Empresário investe 500 mil euros na recuperação do Convento do Carmo em Lagoa

Texto: Ana Sofia Varela

Fotos: Kátia Viola

A requalificação e a criação do novo projeto de produção biológica Convent’bio rondará os 500 mil euros quando estiver concluído. Para já, o degradado Convento do Carmo, às portas de Lagoa, junto à Estrada Nacional 125, ganhou aspeto de novo, pelas ‘mãos’ de José Vitorino Pina, empresário local com formação agrícola. Será a casa do novo negócio, estando prevista a inauguração até junho.

Numa visita guiada ao Lagoa Informa, o responsável explicou que este foi um investimento pesado, que, no final, poderá atingir meio milhão de euros, sem contar com o valor da compra do terreno com cerca de 3,5 hectares.

A intenção é produzir legumes e hortícolas biológicos, na horta e na estufa, para depois comercializá-los, na mercearia ou online e utilizá-los no restaurante do Convent’bio. No recinto interior, foi também arranjado o antigo forno para poder cozer pão caseiro. O primeiro andar, conta com uma sala polivalente, para ‘workshops’, colóquios, palestras ou outras iniciativas ligadas ao bem-estar, saudável e biológico.

“O objetivo foi recuperar uma infraestrutura antiga, com um passado e uma história importantes”, que se enquadra no tema do negócio a desenvolver, da produção e comercialização de produtos biológicos, diz o empresário.

“Tivemos de recuperar todas as infraestruturas e, infelizmente, a candidatura que fizemos ao programa de fundos comunitários Portugal 2020 foi recusada”, lamentou José Pina.

Atento aos “sinais do tempo e da sociedade”, considera que “as pessoas hoje estão muito mais preocupadas com o ambiente, com as questões alimentares e com os modos de produção biológica. Concordo com esta filosofia e não avanço com este projeto apenas pelo negócio, mas também por convicção”, refere.

Assim, os circuitos curtos, a proximidade com os clientes, o retornar aos tempos de outrora são a mais valia deste projeto. Na mercearia há legumes e fruta fresca, produzidos no Convent’bio e comprados a produtores locais para revenda, bem como azeites, conservas e vinhos. Será possível encontrar produtos da época e até alguns ingredientes que já começam a ser introduzidos na cozinha, como a cabeça de funcho ou a alcachofra, muito devido à globalização e ao aumento de informação sobre a confeção destes ingredientes. E até os detergentes são biológicos. “Esta linha é alemã. Vimo-la numa feira em Nuremberg. Temos produtos portugueses, mas também importados. Tudo o que tivermos próximo da porta, optamos pela proximidade, mas o que não houver, teremos que procurar mais longe. As verduras e legumes são nossas e o resto é do Algarve, sobretudo de Lagoa e de Silves. Compramos a produtores certificados a nível alimentar e biológico”, resume José Pina.

 

VENDA ‘ONLINE’

A venda dos produtos online será outra das vertentes. A empresa permite a compra de um cabaz semanal, pré-feito ou onde o cliente pode escolher os produtos, através do site, que será depois entregue em casa do consumidor. E quem visitar a loja poderá ainda optar por almoçar no restaurante do Convent’bio. “Não seguimos nenhuma dieta específica, nem macrobiótica, nem vegetariana, nem vegan. Somos bio simplesmente”, defende Fátima Baiona, gerente deste negócio.

No recinto interior, o forno antigo recriará a forma tradicional de cozer pão. “É feito com massa natural, com a massa mãe, por isso os tempos de fermentação são completamente diferentes. Com leveduras frescas, esse pão, ao fim de dois ou três dias ainda está melhor do que no próprio dia, porque os fermentos absorvem os açucares e o glúten”, argumenta Fátima Baiona.

Outra das ideias será promover eventos ligados à produção tradicional, ao artesanato, casamentos, batizados ou outras iniciativas. “No primeiro andar, há uma sala a todo o comprimento do Convento, que será multiusos e poderá servir para ‘workshops’, aulas de yoga ou meditação, colóquios, palestras, formações de cozinha ou de agricultura. Em determinadas épocas do ano, podemos convidar outros produtores de agricultura biológica para organizar um mercadinho”, exemplifica ainda José Pina.

“Este projeto prima também pela proximidade com o consumidor que pode vir comprar e aproveitar para conhecer as pessoas  que estão a produzir, à frente do supermercado, a preparar os alimentos ou a cozer o pão. Também gostávamos de abrir o espaço a visitas da comunidade escolar”, confidencia a gerente.

Para já, o Convent’bio está a funcionar em fase de ensaio para limar arestas, já criou cinco postos de trabalho, número que no futuro poderá duplicar. Até junho, com a inauguração o espaço estará a funcionar em pleno.

 

JOSÉ VITORINO PINA APELA A APOIOS PARA RECUPERAR A CAPELA

Um dos espaços que fica por recuperar é a capela do Convento do Carmo, por falta de fundos. José Pina espera contar com o apoio das entidades locais e regionais para poder concluir o restauro deste espaço, que carrega um passado de histórias e cerimónias religiosas.

“O orçamento acabou e temos que parar a obra na capela. Vou dirigir-me ao presidente da Câmara Municipal de Lagoa (Francisco Martins), para o colocar ao corrente e verificar se há disponibilidade de enviar os técnicos da área da cultura da autarquia para nos ajudarem nas pesquisas e dizer-nos como recuperar aquela zona da capela para que fique como estava”, explica o empresário. Durante a obra de recuperação do Convento, apenas foi realizada uma intervenção na cobertura para que esta não se degrade mais e não coloque em causa a segurança do edifício.

Apesar de já existir “muita informação recolhida”, é necessário apoio para terminar a intervenção, “em benefício da sociedade”. Isto porque, segundo revela, a ideia é voltar a colocar a capela a funcionar, com cerimónias religiosas, casamentos e batizados. E uma das novidades seria a utilização de hóstias e vinho biológicos nas missas, avança ainda. Como a capela é visitável, José Pina montará uma exposição de fotografias antigas que possui para mostrar aos visitantes as iniciativas que lá decorriam, como é o caso da Festa do Carmo. Este património já foi do Estado há muitos anos, tendo depois passado para privados. Já sofreu, pelo menos, segundo especula José Pina, três recuperações ao longo do tempo, sendo esta a quarta.

 

DOIS HECTARES DE ESPARGOS PARA CRIAR PRODUTO DE TOPO

A cultura dominante no Convent’bio será o espargo, que ocupará dois hectares de terreno. O empresário acredita que haverá procura suficiente, sobretudo pelo interesse do mercado espanhol, e revelou que, numa segunda fase, poderá apostar na produção de espargos brancos. Mas há procura também em Portugal, até porque é uma produção que ainda está a dar os primeiros passos no país, sobretudo no norte. “Vai funcionar primeiro como um ensaio até, porque no Algarve há muito calor. Queremos um produto de excelência”, afirma Fátima Baiona.

Esta é uma cultura que se mantém muitos anos no solo, sendo que a maior dificuldade será o calor, porque este ingrediente precisa de ‘adormecer’ no Inverno. Outra das dificuldades, para Fátima Baiona, será a mão de obra, porque na agricultura biológica não podem ser aplicados químicos para matar as ervas e, por outro lado, como esta é uma raiz, não é possível colocar plásticos no solo para protegê-la.

O Convent’bio quer também utilizar, tanto o espargo como o cogumelo, nas refeições que serve no restaurante. “Queremos que as pessoas, quando quiserem comer estes produtos, se lembrem de vir cá, por isso queremos que sejam produtos de muita qualidade”, defende a gerente.

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