Abelha d’Arte: O mundo maravilhoso das abelhas

Texto: Hélio Nascimento
Daniel ainda era miúdo quando sentiu a necessidade de se preocupar com a natureza e com os seus elementos, em especial as abelhas. “Desde criança que sempre gostei muito da natureza e lembro-me de acompanhar o meu avô, que plantava ervilhas e favas, e ficar a observar as abelhas. Achava tudo isso muito interessante e a verdade é que a partir daí a sementinha começou a germinar”, conta o próprio, Daniel Ricardo Correia, hoje um apicultor de corpo inteiro, que tem 43 anos, nasceu em Portimão e vive na Bela Vista, concelho de Lagoa.
Já adolescente foi para a Áustria, “para descobrir outras coisas”, e por lá estudou e trabalhou, na cidade de Graz. “Durante esse tempo comecei a conviver com colegas que eram aprendizes de apicultores, digamos assim, pois faziam-no como hobby, com colmeias em jardins urbanos”. As conversas e o facto de o campus da universidade ter um apiário, mais as frequentes tertúlias no jardim botânico, ajudaram a desenvolver a paixão. “Quando voltei, há dez anos, a primeira coisa que fiz foi comprar um terreno em Vila do Bispo e uma colmeia”.
Foi nessa altura que a aventura arrancou a sério. Antes de ter carro, Daniel chegou a ir de bicicleta de Lagoa e da Bela Vista para a Vila do Bispo. “Fazia o meu trabalho com as abelhas e acampava por lá dois ou três dias, voltando depois a casa”, dando asas ao tal interesse profundo e sentido desde pequeno e ao “gosto imenso” pela atividade, algo que ia crescendo cada vez mais. “As pessoas incentivavam-me, diziam para continuar e para aumentar o efetivo de abelhas”.
Após algum receio em arriscar, inclusive porque o regresso ao nosso país era recente e o conhecimento na matéria não era assim tão profundo, Daniel decidiu mesmo avançar e comprou mais duas colmeias, instalando-as também em Vila do Bispo. “De início não conhecia muitas pessoas do ramo, mas depois comecei a interagir com algumas, proprietárias de quintas e terrenos. Retirei então as colmeias para mais perto de casa, para o Sargaçal, e ficaram aí cerca de dois anos, numa quinta biológica”. O passo seguinte não tardou, rumo a uma quinta grande em Barão de São João, o local propício para crescer, dentro da natureza e sem fonte de contaminação.


Colmeias com fins educativos
“Quando fui para Barão de São João ainda mantive Sargaçal algum tempo, mas depois saí desse terreno por questões logísticas. Continuei a expandir o projeto, aluguei um terreno em Marmelete, no Zebro, e tive também lá abelhas”, prossegue o apicultor, que, atualmente tem colmeias em Barão de São João (para fins educativos), em Burgau, Bensafrim (uma delas modelo único em Portugal), em Sagres e na Carrapateira, todas elas em parcerias, que se foram desenvolvendo.
Os ‘fins educativos’ comportam dois objetivos. O primeiro consiste nas visitas guiadas para explicar o mundo das abelhas, uma espécie de tour, para pessoas de todas as idades, sobretudo famílias, com as crianças sempre muito ligadas ao assunto, sendo este um “tema que interessa a todas as faixas etárias”. O segundo objetivo é a polinização que é lá feita, com reprodução das sementes biológicas para uma empresa certificada. “Esse mel é sagrado, não o tiro, é para as abelhas. Quanto muito, retiro o excedente e ponho noutras colmeias que precisam de alimento”, explica Daniel.
Para os menos entendidos, a polinização pelas abelhas é o transporte de pólen entre flores da mesma espécie, o que permite a sua fertilização, um processo natural que garante a reprodução de cerca de 75 por cento das culturas alimentares globais e a manutenção da biodiversidade.
O apicultor não revela quantas colmeias tem ao certo, e, com um sorriso enigmático, adianta possuir “um número que creio ser sustentável, garantindo a qualidade do meu trabalho e dos produtos finais, ou seja, um número suficiente”.
A propósito, quiçá em termos mais técnicos, explica que “com o aproximar do Verão a população de abelhas vai diminuindo, enquanto na Primavera é bem maior”, ou não andassem as abelhas e as flores de mãos dadas e em perfeita simbiose. “É nesse período que há excedente, mas eu faço a cresta (o ato de colher o mel e a cera das colmeias) mais tarde que a maior parte dos apicultores, no fim do Verão. Fico com menos quantidade, mas sempre foi esse o meu princípio”, sublinha Daniel, juntando uma frase lapidar: “Sou aprendiz das abelhas e tenho respeito pela natureza. As pessoas que me compram os produtos valorizam isso”.
Fabrico de velas e valorização do produto
‘Abelha d’Arte’ é a marca registada da empresa de Daniel, uma denominação relativamente recente. O projeto começou há dez anos, mas só a partir de 2019, altura em que ganhou força e se consolidou, que surgiu então a marca. Mais ou menos nessa altura, aliás, foi quando despontou a ideia de avançar com o fabrico e venda de velas. “Aprendi a fazer velas na Áustria e fui depois sendo incentivado a desenvolver aquilo que, ao fim e ao cabo, é a valorização do produto”.
O apicultor explica que não existe tendência para aproveitar a cera das abelhas, e que, normalmente, face à qualidade, a melhor é laminada para voltar a ser colocada nas colmeias, como é o seu caso, que reutiliza essa mesma cera, enquanto as ‘mais velhas’ podem ser vendidas para capitanias, indústria e escolas para trabalhos manuais.
Como sempre, Daniel aposta na valorização da sua atividade, sustentando que as abelhas não são só sinónimo de mel. “São o pilar da vida do nosso planeta. Através da polinização, uma enorme percentagem da alimentação depende das abelhas”, caso flagrante dos vegetais e das frutas.
Ao longo dos anos o agora também empresário estudou e foi adquirindo conhecimento, adaptando-se, evoluindo e aprendendo com os erros. “Fui fazendo alguns cursos, mas em Portugal não existe currículo. Ou, se existe, não conheço. Esses cursos, a meu ver, representam pouco, é preferível falar com pessoas mais experientes, perto da reforma, e é com esses que tenho aprendido. É melhor ouvi-las em vez de ir aos manuais”, sublinha.
Ainda a respeito do que se passa no nosso país, uma referência para alguns dados divulgados nos últimos tempos, quiçá há um ano e meio, que apontam para que a maior concentração de colmeias nacionais se encontre, precisamente, no Algarve. Os apicultores da região são, pois, numerosos e dedicados.
“Como se falassem connosco”
De tema em tema, a agradável conversa chega a uma parte mais… dolorosa, quando questionamos Daniel sobre as picadas de uma abelha. “Se doem mais ou menos, depende do sítio. No nariz, por exemplo, dói imenso”, atira, com um sorriso franco.
O apicultor, aliás, nem sempre usa luvas, dependendo a sua utilização do trabalho em curso. “Temos de respeitar o comportamento e o espaço das abelhas, um dos aspetos que torna a minha profissão tão gratificante. Observar, respeitar e tentar trabalhar com elas. Veja os outros animais, como os gatos, que reagem de modos diferentes quando lhes fazemos festas. As abelhas também reagem a diversas situações, à diferença de cheiro, por exemplo, com zumbidos, vibrações e até a movimentação, como se falassem connosco. Há circunstâncias, claro, em que a proteção para o rosto e o fato especial são essenciais” explica.

O trabalho de Daniel, fora das colmeias, estende-se ao estaleiro, o local onde procede à reparação do material, das caixas, limpeza da cera, o favo que tem de ser derretido, o fabrico das velas, enfim, um processo moroso neste dia a dia de um apicultor cada vez mais rendido ao que sempre quis fazer na vida. Acompanhar o avô na agricultura revelou-se um passo determinante na sua existência.
“Sim, posso dizer que é para o resto da vida, mesmo sem saber o dia de amanhã. Acredito que seja o meu futuro, ligado à natureza e à aprendizagem com este ser que para mim é especial. Sou feliz assim e tenho orgulho em poder controlar todo o processo e tê-lo na mão”, desde o cuidar das abelhas à produção do mel, das velas, pólen e própolis, a resina que elas misturam e que serve para fins de construção na colmeia e prevenção de doenças.
“Não quero depender de ninguém”
O mundo das abelhas, naturalmente, é o sustento e ganha pão de Daniel, que vende os seus produtos a diversos tipos de clientes, para feiras, quintas, parcerias, lojas e pessoas diretamente. Em breve, entre 2 e 5 de julho, irá estar no ‘Mercado de Culturas… à Luz das Velas’, em Lagoa. A sua atividade restringe-se à zona do Algarve, atendendo, segundo o que diz, ao “princípio da sustentabilidade”, preferindo limitar o negócio. “É a minha vida, a profissão a que me dedico cem por cento, embora, de vez em quando, possa fazer outros trabalhos para compensar”, mas sempre pronto a manter a qualidade do projeto em que é o único rosto, visto que trabalha sozinho. “Não quero perder créditos nem depender de ninguém. Do Estado, aliás, o apoio é zero. Os apicultores são dos poucos profissionais do ramo da agricultura que nada recebem”, assinala.




