OPINIÃO | “Abaixo a Inteligência…”

José Ricardo Jordão | Ex-membro da CDU da Assembleia Municipal de Portimão
Foi, proclamando o grito selvagem de “Abajo la Inteligência, Viva la Muerte”, que o general fascista Milan Astray entrou, de pistola em punho, na Universidade de Salamanca durante a guerra civil de Espanha (1936 a 1939), demonstrando o ódio à ciência, aos livros, à investigação, à cultura, precisamente no local onde se semeiam a cultura, as ideias, onde se produz o conhecimento e a reflexão crítica.
Vêm estas palavras a propósito do Ministério da Educação ter anunciado a intenção de retirar do programa obrigatório, na aprendizagem da Língua Portuguesa, a obra de José Saramago, único prémio Nobel da Literatura Portuguesa.
Tal procedimento é próprio da governança das classes dominantes que, através do sistema educativo, promovem e conduzem a ignorância e a imbecilidade das classes dominadas, ao invés de um processo educativo que desenvolva no indivíduo o raciocínio, a capacidade crítica, a formação humana e a consciência do universo e do corpo social a que pertence.
Bem sabemos, tal como diz Paulo Freire (1921-1992), pedagogo e filósofo brasileiro, “que seria ingenuidade esperar que as classes dominantes desenvolvessem formas de educação que permitissem às classes dominadas compreenderem as injustiças, de forma crítica”. Nestas circunstâncias, o processo educativo, que a história nos demonstra, é replicado no decorrer dos tempos, com vários testemunhos de tal prática. Atentemos em algumas comprovações protagonizadas pelos corifeus do consulado salazarista.
Trata-se das posições assumidas por duas figuras maiores que estiveram à frente dos destinos do País. Na Revista de Educação Nacional, órgão de propaganda no período fascista, em artigo publicado em 19 de Maio de 1935, Salazar afirmava: “Se todos souberem ler e escrever, a instrução desvaloriza-se.”
Por seu lado, Marcelo Caetano defende o conceito de inteligência ligada à classe. E no artigo publicado no jornal da época, “A Voz”, de 26 de Janeiro de 1928, diz o seguinte: “Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto, pode na profissão do seu pai ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão e assim deve ser. Na mecânica da escola única, selecionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a mesma preparação hereditária, que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre intelectual”.
Também os jornalistas e ideólogos do regime publicam nos jornais da época artigos combatendo os conceitos da necessidade de alfabetização e os incentivos à divulgação da cultura. É o que faz a jornalista Virgínia e Castro de Almeida, escritora e intelectual reputada, num artigo do jornal “O Século”, datado de 5 de Fevereiro de 1927, escrevendo: “Que vantagem foram buscar à escola? Nenhuma: nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos”. Por sua vez, Alfredo Pimenta no jornal “A Voz” do dia 2 de Abril de 1932 escreve que: “Um dos fatores principais da criminalidade é a instrução”.
Na atualidade, com raras exceções, verificamos que a comunicação social e as redes sociais estão a perverter o conhecimento e a informação. Cultiva-se a ignorância e combate-se a cultura; tudo o que estimula o pensamento crítico é atacado.
A vasta obra literária de José Saramago tornou universal a Literatura Portuguesa premiada com o prémio Nobel, conferiu a consagração e afirmação da Língua Portuguesa no mundo, reconhecendo o português como língua de referência de cultura mundial.
Por toda a sua obra perpassa um fio condutor que vai no sentido da formação de cidadãos capazes de pensar criticamente e pretende pôr em evidência o papel que a cultura e o conhecimento crítico desempenham na libertação das classes laboriosas.
O grito do general franquista é a confirmação de que as forças direitistas e conservadoras têm horror à inteligência, o que significa que odeiam o progresso e a emancipação da Humanidade.
Procura-se agora erradicar a sua obra do programa obrigatório da Língua Portuguesa, impedindo as classes jovens, que estão no sistema educativo português, do conhecimento, da grande dimensão intelectual, artística, humana e cívica, do mais universal dos escritores portugueses, traduzido e editado em dezenas de países, único, até hoje, prémio Nobel da Língua Portuguesa.
Grande e desigual é a luta que tem de ser travada contra a ignorância e o embrutecimento, amparados pelos aparelhos ideológicos do Estado. Para romper contra estes constrangimentos, é necessária muita coragem, muita força moral, e Saramago tem consciência disso quando afirma que “O heroico num ser humano é não pertencer a um rebanho”.
Terrível época em que vivemos, em que se volta a proclamar e defender “abaixo a inteligência”. Por isso, toda a luta é necessária para defendermos e afirmarmos:
“Viva a Inteligência!”




