Bicicletas de Sérgio Monchique saem de Ferragudo para o mundo

Texto: Hélio Nascimento | Fotos: Lagoa Informa
Sérgio Monchique, 47 anos, proprietário da Metro Bikes, ‘dispensa’ o Gonçalves que tem no apelido e prefere Monchique, que passou a ser, mais do que uma alcunha, um nome e uma referência no concelho de Lagoa e até além-fronteiras. Deixou a sua terra – Monchique, claro – aos 12 anos, mudou-se para Portimão com os pais e instalou-se, depois, em Ferragudo, onde vive e dá cartas na arte do restauro dos veículos de duas rodas. A bicicleta, aliás, é uma paixão que tem desde tenra idade.
“A alcunha é do tempo da escola. O Monchique ficou até hoje e faço questão disso, porque é mais fácil de fixar e passou a ser uma imagem de marca, sobretudo nos tempos em que competia”, conta ao Lagoa Informa, na garagem onde trabalha, rodeado de motos e bicicletas, algo que, como deu para perceber, o acompanha desde criança. “Em Monchique já movimentava amigos para fazer pistas e descer o cerro e ainda hoje falamos disso. Na primeira prova que organizámos fizemos um peditório na aldeia, que fica perto de Marmelete, para comprar gelados para os primeiros classificados”.
Com um sorriso mesclado de alegria e nostalgia, Sérgio, que então teria uns seis/sete anos, explica que o vencedor ganhava um Cornetto, o gelado que era o mais caro e mais popular da altura.
“Sempre fui fascinado pelas bicicletas e pelas corridas. Lembro-me que fugia de casa para ir à Foia, para ver o motocrosse”, prossegue, confessando, porém, que preferia conduzir uma bicicleta em vez de uma motorizada.
Na pacatez de Monchique, o agora empresário não tinha muito acesso às máquinas que deixavam um jovem arregalado, fossem topo de gama ou andassem lá perto. “Quando cheguei a Portimão deparei com um mundo novo, nesse aspeto, mas dispor de dinheiro para comprar uma bicicleta era coisa impensável. A primeira que tive a sério foi através de uma troca por um computador Spectrum, mais uns tantos jogos, e aí, sim, surge o período que marca o início da minha carreira”. A BMX e as tais corridas em pistas com obstáculos, saltos arriscados e curvas estavam ali, finalmente, mesmo à mão.
Um título que ainda hoje vende
Sérgio dedica-se a sério à competição, integrando o Clube Bicross de Portimão e disputando as provas de BMX Race, embora a sua predileção fosse o Freestyle, onde imperam as manobras no chão, nas rampas, num estilo livre. “Sempre quis criar e, de alguma maneira, inventar coisas novas. Acho que fiquei conhecido um bocado por isso, pelas manobras que fazia com os joelhos e as mãos”.
O percurso desportivo engloba os Campeonatos Nacionais e os Mundiais, e, num deles, em Espanha, em 1999, obtém um resultado modesto para as suas pretensões e para as do clube, recebendo de Nuno Águas, o presidente do Bicross de Portimão, o devido alerta.
“Absorvi aquilo tudo e preparei-me para fazer melhor. Já em 2000, em Colónia, na Alemanha, vejo o Nuno a correr para mim e a fazer um sinal com o dedo para cima: ‘Tu ganhaste, és campeão do mundo, o primeiro de Portimão!’, grita-me ele, feliz da vida. Um momento inesquecível” assume Sérgio.
Campeão mundial na classe master de amadores, o algarvio ‘disparou’ em termos de notoriedade. “Aquele título ainda vende, 26 anos volvidos, e as pessoas continuam a lembrar-se de mim”. Foi depois atleta da ‘Red Bull’, conquistou títulos nacionais e em 2001 passou para a classe profissional, com patrocínios de várias marcas, incluindo para roupas e ténis, e procurou também a qualificação para o circuito nos Estados Unidos, o que não conseguiu por muito pouco, quedando-se por um posto entre os suplentes.
“Em 2005 acabei a minha licenciatura, em recursos humanos, no campo da gestão, e, talvez cansado por andar sempre de trouxa às costas, pensei que estava na altura de fazer uma pausa e dedicar-me ao trabalho com o curso que tirei”. Sérgio deixou mesmo a competição, correndo só como hobby, mas o bichinho pelas bicicletas nunca desapareceu. Até que passou da ideia à prática: “Vou criar uma loja de BMX online! Lembro-me das primeiras peças, que comprava ou mandava vir de fornecedores, e, depois, restaurava e vendia. Fiz site, logotipo e assim nasceu a Metro Bikes”.
Enraiar e desenraiar rodas…
Sediada em Ferragudo, a empresa já era uma realidade em 2015, tendo evoluído de um projeto de garagem – que ainda hoje funciona e onde decorre a conversa – para se tornar uma referência internacional na criação de bicicletas personalizadas e no restauro de diversos modelos, como os vintages. Os clientes, esses, estão por todo o mundo.
“As coisas foram correndo bem. Comecei também a divulgar a marca em campeonatos e as encomendas não tardaram a aparecer. Tentei ser diferente do que já existia neste campo, e, na garagem da minha residência, que adaptei, efetuava todo o tipo de trabalhos”.
Curiosamente, Sérgio não tinha muita prática neste domínio da mecânica e do restauro. A propósito, lembra-se que por altura dos 12, 13 anos as rodas da sua bicicleta andavam sempre tortas e era frequente recorrer a um especialista, que lhe levava 500 escudos por cada arranjo. “Procurei arranjar uma solução e comecei a ver como enraiar as rodas, olhando para uma enquanto desenraiava a outra. Um amigo deu-me uma chave de raios (que hoje ainda tenho), o que mais me motivou. Desmontei, tentei montar e a partir daí não mais parei”.
O incentivo dos companheiros foi igualmente preponderante, uma vez que passaram a ter, assim, um ‘mecânico’ à mão de semear. “Arrisquei para aprender e satisfiz a curiosidade”, recorda Sérgio, desvendando mais uma das mil histórias de rodas e afins. E já agora, para quem não sabe, enraiar é o processo de colocar e ajustar os raios numa roda de bicicleta ou mota, ligando o cubo ao aro.
O interesse pelo restauro das motos surge mais tarde e vem na sequência do gosto do artífice em ver modelos antigos. “De início desmontava peça por peça, fazia transformações, partilhava tudo isto com um amigo, e, depois, surgiram outros trabalhos, com pedidos específicos. Modificava, pintava e a seguir vendia”, acrescenta, apontando para uma velhinha Honda 650, azul, que, diz, lhe serve de inspiração.
Um fenómeno de colecionismo
Não obstante trabalhar também com motos, a bicicleta tem para Sérgio “um peso importante”, inclusive porque, pós-covid, desenvolveu-se um fenómeno de colecionismo da BMX. “É um movimento mundial, com algum foco nos anos 80 e 90 e imensa nostalgia. Tenho vários clientes com 50 e mais bicicletas”, garante, aludindo a um de Cascais e a um outro, da Malveira, que já deve ter ultrapassado as duas centenas.
Nesta sequência, porque o fenómeno não é só nacional, o negócio ganha contornos de enorme dimensão e de Ferragudo saem “encomendas para vários países, nomeadamente Austrália e Estados Unidos da América”. O facto de estar numa plataforma norte-americana do ramo contribuiu para o ‘boom’, que, no entanto, arrefeceu agora um pouco.
“Arranjo material, compro ‘stocks’ antigos e faço as vendas para o estrangeiro. Tenho um cliente e amigo, em Las Vegas, que já elogiou por diversas vezes o nível deste trabalho em Portugal”, vinca o proprietário da Metro Bikes, aludindo à “apresentação incrível” dos veículos. “Nada disto existia antes. Há pessoas a darem balúrdios, tipo 3000 euros por um quadro de uma bicicleta”, prossegue Sérgio, que recorre a um pintor e recebe os autocolantes feitos por um ‘parceiro na Hungria’. Tudo o resto é da sua lavra. “Dedico-me totalmente a isto! Chego a ficar aqui até à meia noite e tal e às seis da manhã estou de volta”.

Seja como for, não se considera uma pessoa ‘engenhocas’, centrando mais a sua atuação na descoberta de soluções e recorrendo à inspiração para ser diferente em cada trabalho. “Um cliente da Figueira da Foz, curiosamente, disse que gostava dos meus restauros, porque exponho as coisas de maneira natural, sem excessos. Até com o brilho sou cuidadoso, gosto de tudo com o aspeto o mais natural possível, sem descurar, claro, uma boa qualidade”.
Sérgio compra algumas bicicletas e outras são lhe entregues para fazer as devidas modificações e embelezamentos. Muitos dos clientes querem saber como tudo se processa e até que sites utiliza, mas o segredo é, também neste particular, a alma do negócio. “Tenho pessoas fantásticas que me apoiam e cujos comentários me emocionam. Em termos de restauro não há muita gente a fazer isto, é verdade, e acresce que eu levo tudo muito à risca”.
Há mais projetos em carteira para expandir a sua arte, incluindo um espaço novo, naturalmente em Ferragudo, que não tardará a abrir. “É isto que quero continuar a fazer, tornando-se inevitável ter algumas pessoas a trabalhar comigo, e, nessa circunstância, vamos alargar o conceito, mas sempre com muita calma. É preciso pensar tudo e ter uma dedicação cada vez maior”.
Valorizar o trabalho e elevar o nível
O papel de Sérgio Monchique neste domínio das bicicletas não se resume só ao restauro, uma vez que, amiúde, colabora e ajuda a organizar eventos, como sucedeu, recentemente, na ‘Fusion Fest’, iniciativa que reúne cultura, arte, música e desporto num só espaço e que decorreu no Portimão Arena. “Um dos principais objetivos é valorizar o produto e ao mesmo tempo os colecionadores, enriquecendo até o país. Mês após mês e ano após ano as bicicletas valem mais, como sucede com as motos e os carros antigos. A tendência é essa, a de valorizar o material e as coleções, e tenho tentado fazer que isso se torne uma realidade”. Neste autêntico ‘bike show’ foi entregue, pela primeira vez, um prémio monetário (de 100 euros), contemplando a melhor obra, em termos gerais, do restauro à conservação, aos autocolantes, à pintura, aos cromados e às rodas. “Deste modo também existe uma competição saudável, porque todos querem ter a melhor máquina”, conclui o empresário, referindo mais uma vez o “elevado nível alcançado em Portugal” nestas exposições.





