Luís Alberto: “Ferragudo está esquecido há anos”

Em entrevista ao Lagoa Informa, Luís Alberto revela quais os projetos prioritários. Num balanço aos primeiros meses deste mandato, assegura que não avançará para um terceiro se não vir desenvolvimentos positivos.
Qual o balanço dos primeiros meses deste mandato?
Tem sido a continuação do anterior mandato, do qual já tínhamos projetos e estamos a aguardar concretizá-los. Neste momento, Ferragudo é um local adiado ou esquecido pelo poder de Lagoa durante anos. A última grande obra pública foi a requalificação do canal e a colocação indevida de areias no local de outro também adiado, a Marina. E há vários projetos públicos e privados em espera por longos anos e vários governos autárquicos: a requalificação da baixa e da Angrinha, o silo, a sede dos escuteiros…
E isso vai mudar?
Espero que mude! Estou no segundo mandato e não mudando, certamente não estarei aqui para um terceiro, porque acho que já chega. São muitos anos e tem que haver um compromisso. Desde o último mandato, temos tentado estabelecê-los e o que mais nos aflige agora é a habitação. A Câmara já tem um terreno, sugerimos mais dois ou três locais. Desde o Bairro Arade não houve nenhum investimento em construção de habitação aqui. Não foi pelo atual nem anterior executivo, mas pelos anteriores. Falamos de habitação apoiada, pois os custos estão em mais de 3500 euros o metro quadrado. É uma zona bastante cara. Precisamos fixar pessoas.
E além da habitação?
Temos as condições dos pescadores, que desde os anos 80, aquando a construção dos primeiros abrigos para os aprestos de pesca pela Junta Autónoma de Portos, não tem qualquer investimento. Exceto os esforços que a Junta de Freguesia tem feito com a colaboração da Câmara para manter a zona minimamente aceitável, mas queremos mais. Aliás é intenção a requalificação da Angrinha, faseadamente, porque sou a favor dos grandes projetos com planeamento e distribuídos em pequenas fases para não prejudicar. É um projeto do tempo da Marina.
O estacionamento também está parado…
Defendemos a construção do silo ou outra solução para esta questão o quanto antes. A Junta de Freguesia já fez um protocolo com o concessionário da Marina para disponibilizar cerca de 100 lugares à entrada da vila e já foi à Assembleia de Freguesia, no dia 28 de abril, a disponibilização de número equivalente naquela zona.
A freguesia é pequena, mas, por outro lado, também é grande?
Somos a que tem menos população, menos área, mais idosos por quilómetros quadrado, a mais envelhecida do concelho, mais quilómetros de praia do concelho, maior discrepância entre o número de habitantes e de visitantes num só dia, e provo isso, com as novas ferramentas do Bairro Comercial Digital e as anteriores, que atestam que em épocas estivais entram e saem de Ferragudo cerca de 20 mil pessoas. Somos a que tem o maior cemitério das freguesias do concelho. A única que tem Feira das Velharias, a Casa do Real Compromisso Marítimo (recuperado ao abrigo do PROMAR), com exposições e ações todo o ano, aplicações informáticas, uma das quais que possibilita aos fregueses ver tudo o que se passa. Nos últimos seis anos conta-se pelos dedos os investimentos aqui face ao global do concelho.
Sente mágoa?
Claro, se fui eleito pelas pessoas de Ferragudo, tenho de ter mágoa relativamente à ausência de respostas para Ferragudo, qualquer uma que seja a cor partidária que lá está. Certo que já estivemos bastante pior. Conseguimos, com a delegação de competências, ter um orçamento de quase 400 mil euros. Neste momento temos 200 mil. Dá para pagar as instalações, os funcionários, fazer um par de ações e pouco mais. Agora temos também o projeto ‘Arade In Vista’, que partiu de uma candidatura da Câmara ao PRR, num consórcio. São 900 mil euros, a que à Freguesia coube 20 mil. Somos um ex-líbris concelho, contudo o concelho parece que se esqueceu do investimento aqui.
Porquê este projeto e não outro?
Tudo o que for financiado, à partida, iremos concorrer. Sabemos que temos necessidade na saúde, na habitação, no estacionamento, mas são questões que não partem da Junta. Além da minha mágoa do não investimento aqui como nos outros locais, continua a haver projetos adiados. Há mais de 16 anos, numa visita da Assembleia Municipal, fizemos uma série de demandas quanto a novos investimentos. Alguns foram feitos, mas, por exemplo, o nosso projeto do Parque Biológico ou do Parque Urbano, que existia, ficou em suspenso. Algumas requalificações das ruas foram efetuadas, mas não é suficiente para aquilo que somos a nível concelhio, porque somos um ex-líbris. Outra grande mágoa é não haver um plano de defesa do casco urbano.
Isso permitia que Ferragudo continuasse a ser esse ex-líbris?
Evitava a degradação e a perda das características. Acho que a medida da suspensão do Alojamento Local (AL) na área de recuperação urbana é boa, face ao número de AL que já existem e são mais do que os habitantes, nessa zona urbana. Temos mais de 400 AL, o que é muito, e há também muitos edifícios devolutos. Salvo erro, segundo os Censos, são cerca de 1200 imóveis que não são de habitação permanente e é com isso que nos debatemos.
E outras prioridades?
Uma das nossas intenções a médio prazo e até final do mandato é constituir em Ferragudo um Núcleo da Proteção Civil, porque estamos mais perto das povoações e a lei dá-nos essa possibilidade. Quanto mais vazio está o casco urbano, menos pessoas estão na rua a vigiar o que é deles. Este ano, quando choveu bastante durante uma semana, quase todas as noites estava na rua por causa das marés cheias e não se via ninguém, exceto a Junta e os pescadores, ao contrário de há 10 ou 15 anos em que víamos pessoas preocupadas com os seus bens.
Qual é a grande diferença desde a primeira vez em que assumiu a presidência?
A primeira grande diferença é que toda a gente reclama de tudo e mais alguma coisa e, antigamente, as pessoas tinham consciência do que era possível fazer. Hoje, reclama-se, mesmo que a competência não seja nossa. Desde a água à eletricidade, até a problemas com os vizinhos. A outra diferença é que, cada vez temos mais burocracia, que previne a corrupção e a evasão fiscal, mas atrasa os procedimentos. Se tivermos alguém para nos construir uma casa ou fazer uma obra, sabemos que passamos ‘as passas do Algarve’. Colocar isso na função pública é dez vezes pior. É mais difícil, mas também é mais desafiante.
E qual foi o maior desafio?
Foi começado pelo presidente anterior e acabou no meu: a colocação de areias em Ferragudo. Pactuamos para sermos contra o alargamento do Rio Arade para fins de cruzeiros que colocam milhares de metros cúbicos de areia na freguesia. Conseguimos, com o apoio da Câmara que o projeto, ficasse condicionado devido aos achados do Rio, portanto só depois é que serão efetuados esses trabalhos. A draga já esteve aí e acredito que nem tão cedo voltará porque as condições estão sanadas. Outro desafio foi a recuperação da Casa do Real Compromisso Marítimo, com fundos próprios e do PROMAR, que se traduziu em dois a três anos de grande labuta. No entanto, não queremos acabar este mandato sem que se tornem realidades a sede dos escuteiros, a requalificação da zona do porto de pesca e sem que se comece algo ao nível da habitação. Enquanto há vida e mandato, há esperança. Estou aqui para dentro de três anos avaliar o que iremos fazer e o que foi feito.





