Analita Santos fez da escrita e da leitura o seu mundo 

Texto José Garrancho | Foto: D.R.


Durante a crise económica de 2011, a saúde da profissional ressentiu-se e, enquanto estava de ‘baixa’, analisou o que gostava de fazer. Chegou à conclusão de que a escrita e a leitura eram parte integrante do seu ser, desde sempre. E, a partir daí, apostou na formação nesta área.
 
Simplesmente mudou a sua vida?
Sim e enveredei pela carreira do ensino. A última formação que concluí foi um mestrado internacional em escrita. Fiz todas as formações que podia fazer, embora não tivesse essa componente de formação inicial. Depois, dei aulas na Universidade do Algarve e na Escola de Hotelaria e Turismo. E ainda continuo a colaborar com ambas. Em 2019, tivemos a Covid e necessitei de me reinventar novamente. E comecei a dar as formações online. Sempre pertenci a clubes de leitura das bibliotecas municipais de Portimão e Lagoa, e tivemos de parar. Então, iniciei o meu clube de leitura online, que mantenho, porque não consigo conciliar a escrita sem a leitura. E foi a partir da Covid que iniciei esta vertente diferente, online, com as formações, apoio a outros autores para fazer o seu percurso, o projeto da revista literária ‘Palavrar’, o podcast. E também tenho uma agência para trabalhar o marketing e a comunicação com os autores.

E também escreve, ou só ensina a escrever?
Escrevi dois livros, um infantil e outro infantojuvenil, mas o meu livro mais conhecido é o ‘Erros de português, nunca mais’. Porque, no mundo da escrita, muitos autores começam como independentes, ou com editoras a quem pagam para ser publicadas. Fiz o percurso todo dessa forma e, atualmente, não coloco de lado as edições de autor, porque acho um processo importante, quando as coisas são bem feitas, em que o autor é responsável, mas contrata os serviços de profissionais para fazer a edição, a revisão, a capa, a paginação, o design, e consegue um bom produto. Principalmente, quando os autores sujeitam os seus projetos a uma leitura crítica.

E os autores aceitam bem as críticas?
Alguns, não. Enviam os seus projetos para ter um parecer, mas parece que estão à espera de que eu diga que está tudo bem. E, às vezes, nem estou a falar da parte da escrita, do vocabulário, mas das personagens, ou do conceito da verosimilhança, porque os leitores têm de entrar na história e acreditar que aquilo pode acontecer e, por vezes, tal não acontece. Dizer isso a algumas pessoas, principalmente quando já escreveram muito, através dessas editoras pagas, e pensam que sabem escrever, deixa-as ofendidas. Mas outros compreendem. Não quer dizer que não apareçam pessoas que sabem escrever bem. Mas a primeira versão é a base para começarmos a trabalhar e as pessoas enviam a primeira versão e os amigos, que não são críticos literários, dizem que está muito bonito e as pessoas vivem na ilusão de que o livro está perfeito.

Quer dizer que a sua relação com a escrita foi precoce, por um lado, mas tardia, por outro?
Podemos dizer que sim. Se recuarmos muito, fui sempre boa aluna a português e sempre gostei muito de ler. Mas a minha formação, por várias razões, acabou por não ser nessa área, porque vivo no Algarve e pareceu-me ser melhor opção uma formação na área do turismo. Mas sempre escrevi e, curiosamente, no início, escrevia poesia, os desabafos da alma. Eu dizia que as dores da Florbela Espanca eram as minhas. Uma adolescência difícil levou a que os sentimentos e a relação com o papel começassem a crescer. Sou muito criativa e desenvolvi a escrita, a nível profissional, porque colaborei na redação de revistas, em alguns hotéis onde trabalhei, era ‘ghostwriter’, fazia os textos para enviar para os jornais. Mas fazia-o numa perspetiva mais comercial. A criatividade ficava para a gaveta. Só em 2019 é que escrevi o meu primeiro livro, que acabou por ser uma história infantojuvenil, que conciliava uma outra grande paixão, a educação ambiental, relacionada com a biodiversidade marinha. O biólogo Filipe Bally participou com a componente de biologia. Também fiz parte do grupo inicial por detrás da movimentação para a defesa do João d’Arens. Portanto, a escrita começou tardia, por volta dos 45 anos.

Os escritores não começam, geralmente, muito mais cedo?
É verdade. Mas já falei com várias pessoas que me disseram que comecei quando a minha escrita atingiu maior maturidade. E no próximo ano, se Deus quiser, sairá o meu primeiro romance. É tardio, mas, se calhar, é na altura certa.

Sente-se mais formadora ou escritora?
O coração é de escritora, mas é a formação que garante o meu ganha-pão. Aliás, poucos escritores, em Portugal, conseguem viver só da escrita. Têm sempre outras áreas que acabam por estar relacionadas. Aliás, também sou, com muito orgulho, ativista literária. Procuro incentivar as pessoas a ler.

Como pratica esse incentivo?
Tenho dois clubes de leitura online. Num, selecionamos 12 livros por ano, o que dá às pessoas o prazer da leitura. Outro, com o apoio da editora Lua de Papel. E o clube de leitura presencial na FNAC da Guia. E o objetivo é levar as pessoas a ler. Não só as pessoas que gostam de ler, porque essas são as mais fáceis, como as que não gostam e acabam por descobrir o prazer da leitura.

Como é que a sua formação académica influencia a sua atividade como formadora?
Essa pergunta é muito pertinente. Influencia, não só na formação da escrita, mas em todos os meus projetos. Porque, na área de hotelaria, nomeadamente quando se fala de cinco estrelas, como foi o meu caso, com gestores com uma visão elevada da gestão de negócios e elevado nível de exigência, acabamos por moldar a forma como trabalhamos. A gestão da formação da escrita tem todas as suas dinâmicas elaboradas, mas o meu rigor vem da minha vida profissional anterior.

Considera que a escrita se aprende formalmente, ou é, acima de tudo, intuição e prática?
Acredito que, acima de tudo, necessitamos de ter o dom, uma apetência natural para. Como no desporto, no teatro… na verdade, em tudo. Mas, se não for trabalhado, se não procurarem a excelência, não chegam lá. A escrita é uma arte e um ofício. Necessita de burilar a palavra. Existe um dom, mas é necessário trabalhá-lo, ou não se chega a lado nenhum.

E, se não houver esse dom?
Partimos sempre dos livros e eu digo que são o nosso melhor mestre. Quando me iniciei a escrever, não tinha ninguém que me ensinasse. Aprendi com a leitura. Muitos escritores aprendiam com outros escritores, pedindo-lhes para ler e dar a opinião. E isso contribuía para evoluir. Logo, não se ensina, mas partilha-se, falando nas estruturas narrativas, nas técnicas literárias, na construção de personagens. Muitas vezes, apenas fornecemos a clareza desses conceitos.

Quando é que se apercebeu de que havia procura para este tipo de projeto?
Quando pensamos no conceito de realização da vida, o que é que as pessoas, normalmente, dizem? Escrever um livro, fazer um filho e plantar uma árvore. Existe o desejo de escrever um livro na maior parte das pessoas. Muitas vezes, não é com a perspetiva de uma carreira, mas para deixar um legado. E também há as pessoas que necessitam de escrever, porque estão numa área profissional técnica e necessitam de mais autoridade na divulgação das suas ideias. Logo, trabalhar nas técnicas da escrita é importante. Já passaram mais de 500 pessoas pelas minhas formações remuneradas. Pelas gratuitas, mais de 12 000. Porque tenho esse sentimento, quase espírito de missão, de partilhar com as pessoas. Assim, ficam a conhecer o meu trabalho e, eventualmente, poderão vir a trabalhar comigo. Mas também existe a componente da democratização do conhecimento, se assim lhe podemos chamar.

‘O Prazer da Escrita’ foi pensado como projeto cultural, ou como negócio?
Nas duas vertentes, porque muito do que faço é gratuito. Os clubes de leitura são gratuitos. E as formações gratuitas são parte da missão. O incentivo à leitura é muito genuíno, porque os livros já me ajudaram em muitas fases da minha vida. Tal como a escrita, que possui uma componente terapêutica. O grau de entrega que coloco no que faço, se fosse na perspetiva de negócio, não era autêntico. E as pessoas sentem isso. É mesmo genuíno, é a minha paixão. E isso faz toda a diferença. Chego a trabalhar das 9h00 até às 23h00. Mas o almoço é sagrado. É a pausa que faço para conviver. Foi por isso que sugeri o almoço para esta conversa.

Pode fazer um resumo desta sua vertente de formadora?
Iniciei a formação de escrita em 2011 e comecei a instrução na área da formação online em 2019. Tive de agarrar nos meus conhecimentos e fazer a transformação necessária para dar formação à distância. É um trabalho específico, porque não é apenas transmitir os conhecimentos. É prepará-los e saber aproveitá-los para que as pessoas os saibam utilizar na escrita. Costumo dizer que conhecimento bom é aquele que é posto em prática.

Qual é o protótipo dos participantes nas suas ações formativas?
São principalmente professores, advogados, médicos, terapeutas, embora haja pessoas de outras profissões. Tive, uma vez, um motorista de táxi, que assistia às aulas online no carro. Em termos de idades, a partir dos 30. Já tive pessoas com mais de 60 anos, mas com muita vivacidade, sabedoria e vontade de aprender. Considero-me privilegiada, porque tenho a oportunidade de trabalhar com pessoas fantásticas que também me inspiram e fazem com que eu também queira continuar a aprender.

E o que procura a maioria?
Tenho vários cursos. Um, que se chama ‘Escrita em Ação’, cujo objetivo é que as pessoas melhorem as suas competências de escrita. É aquele que chamo o meu curso de entrada. Mas também tem um módulo de escrita ficcional, mas genérica. Depois, tenho alguns cursos mais específicos para escrever um romance.

Qual o erro mais comum de quem começa a escrever?
É pensar que a primeira versão é o livro finalizado, quando é só o início. E pode ser complicado, para muitas pessoas, aceitar esta realidade. E as editoras pagas fomentam esse tipo de sentimento.

Os cursos de escrita criativa criam expetativas realistas nos formandos?
Eu chamo-lhe escrita ficcional e dão-lhes objetividade. Trazem-lhes a consciência real em relação à sua escrita. Nunca é uma falsa promessa; pelo contrário, é perceber o grau de complexidade do processo de escrita. O entender que a escrita, principalmente quando se fala de romance, não é baseada na inspiração, mas no trabalho. Portanto, as pessoas saem das formações com a ideia de que dá trabalho, mas sabem como fazer.

Mas há diferenças geracionais na relação com a escrita, não há?
Isso faz parte do devir dos tempos. E eu, apesar de já ter meio século de vida, não sou apologista de que ‘no meu tempo é que era bom’. Mas nunca se escreveu tanto como agora, com as mensagens.

Qual a influência das redes sociais na escrita e como equilibra a profundidade de uma obra literária com a comunicação rápida das mensagens?
Isto não se aplica só à relação com a escrita ou com a leitura. Todos nós vivemos vidas muito aceleradas e o escrever ou ler, que implicam tempo, fazem com que as pessoas possam afastar-se, porque vivemos tudo mais rápido. É sistémico e não só relacionado com a escrita e a leitura.

Num mundo dominado pela imagem, acha que a escrita ainda tem futuro?
Os livros continuam a existir. Há ebooks e, ultimamente, audiobooks, mas não passam de formas complementares. Há quem pergunte se audiobook é ler? É contar uma história, uma forma de arrumar as palavras e tem a ver com a literatura. Mas o livro em papel será sempre importante e o conhecimento é poder.

Uma escrita que “versa o universo, o sagrado e o profano”

“Os meus pais não eram leitores. Mas a minha avó era testemunha de Jeová e iniciei a leitura com ‘O Meu Primeiro Livro de Histórias Bíblicas’. Por isso é que a minha escrita versa o universo, o sagrado e o profano”, justifica Analita Santos. Considera que, as grandes incentivadoras de leitura, que lhe sugeriam livros, foram as funcionárias da Biblioteca Municipal de Lagoa. “Com 12 ou 13 anos, li Edgar Allan Poe, Gabriel Garcia Marquez e vários outros”, recorda a autora.

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