava fossas, procedia ao desentupimento de esgotos e vendia lenha. Fui o primeiro a fazer isto na província, agora enxameada de gente”, atira, no seu estilo peculiar, ora mais calmo ora mais despachado.

Custódio tem quatro filhos e um deles, que trabalhou consigo, é dono de uma empresa de desentupimento de esgotos. Uma das filhas, que durante alguns anos ajudava no escritório, ficou, entretanto, a explorar a atividade de limpeza de fossas e o aluguer de contentores. “Eu, agora, só me dedico aos esgotos e à construção. Das restantes duas filhas, uma está a tirar medicina e a outra dá aulas”, conta, tipo apresentação da família que engloba ainda a sua esposa e oito netos.

Regressando à visita, a conversa decorre à medida que cada prateleira suscita maior curiosidade. “Sim, é verdade, tinha 8 anos quando comecei a guardar tudo. Destes contadores que está a ver alguns são mais velhos do que eu. Desde moço que juntei fotos, coisas dos meus pais, dos rapazes da escola, cartões de identidade e por aí. Tudo o que é antigo desperta-me atenção. Espaço para isto? Primeiro foi num armazém, depois passei para estas salas, com acesso pelo moinho. Nem sei como consigo trazer tanta tralha para aqui”, confessa, rejeitando arriscar um número de artigos e preferindo avançar com a tal ideia de “muitos milhares”.

Chegamos então à divisão dos assuntos religiosos, tipo santuário, onde também têm lugar os ferros de engomar e inúmeros instrumentos musicais, muitos deles ainda a funcionarem. “A malta nova juntava-se aqui, tipo 50 ou 60 pessoas, para ouvir música. E já se fez um batizado com uma centena de pessoas”. Dos acordeões, violas, gaitas e guitarras passamos às máquinas registadoras, bem antigas, ferros, isqueiros, garrafões, jarros, copos, bonecos, enfim, tudo o que é antigo tem aqui lugar. E há garrafas da Adega de Lagoa e de outros estabelecimentos com datas do século passado.

“O que juntava era de família, de resto foi quase tudo comprado. Olhe, esta camisola do meu pai! E a funda do meu tio, que guardava ovelhas até andar de muletas, que também estão aqui”. As recordações prosseguem, agora com pires, chávenas e rádios e mais rádios. “Comprei um, que já tivera outros donos, por mais de 500 euros. Queria era comprar! Agora evito as feiras de velharias, já não tenho espaço, só mesmo peças raras é que me fazem perder a cabeça”.


Uma sala de aula em tamanho real
A secção de penicos é das mais vistosas, ou não fossem cerca de 300! Segue-se o relógio do avô que morreu com 90 e tal anos, ou seja, a peça tem mais de 200 anos. “E funciona, tal como os rádios”, apressa-se a dizer Custódio. O sítio das televisões, pequenas e grandes, abarca igualmente um grande número de aparelhos, antes de entrarmos no espaço onde era feita aguardente. O colecionador, aliás, produz vinho, tinto e branco, “sempre de qualidade”, mais aguardente de figo e licor.

A próxima sala encerra uma das maiores surpresas da visita: uma sala de aulas, com bonecos em tamanho real, com a professora, que está de pé, e três alunos sentados nas respetivas mesas, sem faltar o quadro de ardósia e imensos livros escolares espalhados em redor. E temos mais à frente o barbeiro, o carteiro e o sapateiro, antes dos relógios, binóculos, telemóveis, um PBX e listas telefónicas de 1951, altura que os números de Lagoa tinham só três algarismos. “Estas são as minhas botas da tropa”, aponta Custódio, referindo-se de imediato ao “barbeiro que também fazia de dentista” e, por isso, há material de dentista à vista. Um mapa de Portugal, imponente, desperta outra recordação. “Cheguei à feira e nem estacionei, fui logo comprar o mapa, que custou 250 euros”. Ao lado estão revistas, com Mário Soares e outros políticos nas capas, despertadores, bobines de filmes e uma foto que junta Eusébio e Amália.

Existe também um espaço dedicado a “coisas da minha mãe, que assim não foram para o lixo”. E réplicas de barcos, “uns que fiz na tropa e outros que comprei, da Casa Fialho”, com muita pedra a ornamentar, mais animais – só gatos são mais de uma centena – e uma fila interminável de bonecos.

Animais na quinta e carros na garagem
“A minha esposa não se assusta com tanta coisa”, garante Custódio, passando em desfile fotos de família, peças suas e dos filhos, discos, cassetes, cartas de condução, candeeiros e garrafas em miniatura. A pintura do veado que tinha na quinta e que o feriu também chama a atenção. E eis que surgem os tachos e panelas, cestos de vime, alguidares e moedas. “Tudo o que está aqui saiu-me do corpo”, atira, evocando uma vida de muito trabalho e dedicação. Até hoje.

“Levanto-me às cinco ou seis da manhã para alimentar e tratar os animais”, prossegue. É que a quinta comporta um casal de burros, outro de cabras, uma avestruz, um pónei e galinhas. Mais cães e muitos gatos. Depois ruma quase sempre a Lagoa, onde continua com bastante labuta. Acompanham-no dois funcionários, um deles há 43 anos. “Já tive mais de 20”, regista, aludindo então às horas-extra que muitas vezes fazia quando regressava a casa. “Estes moldes eram trabalhados à noite. E esta pedra ia buscá-la a Ferreiras, outras na rocha, para além das escavações. Não é qualquer pessoa que o faz”, argumenta.

Custódio Bartolomeu é mesmo um empresário de sucesso. Para lá de tudo o que já contámos, tem 30 casas suas, arrendadas, em prédios com apartamentos, restaurantes, em Lagoa, Carvoeiro e Quinta do Paraíso. “São muitos anos de trabalho e tudo o que tenho saiu-me do corpo! Há gente que ganha mais do que eu e não faz nada. Eu não me privo de nada. Veja os euros que tenho gasto nos rádios. Cheguei a gastar três e quatro mil euros de uma só vez numa feira”. Os negócios, sublinha, são geridos pela esposa.

Esta incrível viagem tem ainda mais um capítulo por contar, quando Custódio, ‘guiando´ agora por outro local, nos conduz à garagem. São 14 carros, um deles que transportou os filhos nos casamentos, outro um Mini 1000 todo restaurado, mais bicicletas, as velhas ‘pasteleiras’ e motorizadas, muitas delas também restauradas. “Quase todos os veículos andam”, completa, sorrindo a um final de tarde que, como tantos outros, lhe dá o vigor necessário para continuar a viver a vida.

Uma doação para preservar o legado

“Queria fazer uma doação. Podia ir tudo para uma instituição, porque já sei que os meus moços pouco ou nada vão ligar a isto”. Custódio deseja preservar este legado e evitar que “tudo isto acabe” de um dia para o outro, entregando tudo o que a Casa Museu alberga. Neste sentido, já falou com a Câmara Municipal de Lagoa, que, porém, segundo ele próprio, “não desenvolveu o tema”. A sua ideia era a de que alguém tomasse conta desta coleção, que a conservasse, e que houvesse pessoas que a mantivessem ‘viva’ e mostrassem ao público. “É uma pena o espaço estar fechado, até porque sei que a maior parte da população de Lagoa e do concelho não conhece o Museu. Vêm amigos, que depois trazem amigos, já vieram estrangeiros, mas eu também não posso estar sempre aqui”, lamenta, explicando a inexistência de um horário. Seja como for, o seu grande desejo continua a ser o de mostrar e divulgar o que juntou durante mais de seis décadas. “Era preciso que houvesse maior divulgação e mais publicidade, que os moços das escolas fossem atraídos e viessem ver, inclusive para eles darem valor a tudo isto que eu fiz e tenho aqui”.

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