OPINIÃO | Sem árbitros… não há jogo

Carlos Gordinho | Professor
Continuo a frequentar recintos desportivos, sobretudo para assistir a jogos de formação. Vou com tranquilidade, na expectativa de encontrar equilíbrio e espírito desportivo. No entanto, a realidade é muitas vezes bem diferente, ambientes tensos, pesados e marcados por confusão.
A realização de jogos de jovens sem árbitros, substituídos por alguém sem formação técnica nem preparação para a responsabilidade da função, está longe de ser solução.
O resultado é previsível, desorganização, instabilidade e conflitos. Bancos exaltados, dirigentes agitados, treinadores afastados do essencial, atletas emocionalmente perdidos e bancadas tensas, por vezes agressivas. É este o desporto de formação que queremos?
Dirijo-me, por isso, aos agentes e entidades responsáveis pela organização do desporto amador. Continuamos, enquanto comunidade, a aceitar contextos que em nada contribuem para a verdadeira missão da formação desportiva.
Sem árbitros não há jogo e é importante assumir isso. O árbitro é também um agente educativo, garante de equilíbrio, respeito e bem-estar dentro do campo. Sem essa figura, perde-se mais do que a ordem, perde-se uma referência essencial.
Existe, no entanto, uma alternativa possível, embora exigente, a construção de uma verdadeira cultura desportiva assente no respeito. Respeito pelo opositor, pelas regras e pelo próprio jogo. Uma cultura que deve começar nos escalões mais jovens, até cerca dos 12 anos, promovendo valores como honestidade e responsabilidade.
Num cenário assim, a falta seria assumida por quem a comete, reconhecida por quem a sofre e gerida com equilíbrio entre todos. Mas esta realidade exige tempo, educação e mudança de comportamentos.
O que não pode continuar é a solução de recurso, atribuir a arbitragem a pais, treinadores ou dirigentes, apenas para “cumprir calendário”. Se não há condições, então não deve haver jogo. Talvez seja tempo de rever regulamentos e prioridades.
Acredito que é possível mudar. Mas isso exige coragem e compromisso de todos, pais, treinadores, dirigentes e instituições. Exige colocar a formação humana acima do resultado imediato.
Só assim poderemos evoluir, não apenas enquanto prática desportiva, mas enquanto comunidade. Talvez, para alguns, esta visão seja utópica. Para mim, é uma convicção e também uma das razões do meu afastamento das linhas de jogo.




