Voluntários mantêm viva a tradição da faina em Portimão

Quase três semanas antes da data, prepararam-se as vozes, os corpos, as vestimentas e treinou-se todos os dias para apresentar uma recriação da descarga da sardinha o mais fiel possível. A esta hora, já os voluntários têm o merecido descanso, depois de no dia 4 de agosto se terem empenhado em mostrar a todos um dos episódios que marcavam o dia a dia da faina em Portimão.

São voluntários, já se sentem família, daquelas que se reúnem no verão para passar momentos agradáveis e é, em grande parte, por culpa deles a que se deve o sucesso da recriação da descarga da sardinha, promovida pela Câmara Municipal de Portimão, através do seu Museu, há seis anos, sempre no arranque do Festival da Sardinha.
O cenário é o Cais Gil Eanes, onde antes se realizava toda esta operação, até à data em que a mesma passou para o outro lado do Rio Arade. Perdeu-se a mística, com todos os avanços tecnológicos, mas ficaram as memórias que este grupo alargado de voluntários faz questão de manter viva.

Ainda que não seja um retrato histórico real, é uma visão, uma interpretação dos segredos que aquele Cais guarda. A chegada da traineira, o roubo do peixe, a venda da sardinha, os turistas que se chegavam à beira para assistir, com curiosidade, a toda esta azáfama.

Foi isso que fizeram no dia 4 de agosto, mas já estavam a ensaiar desde dia 15 de julho, às tardes, no Auditório do Museu. Num desses dias, o Portimão Jornal foi visitá-los. O grupo seguia a batuta de Vítor Correia, que, qual maestro, vai dando indicações. É o encenador e dirige esta recriação que caracteriza como comunitária, desde o início.

“Sou ator e encenador, de Tavira, mas trabalho a nível nacional. Faço cinema, teatro e integro a associação cultural ‘Armação do Artista’, sediada nesse concelho, explica.

Antes de passar a palavra aos atores voluntários, deixa bem patente que “sem eles não era possível” levar esta iniciativa adiante, pois são “aliás o grande trunfo desta recriação comunitária”. “Sem estes diamantes humanos, se calhar, dificilmente conseguíamos levar isto a bom porto”, resume.

Histórias de ficção que são histórias de vida
E desde logo, no grupo se destacam duas personagens: José Pina e João Águas. Um era lançador e o outro apanhador. Tal e qual como no tempo em que trabalharam nesta atividade, no mesmo local, onde agora decorre a recriação.

José Pina afirma que gosta de participar, porque “recorda o trabalho de antigamente” e que algumas pessoas nem têm ideia do que era. O seu parceiro, João Águas, sublinha que era isto que faziam e estas apresentações deixam muitas saudades. “O jogador sofria a atirar o peixe cá para cima, mas o apanhador também. Estamos a fazer o mesmo que fazíamos naquela época e agora, se calhar, já não haveria muita malta que fizesse isto”, começa por explicar. “Estávamos sempre ali quatro, cinco ou seis horas, sempre a jogar, e enquanto não havia ordem não saímos de lá”, descreve com emoção.

Daí as saudades de outros tempos que já não voltam e, mesmo que assim fosse, a idade já não permitia, acrescenta José Pina. Mas o que lhes dá alegria é “dar ao público aquilo que eles nunca viram e nem imaginam o que era”, garante.

Teatro foi um acaso
José Brito está perto a ouvir os seus colegas. Trabalhou muitos anos com os ‘números’ na EMARP e chegou a assistir à descarga, mas não lidou com esta profissão. Nesta aventura do teatro, que abraçou depois de se reformar, encontrou a personagem do ‘Zé Peixeiro’, de Lagos, que passou a comprar peixe em Portimão, porque o mercado na sua terra estava fraco. “Sou peixeiro, mas daqueles pobres, porque também há alguns ricos que compram tudo e nem dão hipótese a mais ninguém”, começa por descrever com boa disposição. “O que encontrei aqui foi um grande cambalacho, porque há três anos que aqui estou e nunca me deixaram comprar peixe. Tenho de recorrer à malta das chatas e só depois consigo arranjar. Acho que é porque sou de Lagos”, conta entre risos.

Uma história que, apesar de longínqua, acontecia naquela época. E foi esta história, o grupo e toda a envolvente que o levou a achar piada e a aceitar o desafio. Desde aí ficou o ‘bichinho’.

Havia naquele tempo também, uns miúdos novos que roubavam à socapa umas sardinhitas. Dinis Brás tem 12 anos e há cinco que se especializou nesta personagem. “Vou tentar roubar sardinhas”, conta ao Portimão Jornal o jovem, cujo avó e bisavó estiveram ligados à pesca. Descobriram-lhe o jeito para o teatro numa das edições das Férias Desportivas, o João Bota, que o incentivou a participar. E assim foi e continua a ser uma das presenças assíduas nesta recriação.

Um ‘plantel’ de figurantes que diz sempre presente
Há muitas mais personagens que dão corpo a esta iniciativa do Museu de Portimão já premiada com uma menção honrosa na categoria de ‘Inovação e Criatividade’ pela Associação Portuguesa de Museologia.
Alvarinho dos Santos integra o ‘plantel’ pela segunda vez e conta que há dois anos inventou a sua própria história. “Ia pedir sardinhas às salgadeiras. Dizia que era viúva e tinha filhos. E pedia. Fazia um choradinho e, quando precisava, também roubava à socapa”, descreve a atriz que reencontrou no teatro uma forma de escape. O marco foi a inauguração do Salva-vidas de Alvor, na qual participou pela primeira vez e que mudou a sua vida.

Ao lado, Fernando Guerreiro, encarna o comprador de peixe na lota. Já é um ‘habitué’ nestas andanças que concilia com o ensino de aulas de dança no Instituto de Cultura de Portimão (ICP). “Desde que tenha disponibilidade, gosto de ter o tempo ocupado e se me dá prazer, melhor. Na verdade, ainda sou do tempo de ir buscar peixe e assistir à descarga, porque o meu pai tinha lá conhecidos”, recorda. Diziam-lhe para levar um balde e ir buscar peixe e este é um dos episódios que está gravado na sua memória, dos seus tempos de juventude.

Fátima Pires, por sua vez, é quase uma estreante, pois só participou na recriação no ano passado e neste como compradora de sardinha. “Fui convidada pela dona Maria Augusta Rodrigues. Estou no grupo de Cantares” do Glória ou Morte, mas nunca tinha assistido a esta ‘lufa lufa’ da faina, até porque é natural do Alentejo e está em Portimão há 16 anos.

Há ainda neste grupo Maria Helena Rosa, que participa, porque já está reformada, tem tempo livre e considera deveras importante manter estas memórias vivas. “Moro em Portimão há 50 anos e tenho uma vaga ideia do que acontecia”, tal como muitas outras pessoas que não tiveram um contacto tão direto com esta realidade. Aqui, é a salgadeira de serviço. “Temos um cesto com sal e vamos salpicando as sardinhas até que sigam o seu destino”, conta.

Neste rol de personagens há ainda Fernanda Mourinho, que sempre teve o gosto pelo teatro desde pequena. “A velhinha pedinte… pedi ao Vítor para o fazer, porque sou de Silves e quando vinha a Portimão em pequena, lembro-me de ver uma velhota a pedir, que cheirava mal, estava sempre toda rota. Ao conversar com alguém daqui, disse-me que também se lembrava dela”, afirma. Por isso, resolveu encarnar esta figura que ainda tem na memória e, quando na recriação lhe dão moedas, invés de notas, roga pragas, ao estilo daquelas de Alvor.
É que este grupo leva mesmo a sério a recriação e tenta sempre encontrar formas de bem retratar estes episódios.

Neste dia, estavam ainda nos ensaios Maria Augusta Rodrigues, que encena uma turista. “Faço isto há muitos anos, quando estava no ICP e fazíamos o Arribalé junto à entrada de Portimão”, conta. Lidera grupos de teatro e dança no Glória ou Morte, sendo ela que dinamiza as ‘Vozes do Glória’.

“O Glória ou Morte dá-me a chance de continuar. Ali tenho 70 pessoas distribuídas por vários grupos”, contabiliza, afirmando que a recriação é algo que gosta bastante de fazer.

Há ainda Maria Isabel Oliveira, figura bem conhecida em Portimão, pelo seu percurso na cidade. Para si, viver esta recriação é sempre uma grande emoção. “Sou filha de pescador. Sou de Carvoeiro e Benagil, mas estou cá há mais de 70 anos. A minha família era quase toda de pescadores e esta é uma forma de recordar. Cheguei a alar rede, ia com eles para as traineiras… Está ali o Portugal I, onde o meu pai ainda trabalhou”, confidencia.
E como Maria Isabel Oliveira, muitas mais pessoas há, a quem esta recriação muito diz. Não porque está perfeita ou porque é fidedigna, mas porque desperta memórias, desvenda emoções e, porque, no fundo mantém viva a identidade das gentes, antepassados que fizeram da pesca a sua vida.

Memória e identidade

A recriação da descarga da sardinha celebra um dos episódios mais marcantes da história da pesca em Portimão, preservando a memória coletiva da antiga lota, que funcionou na zona ribeirinha até 1987. A iniciativa envolve as traineiras ‘Arrifana’, ‘Portugal Jovem’, ‘Travesso’ e a enviada ‘Moira’, reforçando a autenticidade desta reconstituição. Pedro Branco, do Museu de Portimão, responsável por acompanhar este grupo e a recriação, recorda que tudo começou em 2019, quando alguém lançou a ideia. O Museu agarrou e desenvolveu o projeto. “Demos corpo a esta missão e, desde a primeira hora que, em conjunto com o Vítor, vamos falando em ‘família’ e acertando pormenores. Uns foram contemporâneos, outros não, e, no decurso de todo o trabalho científico e de recolha, tentamos fazer a melhor recriação possível”, avança ao Portimão Jornal Pedro Branco. Admite que não gostam de utilizar o termo ‘histórica’, porque não conseguem especificar nesta recriação uma década em concreto. “Tentamos é recriar o espírito o melhor possível com este corpo de voluntários”, defende. E conseguem. Pelo menos, quem assiste, consegue sentir esse espírito e o ambiente característico.

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