Opinião: A fórmula perfeita para uma adolescência de luxo – Parte II

Hélia Santos


A escola já dava sinais de desgaste com as cadeiras empenadas e as mesas cheias de pastilhas elásticas coladas por cima das declarações de amor perdidas no tempo. As janelas que deixavam o frio entrar e aquele teto falso castanho que caía aos bocados.
 
Éramos a primeira geração a trazer no bolso a comunicação móvel. Os primeiros a teclar à velocidade da luz e os “toques” eram a linguagem universal de um “estou a pensar em ti”. Já o som das teclas dificilmente passava despercebido para alguns professores e tentávamos sempre negar o óbvio. 

A internet ajudava a suportar a distância de um fim de semana prolongado, 10 minutos para ligar o computador e 30 para ligar ao servidor. Quando ouvíamos a janela do MSN a soar, voávamos da cama para a frente do ecrã. Jurávamos que eram apenas minutos a conversar, mas os nossos pais insistiam sempre que tínhamos passado a noite agarrados àquele cubo mágico.  

Chegava o dia de S. Valentim e os cochichos das entregas dos cartões vermelhos, dos ursos de peluche ou daquele CD escrito com todas as músicas que partilhávamos nos intervalos, ecoava na sala de aula. 

Afinal, éramos apenas adolescentes que se sentavam lado a lado na hora de almoço para dividir cornetos de morango. Tínhamos as paredes do quarto forradas com posters e cadernos de capa preta personalizados com corretor e canetas de cheiro. Víamos concertos ao vivo, a cores e sem gravações e só queríamos continuar apaixonados por quem se atrevia a gostar de nós da mesma forma.

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