OPINIÃO | Mergulhos mal calculados: um segundo que pode mudar uma vida

Miguel Relvas Silva
Ortopedista no Serviço de Ortopedia da ULS São João e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Muitas vezes vistos como eventos raros, os mergulhos mal calculados continuam a ser uma das principais causas de lesões traumáticas da coluna vertebral, podendo representar até 24% das lesões cervicais traumáticas e afetando maioritariamente indivíduos jovens.
Todos os anos, com a chegada do Verão, praias, rios e piscinas tornam-se espaços de convívio, diversão e lazer. No entanto, o que deveria ser apenas um momento de descontração pode transformar-se, em poucos segundos, numa situação com consequências potencialmente graves e permanentes.
A confiança excessiva, o desconhecimento sobre as características do local ou a simples vontade de mergulhar ou brincar na água levam muitas pessoas a ignorar riscos significativos. Um fundo mais próximo do que o esperado e a presença de rochas ou obstáculos submersos podem provocar impactos violentos na cabeça e no pescoço.
Estas lesões da coluna vertebral são particularmente preocupantes. Consoante a gravidade, podem causar dor, alteração ou perda de sensibilidade ou força, que em situações mais severas pode representar paralisia (parcial ou total).
Além do impacto físico, afetam profundamente a vida pessoal, familiar, social e profissional das vítimas, exigindo longos períodos de tratamento e reabilitação. Trata-se de uma realidade que altera projetos de vida e que deixa marcas duradouras.
Perante este cenário, a prevenção assume um papel fundamental. Antes de mergulhar, conheça o local, verifique a profundidade da água, respeite a sinalização e evite comportamentos impulsivos.
Nunca mergulhe de cabeça em zonas cuja profundidade não seja claramente conhecida. Mantenha uma atitude responsável sobretudo entre os mais jovens, que tendem a associar a sensação de aventura à ausência de perigo.
Promova um ambiente de segurança junto de si e dos seus familiares e amigos, ao informar, educar e alertar quem o rodeia para riscos que muitas vezes são subestimados. E não se esqueça: se presenciar um destes eventos, não mova desnecessariamente a vítima.
Sempre que possível, mantenha a cabeça e o pescoço alinhados e peça ajuda médica urgente (112), pois uma lesão da coluna vertebral pode agravar-se com movimentos incorretos.
É neste contexto que a campanha ‘Olhe pelas suas Costas’ assume especial relevância. Através da promoção da literacia em Saúde, esta iniciativa pretende sensibilizar a população para a prevenção, diagnóstico e tratamento adequado das patologias da coluna vertebral.
Neste verão, vale a pena lembrar que um mergulho dura apenas um instante, mas as suas consequências podem acompanhar-nos para toda a vida. Gestos simples podem fazer toda a diferença, sem retirar a alegria e diversão tipicamente associadas a estes momentos de lazer. Porque cuidar da sua coluna é cuidar da sua autonomia, da sua qualidade de vida e do seu futuro.
Para mais informações, consulte o website da campanha (https://olhepelassuascostas.pt/).




